Nata: Tangenciamento histórico sem historicismo.

Antes de entrar com mais especificidade no conteúdo do texto proposto, tendo como alusão a temática acima, na razão da polaridade e clima antagônico que se criou ao longo de séculos quanto a historicidade ou não de determinados relatos cuja ênfase incide sobre assuntos de natureza religiosa. Faz-se necessário, a nivel de esclarecimento, a utilização da terminologia "Tangenciamento Histórico". Sua utilização é apenas plausível, como pode ser bastante sofisticada e útil para o argumento que objetivo desenvolver, desde que devidamente definida e contextualizada. É evidente que a análise de plausibilidade ou não dependerá dos potenciais significados seguidos das ressalvas, claro. Primeiro, precisamos buscar um entendimento factível quanto a pertinência dessa plausibilidade. Visto que o tema deste artigo. Visto que a linha temática deste artigo trilha quanto a natureza histórica (ou não) de um fenômeno religioso e seu alcance ou desdobramento ‘universal’. O uso do termo “tangenciamento histórico” se encaixa perfeitamente. Ele sugere uma relação que não é de centralidade ou determinação, mas de contato, aproximação e influência lateral, ou sabe, radial se assumirmos a ideia de circularidade cíclica. Sem que venhamos a nos submeter a um enquadramento historicista rígido.

O contexto que proponho para ‘Tangenciamento Histórico’ pode ser definido como uma relação  de toque, não de fusão: O fenômeno religioso “tange” a história, ou seja, faz contato com ela em pontos específicos(contexto de surgimento, figuras fundadoras, eventos de disseminação), sem que a sua essência, mensagem ou projeção sejam reduzidas a meros produtos históricos. Uma salvaguarda metodológica: É um conceito operacional que nos permite reconhecer a dimensão histórica sem adotar a premissa de que tudo no fenômeno é historicamente determinado e explicável. A proposta é evitar o reducionismo. Fica totalmente fora de cogitação a análise crítica e reducionista de alguns historiadores que ao tratarem da temática religiosa atribuem a sua totalidade o conceito de “ficção”. É sintomático e significativo que tenhamos a atitude, essa atitude é o que é a partir de uma postura metodológica. De que todo e qualquer fato histórico é passível de ser revestido de uma roupagem religiosa, dessa maneira a combinação é bem fluida com o “tangenciamento”. A roupagem(linguagem, instituições, práticas adaptadas a culturas) pode ser historica, mas o núcleo simbólico ou a experiência que ela veste pode ser apresentado (pelos fiéis) e analisado (por aquele que investiga,  com cuidado) como transcendente ou de outra ordem. A explicitação de um Modus Operandi: Mostra como o fenômeno lida com a história: não a ignora (como um ahistoricismo faria), nem se deixa capturar por ela (como o historicismo pretenderia), mas a utiliza seletivamente, a reformula, ou a "tangencia" para ganhar tração no mundo.

Como agir de tal maneira que possa ser inserido neste artigo e seja, por conta disso, uma estratégia recomendada. Para que o termo seja bem recebido e cumpra sua função que é crucial? Primeiro de tudo, foi o que objetivamos fazer. E acho que cumprimos com este objetivo. Dedicamos um parágrafo para definir o termo logo em sua primeira aparição. Fiz questão  de enfatizar a utilização do neologismo ‘tangenciamento histórico’ para designar a relação específica que o fenômeno [X] estabelece com o processo histórico. Não se trata de uma negação da história, nem de uma submissão à sua lógica determinista (historicismo), mas de uma operação pela qual o núcleo doutrinal ou experiencial do fenômeno toca, se adapta e se expressa através de contingências históricas, sem, no entanto, derivar dela sua validade última ou seu potencial de projeção global." O que não deixa de ser um contraste com outras abordagens, já que ao agir assim posiciono o termo clem um continuum metodológico. À luz de dois extremos: A e B. A( historicismo estrito); B (ahistoricismo). Na proposta (Tangenciamento): O fenômeno interage com a história de forma seletiva e instrumental, usando-a como meio, não como origem ou fim. Um exemplo concreto, ilustra como um caso do objeto de estudo nesta investigação, onde um conceito religioso universal que se reveste com exemplos históricos locais para se fazer inteligível, ou como uma prática se adapta a diferentes contextos nacionais sem perder suanidentidade global. Por outro lado, a utilização  de um neologismo demanda de nossa parte algumas ressalvas e cuidados. O neologismo, por ser um termo novo, sua clareza e definição são fundamentais para não confundir o leitor. Corre-se o risco de parecer evasivo. Daí a necessidade de certificarmos que “tangenciamento” não soe como uma fuga da análise histórica concreta. O termo deve permitir que se faça a análise histórica (dos pontos de contato) e, ao mesmo tempo, discuta seus limites. Se possível no debate com a teoria, devemos vincular o termo a debates teóricos conhecidos. Foi o que objetivamos fazer, embora ainda não esteja convencido de que alcancei este ponto chave. Entretanto, o patamar de balizamento desse aspecto investigação percorre o liame que vai da Crítica ao historicismo (de filósofos como Karl Popper ou, na teologia, à discussão sobre o “Jesus histórico” vs. o “Cristo da fé”). À noção de "invenção da tradição" (Hobsbawm), que mostra como elementos "históricos" são construídos. Aos conceitos de "acomodação" ou "inculturação" na teologia e sociologia da religião. À ideia de "escatalogização da história" em algumas religiões, onde a história recebe um sentido transcendental.

A meu ver, é perfeitamente plausível e pode ser uma contribuição conceitual valiosa. O termo "Tangenciamento Histórico" funciona como uma ferramenta analítica precisa para capturar a dinâmica complexa de fenômenos religiosos de projeção global, que precisam se ancorar em contextos históricos para se disseminar, mas cuja legitimidade e apelo frequentemente repousam em uma afirmação que vai além (ou à margem) do histórico stricto sensu. Ao definir o termo com clareza, contrastá-lo com abordagens reducionistas e aplicá-lo a exemplos concretos, é possível fortalecer significativamente a estrutura teórica deste artigo. É o que doravante me comprometo a fazer. É muito natural e auspicioso que ao nos aproximarmos das celebrações de fim de ano deixemos toda e qualquer questão que, do ponto de vista histórico e teológico, possa inviabilizar todo e qualquer clima de festa. O Natal está aí para ser comemorado. E, se não é a maior, é, com certeza, uma das grandes festas de celebração da cristandade, tanto no ocidente quanto no oriente. E falar de Natal é falar de nascimento. Todos os dias, nos lares espalhados por este mundo, são milhões de natais(nascimentos) acontecendo. Com certeza, a grande maioria deles, ou seja, numa ordem de grandeza, 99,9% (noventa e nove, vírgula nove por cento) deles não serão catalogados para efeito de registro de um acontecimento que mudará o rumo da história e da humanidade. Os registros quando acontecem são para que o estado possa ter um controle total de seus cidadãos, ao mesmo tempo que: De posse de tais informações possa prover e planejar boa parte de suas políticas públicas. Entretanto, o Natal em questão, e objeto dessa investigação, tende a se restringir a uma abordagem de cunho teológico e, ao mesmo tempo, se dispõe a tangenciar quanto aos dados de que dispomos atualmente, os quais tendem a reforçar argumentos de natureza histórica, por outro lado, flertando com o historicismo. Porque, na condução deste texto, primo pela preferência a nível de investigação a partir de uma abordagem teológica, para só depois elencar os dados de natureza histórica? As respostas, pois não são apenas uma, são as mais simples possíveis e que estão ao alcance de todos. Estão ao alcance de todos pelo fato de a Bíblia ser, enquanto registro de um acontecimento: Mateus 1:1, pelo menos, no Ocidente, o livro mais lido do mundo. Também pelo fato de que o livro texto, dentre os quatro evangelhos canônicos, estamos falando agora e especificamente do evangelho de Lucas, ao fazer menção deste Natal, em especial, estabelece uma relação com um dado histórico na razão direta de seu registro(Flavio Josefo em Antiguidades Judaicas 18:1-2). Ou seja, não fosse o Natal, primeiramente na perspectiva teológica tal qual nos apresentam os evangelhos canônicos, em especial o evangelho de Lucas. O Natal não seria Natal, e sim natais, nascimentos como acontecem todos os dias e em todas as partes do mundo onde o ser humano e sua família tenham se estabelecido.

Agora, qual a natureza deste registro histórico a que o evangelho de Lucas faz referência em sua narrativa? Se nos voltarmos na direção deste evangelho e passarmos a analisar a forma como traz para sua narrativa o fato histórico(Um decreto imperial no sentido de que se fizesse um Censo). Este também é o motivo pelo qual uma família estabelecida em Nazaré da Galileia terá que se deslocar para a cidade de Belém na Judeia. José sendo o chefe da casa e por ser de origem ou linhagem real: Ele era da casa e da família de Davi(Lucas 2:4). Os rabinos tendem sempre a contestar que, se Jesus é filho de Deus, logo não é um judeu. A contestação surge de diferenças teológicas fundamentais sobre a natureza de Jesus. A rejeição judaica da concepção cristã de messianidade e divindade. São, grosso modo, questões polêmicas em debates inter-religiosos. Mas do ponto de vista histórico, genealógico (pelas regras judaicas) e contextual, a afirmação "Jesus era judeu" é amplamente aceita, mesmo quando suas reivindicações messiânicas e divindade são rejeitadas pelo judaísmo. A verdadeira divisão não é sobre sua identidade étnico-religiosa, mas sobre como essa identidade se relaciona com suas reivindicações e o significado que os cristãos atribuem a ele. A rigor, é um debate ou discussão construídos sobre diferentes planos. No debate e discussão com os rabinos o fator histórico é ambiente e terreno comum. Historicamente, estudiosos (incluindo historiadores judeus como Geza Vermes) afirmam que Jesus de Nazaré foi um judeu do século I que viveu como judeu, pensou como judeu e debateu dentro do contexto do judaísmo de seu tempo. Agora, o arcabouço histórico onde Lucas insere como elementos históricos a origem e linhagem de José como descendente de Davi é também carregada de plausibilidade no ambiente e contexto judaico do século I. Principalmente, se considerarmos a existência de famílias davídicas atestados em fontes da época. A necessidade messiânica criada pelo governo herodiano (visto como ilegítimo), criava tanto insatisfação, quanto expectativa por uma figura que ocupasse o trono de Davi com legitimidade. Talvez, por conta disso, existe uma lógica da acusação e execução romanas por pretensão ao trono na crucificação. Independentemente da veracidade genealógica específica, o importante é que Jesus foi percebido e apresentado dentro de um quadro de referência davídico-messiânico, que era uma resposta direta ao vazio de legitimidade criado pelos Herodes e pela ocupação romana. Esta reivindicação, mais que um detalhe biográfico, era uma declaração política e teológica sobre o tipo de reino que Jesus representava - um desafio tanto aos poderes romanos/herodianos quanto às expectativas revolucionárias judaicas.

Já foi falado aqui que o que motiva e direciona a abordagem desse texto é primeiramente teológica e somente depois nós permitimos o tangenciamento histórico. O evangelho de Lucas faz menção a Quirino(Lucas 2:2). Há sim uma evidência histórica extra-texto. Quirino(Publio Sulpicio Quirino). Foi  realmente governador romano da Síria, e um censo sob sua autoridade é registrado pelo historiador judeu-romano Flávio Josefo (em Antiguidades Judaicas, 18.1-2). Porém, este censo aconteceu por volta do ano 6 d.C., após a deposição de Herodes Arquelau, quando a Judeia passou a ser província romana direta. O propósito era avaliar tributos após a anexação da Judeia ao Império Romano. Mas, há um problema cronológico: De acordo com o Evangelho de Lucas (2:1-2), Jesus nasceu durante o reinado de Herodes, o Grande (que morreu em 4 a.C.). Há portanto uma discrepância de pelo menos 10 anos entre a data tradicional do nascimento de Jesus e o censo histórico de Quirino. Surgiram, devido a esta discrepância, algumas tentativas de explicação acadêmica: Teoria do Primeiro Governo de Quirino: Alguns estudiosos sugerem que Quirino poderia ter tido um primeiro governo na Síria por volta de 4-2 a.C., mas não há evidência histórica sólida para isso. Possível confusão com outro censo: Pode ter havido um censo local na época de Herodes (que era rei cliente de Roma), mas não um censo imperial romano na Judeia antes de 6 d.C. Fato é aqui se aponta um erro de Lucas: Muitos historiadores consideram que o autor do Evangelho de Lucas (escrito décadas depois dos eventos) pode ter cometido um erro cronológico, confundindo o famoso censo de Quirino de 6 d.C. com eventos anteriores. Os censos romanos (census) eram realizados regularmente em províncias romanas para fins tributários e militares. Envolviam o registro de propriedades e pessoas. Na Judeia, o de 6 d.C. provocou a revolta de Judas, o Galileu, mencionado por Josefo. A grande maioria dos historiadores afirma que: Não houve "censo de todo o mundo" (império romano) decretado por Augusto na época do nascimento de Jesus. O censo histórico de Quirino ocorreu em 6 d.C., cerca de uma década após a morte de Herodes, o Grande. A narrativa de Lucas parece combinar elementos históricos reais (o censo de Quirino) com a tradição do nascimento de Jesus em Belém, criando uma dificuldade cronológica. Esta questão ilustra como os textos bíblicos, escritos com propósitos teológicos, às vezes apresentam desafios de harmonização com evidências históricas extrabíblicas. A pesquisa histórica continua a investigar essas questões, mas o consenso é claro quanto à datação do censo de Quirino.

O chamado tangenciamento histórico que me propus desde o início da narrativa deste texto, não deixa dúvida quanto ao elemento norteador do mesmo nesta reflexão. E ele está bem claro ao aludir à prevalencia de uma abordagem estritamente teológica. Obviamente que, ao se traçar uma linha de abordagem com proeminência teológica, não significa e não se traduz por um objetivo pautado na obrigação de mascarar a existência de discrepâncias históricas nas narrativas dos evangelhos. E ao se falar de discrepâncias históricas não se verifica pelo abandono dialógico e Dialético das narrativas bíblicas. Por exemplo: o fato de a Judeia ser província romana desde 6 d.C. foi simplesmente o elemento motivador para que autoridades israelitas enviassem espias que pudessem colocar Jesus numa saia justa diante das autoridades romanas conforme registra Lucas 20:19-25. E é exatamente o que torna a pergunta sobre o imposto tão carregada e perigosa. O "imposto a César" não era um imposto qualquer - era o símbolo tangível da subjugação política a um poder pagão, instituído com aquele censo traumático que ainda estava na memória nacional 24 anos depois. Essa contextualização histórica mostra que a pergunta a Jesus não era sobre uma mera questão fiscal, mas sobre lealdade nacional, identidade religiosa e resistência política - os mesmos temas que haviam explodido em violência quando o imposto foi primeiro instituído. A resposta de Jesus, portanto, não era apenas uma saída diplomática, mas uma declaração teológica profunda sobre como viver a fé num contexto de opressão política.

O elemento e fator histórico é de extrema importância para o contexto do Novo Testamento, apesar de suas imprecisões. O pano de fundo da pergunta sobre o imposto: Quando os fariseus perguntaram a Jesus sobre pagar imposto a César (c. 30 d.C.), estavam se referindo ao mesmo imposto instituído após o censo de 6 d.C. que Judas rejeitou. A pergunta era uma armadilha política carregada e revestida com a retórica do “Messianismo”. A insurreição de Judas, o Galileu na época de instituição dos impostos como consequência do Censo de Quirino alavancou focos de revoltas. Aqueles que se levantaram contra como Judas, fez com que alguns vissem na figura de Judas(e depois seus filhos) como possíveis "messias" libertadores no sentido político-militar, contrastando com o messianismo de Jesus. A atmosfera de resistência: O legado de Judas ajudou a criar o ambiente de tensão e expectativa messiânica na qual Jesus e os apóstolos ministraram. Judas, o Galileu, representa assim a face militante da esperança judaica do primeiro século – a convicção de que a fidelidade a Deus exigia a rejeição ativa do domínio pagão. Seu fracasso imediato não apagou seu legado; pelo contrário, sua família continuou sua luta por mais de 60 anos, até o dramático epílogo em Masada. Ele personifica a resposta que não foi dada por Jesus à questão do imposto: a da revolta violenta. Enquanto Judas disse "não" a César com as armas, Jesus deu uma resposta que transcendia a dicotomia "sim/não", apontando para uma soberania divina que opera de forma mais complexa dentro das estruturas humanas.

Analisamos com cuidado e responsabilidade o caso de Zaqueu. Ele era parte do sistema tributário romano cuja base foi estabelecida no censo de Quirino (6 d.C.). Enquanto Judas, o Galileu respondeu ao sistema com revolta violenta, e os zelotes com ódio nacionalista, Zaqueu representa uma terceira via: um agente do sistema que é transformado pelo encontro com Jesus e desmonta o sistema por dentro, através da restituição e justiça, não da violência. A narrativa de Zaqueu é um microcosmo do Evangelho de Lucas e da mensagem de Jesus: A graça precede o arrependimento (Jesus vai até ele primeiro). A salvação é holística, incluindo transformação social e econômica. O Reino de Deus inverte valores: o último (o publicano traidor) torna-se primeiro. A missão de Jesus é definida ali: "buscar e salvar o perdido". Zaqueu não é apenas uma história de conversão individual; é uma declaração política e teológica sobre como o Reino de Deus subverte sistemas de opressão a partir da transformação dos próprios agentes desses sistemas, através do encontro radical com Jesus. Dentre os principais aspectos da materialidade histórica, e na perspectiva da linha que temos seguido até aqui, que visa tangenciar os elementos que sustentam uma linha de evolução no tempo. Tendo por objetivo não apenas o enquadramento historicista por si só. A materialidade histórica é um conceito fundamental na historiografia e na arqueologia contemporâneas que se refere à importância dos objetos, corpos, espaços e elementos físicos na compreensão da história. Vai além da análise de textos e documentos escritos, focando no papel ativo da matéria na construção das experiências humanas no tempo. Neste ínterim, o aspecto da corporeidade se configura como elemento crucial e eixo de nossa breve reflexão. A corporeidade e experiência sensorial como materialidade inclui o corpo humano – como as pessoas viveram, sofreram, trabalharam, se alimentaram e interagiram com o ambiente. A história das sensações (cheiros, sabores, sons, texturas). Isto é algo que está para além dos textos e documentos. De certa maneira nos encontramos diante de tantos dilemas quando nos referimos à forma como a fé cristã foi transmitida. Que a partir de tal dinâmica de expansão missionária é muito complicado a imposição  e perpetuação de apenas uma visão historicista para a leitura do comumente conhecido como “Depositum Fidei”. É evidente, que por conta desses fatores aqui listados, e o consequente tangenciamento histórico quando o evangelista faz menção do censo de Quirino, independe da discrepância de datas entre um evento e outro. O que é fato a despeito dos desencontros de datas e dos fatos que que acompanham. É o crescente e acalorado debate acerca não apenas da inserção desse sujeito histórico, cujo nome é Jesus, também conhecido como filho do carpinteiro, no consciente e no imaginário daqueles que receberam via revelação divina a mensagem de que em algum momento no tempo e no espaço, o Deus todo poderoso havia se tornado homem.

Este é, portanto, o fator que determina, no caso do relato dos evangelhos acerca de Jesus, que a leitura dos mesmos precisa e tem que ser direcionada por uma abordagem teológica, a despeito dos acontecimentos históricos catalogados no mesmo período e que apresentam determinadas discrepâncias quando confrontados.  Agora, como uma fé que não se baseia em evidências históricas pode ser experienciada e vivida por um sujeito que é, inevitavelmente, histórico? Esta foi uma das grandes questões levantadas por Paul Tillich, e sua resposta está em uma distinção crucial e em um processo de mediação simbólica. A distinção fundamental: O "Jesus Histórico" vs. "Jesus como o Cristo". Para Tillich, o objeto da fé não é Jesus de Nazaré, o homem do século I, investigável pelos métodos da historiografia. Esse é o Jesus histórico, um fato contingente e incerto. O objeto da fé é "Jesus como o Cristo" – isto é, a imagem e o significado que emergiram da experiência dos discípulos e da comunidade de fé, testemunhando-o como a manifestação do Novo Ser. O "Cristo" é um símbolo, um evento de significado último que ocorre na história, mas não é apenas um fato histórico. O ser humano é histórico não apenas porque vive no tempo, mas porque sua existência é marcada pela temporalidade, finitude e alienação (conceitos existenciais e idealistas). A fé é a resposta a essa condição histórica. O encontro com o Novo Ser acontece no "kairós" – o momento qualitativo, pleno de significado, em oposição ao "chronos" (tempo quantitativo). É no agora da decisão existencial que o poder do Novo Ser toca o indivíduo. O fiel, situado em sua história concreta (com suas dúvidas, medos e busca por significado), é confrontado pelo símbolo "Cristo" transmitido pela tradição da igreja, pela pregação, pela arte e pela Escritura. Esse símbolo não é uma informação sobre o passado, mas um poder presente (o poder do Novo Ser) que "apreende" o indivíduo. A fé é justamente esse estado de ser "apreendido". A historicidade do fiel não é anulada, mas transformada e ressignificada a partir desse encontro. É necessário também que não foi apenas Tillich que enveredou por este tipo de abordagem teológica. Além de Paul Tillich, vários teólogos e filósofos do século XX desenvolveram abordagens semelhantes, afastando a fé de uma dependência direta de evidências históricas e enfatizando sua dimensão existencial, simbólica ou experiencial. Esses autores, muitos deles influenciados pelo idealismo alemão, pela fenomenologia e pelo existencialismo, formam o que se poderia chamar de "giro existencial-simbólico" na teologia protestante liberal e neo ortodoxa. Alguns deles são bastante conhecidos: Bultmann, Barth, Bonhoeffer, Hick, e Gilkey. Mas, eu gostaria de citar um apenas como contraponto a Tillich. Seu nome é Wolfhart Pannenberg (1928–2014). Ele representa uma reação direta a Tillich e Bultmann. Ele defende que a fé deve basear-se na história, especificamente na ressurreição de Jesus como evento histórico verificável. Sua obra é um esforço para reafirmar a historicidade como fundamento, usando uma abordagem hermenêutica e filosófica sofisticada. Sua presença nesta lista é como um antagonista dialético que explicita o contraste com a tradição Tillichiana. Notem bem, mesmo com esse contraponto que Pannenberg apresenta aos pressupostos teológicos de Tillich e demais teólogos. Ele fala da ressurreição como evento histórico verificável. Porém, o que Tillich e sua linha teológica defende não é o abandono do pressuposto histórico no momento em que se dialoga com a religião mediatizada pela fé no Cristo e preservada na igreja como depósito dessa tradição. O que transparece a partir do contraponto entre um e outro. É também o que já está consagrado pelo processo de verificação na evolução do tempo, onde há uma primeira abordagem proporcionada por Tillich, o qual, o conceito mediador se dá pelo Καιρός(Kairos); e uma segunda abordagem de caráter histórico, onde o conceito mediador conduzido por Pannenberg baseia-se no Χρόνος (Chrónos)

Por outro lado, não há como omitir ou não mencionar a figura icônica de Paul Ricoeur (1913–2005). Apesar de sua abordagem gravitar no ambiente e campo da hermenêutica filosófica. E embora Ricouer não seja um teólogo no sentido confessional, ele desenvolveu uma hermenêutica do símbolo e da narrativa que influenciou profundamente a teologia. Para ele, os textos religiosos (incluindo narrativas sobre Jesus) não fornecem fatos históricos, mas símbolos que desvelam possibilidades de ser. A fé é uma interpretação participativa nesses símbolos, muito próxima da noção de "participação" de Tillich. Ao fazermos menção desses autores que formam um espectro de respostas à crise do historicismo e ao desafio da secularização. A linha que vai de Tillich, Bultmann e Bonhoeffer (com ressalvas) até Hick e Gilkey compartilha o seguinte: 1- Rejeição do fundamento histórico-positivista para a fé. 2 - Ênfase na experiência, no símbolo ou na decisão existencial. 3 - Influência da filosofia continental (idealismo, existencialismo, fenomenologia). Eles diferem, porém, no grau de compromisso com a metafísica idealista (Tillich é o mais explícito), na abordagem da tradição cristã (Barth é o mais ortodoxo na origem divina da revelação) e no destino do símbolo cristão (Hick o relativiza no pluralismo, Tillich o mantém como único). Portanto, a afirmação de Tillich não está isolada: ela é parte de um movimento teológico maior do século XX que tentou resgatar a fé cristã de uma colisão frontal com a modernidade crítica, deslocando seu fundamento do âmbito do histórico-verificável para o âmbito do existencial-simbólico. Essa tendência, porém, sempre enfrentou a crítica de que, ao fazer isso, arriscava-se a perder o caráter eventual único do cristianismo, uma acusação que teólogos como Pannenberg e, de outra forma, Barth, buscaram responder. É claro que por nos encontrarmos neste período de festas, talvez você jamais tenha imaginado que uma narrativa bíblico-neotestamentária pudesse produzir um conteúdo descritivo, teológico e acadêmico como o que foi até aqui conduzido. É bem verdade que o propósito de desenvolvimento do texto teve como fundamento uma abordagem sobre o Natal, nem tão pesada. Porém, que trouxesse à reflexão as implicações de como a partir de um conteúdo narrativo estritamente de caráter revelacional, questões levantadas desde uma perspectiva historicista desconstroem o arcabouço instrumental e simbólico que facilitam e permitem nosso trânsito pela via do transcendental e divino. Sim, o Natal é divino e cabe a apenas e tão somente a nós que no limiar das celebrações que se avizinham carregarmos e sempre que possível revisitarmos as memórias tanto históricas e servem e funcionam como base para registros quanto aquelas de caráter mais afetivo que povoam nosso consciente e inconsciente coletivo, os quais alimentam nosso instrumental simbólico. Feliz Natal!!! Καλά Χριστούγεννα!!!




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