Paulo Freire # Paul Tillich

 A "educação bancária" é um termo cunhado por Paulo Freire em sua obra mais famosa, "Pedagogia do Oprimido" (1968). Ele usa essa metáfora para descrever o modelo tradicional de educação, que ele critica ferozmente por ser uma ferramenta de dominação e opressão. Freire compara o processo educativo a uma transação bancária: O educador é o depositante (quem tem o conhecimento). O educando (aluno) é a conta bancária ou o cofre (vazio, a ser preenchido). O conhecimento é a moeda ou o depósito. Nessa lógica, o papel do professor é "depositar" informações, conteúdos e conhecimentos na mente supostamente vazia e passiva do aluno. Quanto mais depósitos o aluno acumular, sem questionar, mais "bem-educado" ele é considerado. A educação bancária tem características próprias e bem definidas quanto ao papel desempenhado dentro de uma sala de aula. 1. Professor como Detentor do Saber: O professor é o sujeito ativo do processo, a autoridade incontestável que detém todo o conhecimento. 2. Aluno como Receptor Passivo: O aluno é visto como um objeto, uma "tabula rasa" (lousa em branco) que deve apenas receber, memorizar e repetir as informações. 3. Narração e Depósito de Conteúdos: A aula é baseada na narração de conteúdos desconectados da realidade do aluno. O professor "narra" e os alunos "escutam docilmente". 4. Memorização Mecânica: O foco está na repetição e na memorização, e não na compreensão, na crítica ou na aplicação criativa do conhecimento. 5. Ausência de Diálogo: Não há espaço para perguntas, debates ou a construção coletiva do saber. A comunicação é unidirecional: do professor para o aluno. 6. Divisão entre Saber e Prática: O conhecimento é tratado como algo abstrato, separado do mundo real e das experiências de vida dos educandos. 7. Função de Domesticação e Adaptação: O objetivo implícito (e às vezes explícito) desse modelo é adaptar o indivíduo ao mundo tal como ele é, sem questionar as estruturas sociais injustas. Ele ensina a obedecer, a não "causar problemas" e a aceitar a realidade opressora. Não há como não apontar as consequências críticas nesse processo. Para Freire, a educação bancária não é neutra. Ela é profundamente política e serve para: Anular o pensamento crítico: Ao ensinar a apenas repetir, ela impede que os alunos desenvolvam a capacidade de analisar, questionar e transformar sua realidade. Mantém as Estruturas de Poder: Ao produzir indivíduos adaptados e acríticos, o sistema opressor se perpetua. As elites no poder mantém seu controle porque a população não aprende a enxergar as causas de sua opressão. Desumanizar: Tanto o educador (que se torna um mero repetidor) quanto o educando (que é tratado como um objeto) são desumanizados por esse processo. A verdadeira educação, para Freire, deveria ser um ato de liberdade e humanização. A Alternativa: A Pedagogia Libertadora ou Problematizadora. Em oposição à educação bancária, Freire propõe a Pedagogia Libertadora ou Problematizadora. Nela, o diálogo é a base: Educador e educando aprendem juntos. Ambos são sujeitos do processo de conhecimento. O conhecimento é construído coletivamente: Parte-se da realidade e das experiências dos alunos para construir o saber, não de um currículo imposto de cima para baixo.O objetivo é a conscientização (conscientização): O fim da educação é que o aluno perceba criticamente o mundo ao seu redor, compreenda as forças que o oprimem e se torne um agente de transformação social. Ensina-se a pensar, não a repetir: O foco está no desenvolvimento da autonomia e do pensamento crítico. Na educação bancária um professor dita os nomes dos rios e aclives de uma região para os alunos copiarem e decorarem para a prova. Na educação Libertadora: O professor e os alunos discutem por que a comunidade local sofre com enchentes ou falta de água. Juntos, investigam a geografia local, a ocupação do solo, as políticas públicas e buscam soluções para o problema. O conhecimento geográfico é adquirido como uma ferramenta para entender e transformar a realidade. A "educação bancária" criticada por Paulo Freire é um modelo autoritário e passivo de ensino que trata os alunos como depósitos de informação, com o objetivo implícito de mantê-los adaptados e conformados com a ordem social, em vez de capacitá-los para a liberdade e a transformação. Sua crítica permanece extremamente relevante para debates atuais sobre metodologias de ensino e o verdadeiro papel da educação na sociedade.

A iniciativa e o pensamento de Paulo Freire foram uma das influências filosóficas e pedagógicas mais importantes para a criação de uma grade curricular com Temas Transversais e interdisciplinaridade no Brasil, mas não foram a causa única ou direta. Sua grande influência ocorreu muito mais no plano conceitual do que na prática, ou administrativa. A grande materialização dessa influência foi nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), publicados a partir da segunda metade da década de 1990. Os PCNs foram a tentativa mais abrangente do governo federal de traduzir as novas diretrizes da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1996 para a sala de aula. A LDB de 1996 já trazia um espírito mais flexível e aberto, e os PCNs foram a concretização disso. E foi dentro dos PCNs que os Temas Transversais e a recomendação da interdisciplinaridade ganharam destaque. A crítica freireana à educação como mera transmissão de depósitos de conhecimento em disciplinas isoladas e desconectadas da vida foi fundamental. A interdisciplinaridade e os Temas Transversais são uma resposta direta a isso. Eles propõem que o conhecimento não seja fragmentado, mas construído a partir de problemas e questões reais. Para Freire, a educação nunca é neutra; ela serve para domesticar ou para libertar. Os Temas Transversais (Ética, Meio Ambiente, Saúde, Pluralidade Cultural, Orientação Sexual etc.) carregam explicitamente a missão de formar cidadãos críticos e éticos, capazes de atuar na sociedade. Isso ecoa diretamente o conceito freireano de conscientização. A pedagogia de Freire começa com o "universo vocabular" do educando, sua realidade concreta. Da mesma forma, a proposta dos Temas Transversais é que eles sejam tratados a partir dos problemas e contextos locais da comunidade escolar, e não como um conteúdo abstrato a ser decorado. A interdisciplinaridade exige diálogo – entre professores de diferentes áreas e entre professores e alunos. Essa necessidade de conversa e construção coletiva do conhecimento é um princípio central na obra de Freire. Freire não criou um "Método" para o Currículo: Paulo Freire era um filósofo e pedagogo, não um elaborador de currículos. Sua obra é uma crítica e uma proposição de fundamentos. A tradução desses fundamentos em orientações práticas (como os PCNs) foi feita por outros educadores e gestores públicos que se inspiraram nele. Os PCNs e a interdisciplinaridade também foram influenciados por outras correntes pedagógicas, como o Construtivismo (de Piaget e Vygotsky), e por tendências educacionais globais que, em muitos aspectos, dialogavam com as ideias de Freire. Embora a teoria dos PCNs seja avançada e freireana, a implementação nas escolas esbarrou em enormes desafios: falta de formação docente, estrutura escolar rígida, carga horária excessiva e, muitas vezes, uma cultura escolar ainda muito "bancária". Por isso, muitas escolas trataram os Temas Transversais como "matérias extras" ou "projetos eventuais", esvaziando um pouco seu potencial transformador. Conceito Freireano reflexo nos PCNs e no currículo, crítica à "Educação Bancária" Interdisciplinaridade (rompendo com a fragmentação do conhecimento). Educação para a Libertação; Temas Transversais (formação para a cidadania e ética). Diálogo Metodologias que privilegiam a discussão e a construção coletiva. Partir da Realidade do Aluno contextualização dos conteúdos e temas. A iniciativa de Freire de denunciar uma educação opressora e propor uma educação libertadora e problematizadora gerou um terreno fértil de ideias que, décadas depois, inspirou a base teórica dos Parâmetros Curriculares Nacionais. A introdução dos Temas Transversais e da interdisciplinaridade foi a tentativa institucional de colocar em prática, em nível nacional, princípios que ele defendia. Portanto, embora ele não tenha desenhado a grade curricular, sua filosofia é uma das colunas que sustenta essa importante mudança na educação brasileira.

Ao tomarmos consciência do perfil pedagógico Freireano, é possível conciliarmos uma crítica fundamental que une a pedagogia, a teologia e a filosofia. Ao buscarmos os prós e os contras por uma semelhança, que é paradoxal, pois reside justamente no fracasso e na traição dos próprios fundamentos de cada área. A chave para entender a semelhança está no conceito de "resposta pré-fabricada" e no medo do diálogo com o mundo real. A Pedagogia Bancária apresenta como principal característica a paralisia pela "Resposta Certa". Ela oferece respostas para perguntas que não foram feitas. O currículo é um monólogo de certezas a serem depositadas. Sua lógica é a da imutabilidade. O conhecimento é tratado como um artefato estático, um fóssil a ser admirado e memorizado, não uma ferramenta viva para interagir com um mundo em mudança. O aluno é adestrado a acreditar que o pensamento crítico é desnecessário, pois todas as "respostas importantes" já foram dadas pelos especialistas e estão no livro didático. A pergunta genuína é vista como um desvio de percurso, uma ameaça à "cobertura do conteúdo". Como estabelecermos um critério de análise e verificarmos as semelhanças ou não entre a “Pedagogia Bancária” de Paulo Freire e a "Paralisia Teológica" de Tillich? A Paralisia pelo "Dogma Imutável". Se trouxermos à baila um teólogo protestante como Paul Tillich, que criticava o que ele via como uma teologia dogmática e estática. Para ele, a teologia não pode ser um conjunto de respostas prontas para questões que ninguém mais está fazendo. A "Resposta Pré-Fabricada": É a teologia que repete fórmulas dogmáticas (as "respostas") sem se importar se elas respondem às "perguntas últimas" do ser humano moderno. Por exemplo, repetir "Deus é amor" como um mantra, sem engajar com a experiência contemporânea do mal, do sofrimento e do absurdo. A Incapacidade de Dialogar com a Cultura: Essa teologia se paralisa porque se recusa a entrar em "correlação" (um conceito central em Tillich). A correlação é o diálogo dinâmico entre a mensagem da fé (as respostas simbólicas da religião) e a situação humana concreta (as perguntas profundas da cultura, da arte, da filosofia e da vida individual). A Paralisia: Quando a teologia se recusa a esse diálogo, ela se torna irrelevante, um museu de ideias. Ela é "incapaz de responder perguntas que são feitas hoje" porque está ocupada demais respondendo perguntas do século IV ou XVI. Ela adestra o fiel a não fazer perguntas reais, contentando-se com respostas que não tocam em sua existência mais profunda. A Semelhança Central entre a pedagogia Freireana e a teologia de Paul Tillich: O "Adestramento para a Não-Pergunta". É aqui que a semelhança fica clara: Pedagogia Bancária (Freire) e Paralisia Teológica (Tillich). Transmite Conteúdos Estáticos como verdades absolutas. Transmite Dogmas Estáticos como verdades absolutas. Não dialoga com a realidade do aluno. O conhecimento é divorciado da vida. Não dialoga com a cultura/experiência moderna. A fé é divorciada da vida. Adestra o aluno a ser um receptor passivo, inibindo perguntas críticas. Adestra o fiel a ser um receptor passivo, inibindo perguntas existenciais genuínas. Resultado: Alienação. O aluno não se vê como parte do mundo do conhecimento. Resultado: Irrelevância. A fé não fala à situação "ultima" do ser humano moderno. Método: Monólogo. Método: Monólogo. Ambos os sistemas, portanto, praticam uma forma de violência epistêmica e espiritual. Eles silenciam a curiosidade humana autêntica – seja a curiosidade intelectual do aluno, seja a busca espiritual do fiel. A verdadeira semelhança não está entre a pedagogia bancária e a teologia de Tillich, mas entre a pedagogia libertadora de Freire e o método de correlação de Tillich. Ambos propõem um caminho dinâmico e dialógico. Para Freire: O processo educacional deve partir das "palavras geradoras" da realidade do educando (suas perguntas tácitas) para construir o conhecimento crítico (as respostas provisórias e sempre abertas). Já em Tillich: O processo teológico deve partir da análise da situação humana (as perguntas últimas sobre significado, culpa, morte e finitude) para então interpretar e proclamar os símbolos da fé cristã (as respostas que vêm do "Novo Ser"). A semelhança aqui identificada é aguda. Tanto a "educação bancária" quanto a "teologia paralítica" que Tillich critica são sistemas monológicos de adestramento. Eles ensinam as pessoas a não ousar fazer as perguntas que realmente importam para suas vidas, oferecendo em troca um pacote fechado de respostas que, por não serem fruto de um diálogo genuíno, são vazias, paralisantes e, no fim das contas, opressoras.

A grande lição que Freire e Tillich nos deixam é que uma resposta, para ser verdadeira, deve nascer de uma pergunta genuína. Sem a pergunta, a resposta é apenas um adestramento.




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