Será que foi apenas mudança de terminologia?
Γένεσις
Έξοδος,
Λευιτικόν,
Ἀριθμοί,
Δευτερονόμιον
A mudança na terminologia, longe de ser apenas cosmética, reflete e provoca uma mudança significativa na "lente" através da qual o texto é lido e compreendido. A forma como o judeu lia (e lê) baseando-se no título hebraico é fundamentalmente diferente da abordagem do leitor de língua grega (e, por extensão, do leitor cristão moderno). Como esse tipo de interferência ocorre na leitura e, por extensão, na compreensão do texto. Na Abordagem Hebraica, o que há é uma primazia da ação e do processo. Os títulos hebraicos (Bereshit, Shemot, etc.) são palavras-ação. Eles não resumem o livro, mas o iniciam em movimento: Bereshit ("No Princípio"), imediatamente coloca o leitor no início absoluto de tudo. É um conceito cósmico e filosófico. A pergunta não é "sobre o que é este livro?", mas "o que acontece 'no princípio'?". Shemot ("Nomes"), começa com uma lista de nomes dos filhos de Israel que desceram ao Egito. Isso enfatiza a identidade e a linhagem do povo. A história que se segue é a história desse povo específico, cuja identidade estava sendo formada na escravidão e no Êxodo. Vayikra ("E Chamou"), a primeira palavra é uma conjunção ("E") que liga o livro diretamente ao final de Êxodo. Mostra continuidade. Deus está chamando Moisés a partir da tenda do encontro que acabou de ser construída. O foco está no chamado à adoração e à relação contínua após a construção do tabernáculo. Em resumo, a leitura hebraica é imersiva, narrativa e processual. O leitor é jogado dentro da história sem um "resumo executivo". O significado emerge da experiência de ler a narrativa a partir do seu ponto de partida natural. Já na abordagem Grega, a primazia é do Conceito e da Categorização. Os títulos gregos, por outro lado, são conceituais e categorizantes.
Eles dão ao leitor uma "etiqueta" que resume o conteúdo principal. Gênesis ("Origem"), imediatamente categoriza o livro como um tratado sobre as origens. O foco conceitual se desloca da ação ("No princípio...") para o tema abstracto (as origens do mundo, do homem, do pecado, das nações, de Israel). Êxodo ("Saída"), reduz a complexidade do livro a um evento central. Enquanto Shemot começa com a identidade do povo, Êxodo já anuncia a sua libertação. O livro deixa de ser, em primeira instância, sobre a formação de um povo para ser sobre um evento de libertação. Levítico ("Relativo aos Levitas"), este talvez seja o caso mais radical. Vayikra é sobre Deus chamando o povo para uma relação santa. Levítico categoriza o livro como um manual de leis sacerdotais. Isso pode, inadvertidamente, afastar o leitor leigo, dando a impressão de que o livro não é para ele, mas apenas para os especialistas (levitas/sacerdotes). Em resumo, a leitura grega é analítica, temática e abstracta. Ela oferece ao leitor uma chave de interpretação antes mesmo de ele começar a ler. Isso facilita a consulta e o estudo sistemático, mas pode "fechar" o significado prematuramente, direcionando a atenção para o tema central em detrimento de outras nuances.
As consequências práticas para a compreensão pesam pela diferença de lente e tem, por assim dizer, implicações reais. Por um lado se constata a ênfase doutrinária, por outro, a narrativa de aliança. Para a teologia cristã, que herdou os nomes gregos, Gênesis é crucial para doutrinas como a Criação e a Queda. Êxodo é o arquétipo da salvação/redenção. São conceitos universais. Para a tradição judaica, Bereshit é a fundação da história da aliança de Deus com um povo específico (os patriarcas), e Shemot é o relato do cumprimento da promessa de multiplicação feita em Bereshit e do início da formação desse povo como nação. A natureza de Levítico, um judeu lendo Vayikra entende que Deus está continuando a se revelar e a chamar o povo para perto de Si, uma sequência natural da presença divina que agora habita no Tabernáculo. Um leitor de Levítico pode começar o livro com a expectativa de um código de leis secas e ritualísticas, perdendo a dimensão relacional e de proximidade com o sagrado. Deslocamento do foco narrativo é o que os títulos gregos podem criar uma "ilhagem" dos livros. Os títulos hebraicos, com suas conjunções e continuidade, reforçam que a Torá é uma única e contínua narrativa, não cinco livros independentes.
A tradução e a reclassificação grega interferem profundamente na compreensão. Ela representa uma transição de um pensamento narrativo e processual (hebraico) para um pensamento filosófico e sistemático (grego). O leitor judeu, com os títulos originais, é convidado a entrar na história e experimentá-la. O leitor de língua grega(e seus herdeiros cristãos), com os títulos conceituais, é convidado a analisar e categorizar a história. Ambas as abordagens são válidas e ricas, mas compreender essa diferença é crucial para uma leitura mais consciente e para perceber como a própria cultura e linguagem moldam a nossa interpretação dos textos sagrados. Isto nao quer significar perda de sacralidade. Não se trata de uma perda total da sacralidade judaica, nem de uma outra sacralidade completamente separada. O cenário mais preciso é o de uma transformação, reinterpretação e recontextualização da sacralidade original, que deu origem a uma nova expressão sagrada—a cristã—, que ambas estão conectadas e distintas de suas raízes judaicas. Não é uma "Perda Total", mas uma "Mudança de Centro de Gravidade".
A Septuaginta (LXX) foi uma obra de judeus, para judeus. Para a comunidade judaica de Alexandria, a LXX era a Escritura Sagrada. Eles não a viam como menos sagrada. A sacralidade residia na mensagem e na autoridade divina por trás do texto, não apenas na consoante hebraica original. No entanto, a tradução inevitavelmente causou uma mudança de ênfase. A sacralidade para o judeu de tradição hebraica residia, e reside até hoje na pronúncia, não no significado. No hebraico, a própria sonoridade do Nome de Deus (YHWH) e a estrutura textual são consideradas sagradas. No grego, a sacralidade migra para o significado conceitual (ex: usar "Kyrios" - Senhor - para YHWH). Há uma perda de jogos de palavras e poesia. Muitas nuances da poesia hebraica, aliterações e trocadilhos foram perdidos. Isso é uma perda parcial de uma camada de significado e beleza, mas não da mensagem central. Portanto, para o judeu helenístico, a sacralidade foi preservada, mas expressa em um novo idioma cultural. A "perda" só se tornou mais evidente mais tarde, com o surgimento do cristianismo. A sacralidade judaica está e sempre esteve centrada na Torá.
E sendo a Septuaginta, do ponto de histórico, a versão grega apenas da Torá, ou pentateuco, e que desde sempre visou atender aos judeus helenistas que já não possuíam mais qualquer tipo de familiaridade com o hebraico. A aversão judaica opera tanto na Torá (Pentateuko) quanto no restante da LXX (Profetas e Escritos). A natureza do problema é tanto de uso e autoridade quanto de conteúdo e canonicidade. A razão principal Tornou-se pelo fato de que esta versão é a escritura base dos cristãos, usada para provar que Jesus era o Messias. Continha livros e versões de livros que os rabinos rejeitaram como não canônicos e não inspirados. Na perspectiva rabinica, a LXX: “É uma tradução válida, mas que foi sequestrada e corrompida em sua interpretação. Preferimos o original hebraico para evitar confusão." "Esta coleção inclui materiais estranhos e espúrios que nunca fizeram parte das nossas Escrituras Hebraicas. De fato, a aversão começou com a Torá em grego por razões político-teológicas (sua apropriação cristã), mas se estendeu e se intensificou em relação ao restante da Septuaginta por razões canônicas (a rejeição de livros e versões que não se alinhavam com o cânon hebraico fechado pelos rabinos). A Septuaginta, como um todo, tornou-se, para o judaísmo rabínico, um símbolo de uma tradição competidora e desviante.