Compilações/Coletâneas

 Se tem alguém que gosta. Que realmente é um apaixonado por teologia. Essa pessoa sou eu. Gosto de ler os teólogos, assim como me sinto tentado, sem falsa modéstia, a desconstruir os argumentos de alguns deles, para primeiro poder entender, depois criticar mesmo. Mas, tem uma coisa que não dá pra deixar de lado, ou como na gíria mais popular se pode dizer, jogar para escanteio. E estou falando daquilo que é mais importante nas igrejas que são as pessoas, o povo que ali se reúne, a congregação por assim dizer.

A igreja, na pessoa daqueles que a ela acorrem, ou congregam é a fonte, a substância, a razão pela qual o que chamamos de teólogo sobrevive. Por teólogo, quero que entendam que me refiro especialmente aqueles que militam neste e a partir deste espaço sagrado comumente conhecido como igreja. Eles não são meros produtores de conteúdos acadêmicos. Eles são a síntese de um conjunto de experiências de fé projetadas pelo passado crítico e ajuizador representado e projetado na congregação de hoje. E esta congregação agora peregrina ad infinitum.

Certa vez, mais especificamente no final dos anos 70, em plena efervescência das teologias Progressistas latino americanas, alguém cunhou a importância da ida das pessoas às igrejas, e a este caminhar no sentido de peregrinar com a igreja, mas de uma maneira que, para muitos soava de forma ideologizada, ao chamar a congregação, ao povo que liturgicamente fazia do seu caminho a igreja uma caminhada de peregrinação e de consequente superação da alienação. 


Este povo e no contexto desse ambiente latino americano foi cunhado com uma atribuição mais específica e socialmente aceita, ele foi chamado de pobre. Este pobre nesta nova retórica e hermenêutica progressista cristã e latino americana assumiu tamanho protagonismo e importância que alguém afirmou categoricamente que: "A igreja sem os pobres era um lugar abandonado por Deus e por Jesus(Passim)."


Mesmo com todo esse tipo de ferramenta ideológica e social que nos facilita e oportuniza a possibilidade de uma leitura das reais condições sociais das pessoas que vivem em sociedade, ou alijadas dela. É praticamente impossível fazer qualquer tipo de comparação entre o que entendemos por pobres e pobreza em ajuntamentos sociais como os que ocorriam no mundo antigo com a atual situação daqueles que agora nestes tempos experimentam algum tipo de flagelo social provocado por condições sub humanas impostas pelos atuais modelos econômicos em vigência atualmente.


Todavia, seja qual for a leitura e o viés ideológico empregado com objetivo de aferir as reais condições sociais das pessoas menos favorecidas. E seja lá qual for o contexto histórico e social dessas pessoas. É fato, e consenso geral que, desde que o mundo é mundo, existe sempre a exploração do homem pelo homem. Talvez, seja por isso que o próprio Jesus, certa vez, quando uma mulher vem a sua presença e lhe unge com um bálsamo caríssimo, e alguém insinua que o ato desta mulher foi um desperdício. Ele condena tal afirmação de maneira velada, não deixando que o tratamento que se dá aos pobres seja instrumento de algum tipo razão que extrapole o cuidado que se deve ter com a vida humana


A lógica de uma ajuda aos pobres não é de todo descartada. Porém, antes disso, o senhor Jesus foi capaz de enaltecer a atitude daquela mulher e lhe confere uma dimensão messiânica, uma vez que, segundo o próprio Cristo, ela o ungiu preparando-o para sua morte. Por outro lado, o bálsamo poderia ser vendido e o dinheiro da venda ajudaria aos pobres. Porém, o que não falta são oportunidades para se ajudar aos pobres. Pois: "Os pobre sempre tereis convosco." (João 12:8a). 


O que nós jamais deveríamos perder de vista, é que os pobres são mesmo instrumentos de Deus para se trazer seus juízos sobre a terra e os homens, àqueles mais poderosos. E por pobres devemos ter a decência de entender que são aqueles efetivamente desprovidos de recursos suficientes para sua subsistência. E por isso se sujeitam a todo e qualquer tipo de exploração patrocinada pelo próprio homem, com o único objetivo de levar o pão suado de cada dia de trabalho, mesmo que seja sob as condições mais injustas e aviltantes a que é submetido.

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Naquelas típicas conversas em contextos e situações familiares, no dia de hoje, em uma dessas conversas também em família, estava lembrando de uma expressão que minha saudosa mãe, umas tantas vezes, tinha por hábito pronunciar. Sempre que se comentava a cerca das atitudes de algumas pessoas, dizia ela: "Deus não dá asas a cobra." Uma das razões por que faço alusão a esta expressão, diz respeito ao fato de que estamos passando por tempos muito tenebrosos e onde aquilo que chamamos de relação de confiança em qualquer situação está praticamente fora de cogitação. 


E falar de relação de confiança diz respeito até mesmo a relação ovelha-pastor que se não é deveria ser fundamental no ambiente e contexto das igrejas. E o problema não é propriamente essa crise pandêmica e sanitária, este problema sempre existiu. Porém, num contexto e data mais próximo da atual situação em que vivemos foi acirrado e multiplicado exponencialmente por razões ideológicas. Todavia caso queiramos retroceder mais e mais no tempo, podemos chegar até a escritura sagrada. Mais precisamente no capítulo 10:11-18 do evangelho de João, onde o Senhor Jesus faz uma alusão a título de comparação entre o pastor mercenário e o verdadeiro e bom pastor que até sua vida é capaz de dar pelas suas ovelhas.


Mas, a palavra que quero deixar com vocês é a seguinte: Não espere por nenhum religioso na expectativa de que o mesmo libere uma palavra de conforto e consolo neste momento em que as famílias estão experimentando dores profundas por causa das perdas de vidas provocadas pela epidemia do COVID-19. Como um bom cristão e na autoridade que a própria palavra te confere, libere essa palavra de conforto e consolo para aqueles que, neste momento, estão padecendo e alguns até mesmo perecendo em seus leitos de dor. A própria escritura ensina que qualquer um de nós enquanto cristãos somos sacerdotes universais(I Pedro 2:9). Logo, temos essa investidura e autoridade no nome de Jesus, e, para o exercício de tal ministério, não carecemos da chancela ou aval de nenhum grupo clerical. E que Deus nos abençoe neste ministério.

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Todos vocês que me conhecem das redes sociais e até mesmo os que me conhecem pessoalmente, sabem das minha posições políticas. E mesmo tendo a investidura religiosa, pois sou pastor de confissão Batista, não abro mão delas enquanto cidadão. Todavia, e, nesta hora, quero mudar o tom de minhas colocações, não significando que tenha mudado o entendimento e condução dos meus posicionamentos. Mas, quero poder fazer uso com um pouco mais de intensidade do meu ofício e investidura.


Falo isso, pois tenho também a percepção que estamos deixando muito a desejar enquanto ministros da Palavra de Deus, quando o assunto é ministrar conforto e orientação espiritual nestes momentos de crise pandêmica. O que me parece quando algum colega se mostra negacionista diante da crise sanitária em que nos encontramos, é que é mais fácil resumir a mesma a algum tipo de conspiração midiática e, por conta disso, se furtar a tratar aqueles que padecem nesta mesma situação catastrófica.


E que tipo de tratamento seria este? Se não somos médicos, enfermeiros, ou algum outro profissional de saúde? É bem verdade que as orientações quanto ao isolamento social precisam e devem ser seguidas com extremo cuidado. Ele deve começar por ferramentas de comunicação como esta. Se você enquanto ministro dispõe de uma ferramenta de comunicação como esta. Você tem como ministrar uma palavra de alento e de conforto para aqueles que estão enlutados.


De ontem para hoje recebi a mensagem de uma amiga das redes sociais que estava com o sobrinho para ser transferido para uma unidade de saúde, em outra cidade. E o que ela me pedia era que estivesse orando pela recuperação daquele jovem. Tenho certeza que muitos outros colegas pastores recebem este mesmo tipo de pedido. Porém, na maioria das vezes, o que temos feito enquanto pastores, e isso é facilmente verificado pelas próprias lives que eles promovem é, pela ordem, negar a existência dessa Pandemia, negar a necessidade de Lockdown, e, acusar algumas autoridades, não todas, ao afirmar que a necessidade de Lockdown é apenas uma desculpa para que seus templos estejam fechados.

Como disse, logo no primeiro parágrafo deste texto, sou de origem, formação e confissão Batista. E ninguém melhor do que um Batista para falar da liberdade de consciência, da liberdade de culto e da liberdade religiosa. Isto é nosso DNA, está em nossa história e essência. Porém, a discussão maior neste momento não é esta. A preocupação maior neste momento deve ser a preservação da vida. E se o Lockdown, se o isolamento social e todas as medidas protetivas em função da vida humana, são recomendadas pelos agentes de saúde. Cabe a nós acatarmos tais recomendações.


E por que tenho acatado tais recomendações, eu quero, neste momento, e através da única maneira que me vejo em condições de ser mais um elemento proativo nesta sociedade tão cheia de fraturas, externar o meu desejo e oração pra todos vocês que já foram alcançados por este famigerado vírus e como consequência ou estão apreensivos com o desfecho desta situação, com aqueles que estão sob os cuidados médicos, muitas vezes precários. Com aqueles que já sentem a dor da perda de algum ente querido. Que Deus conforte seus corações. Que Ele possa fortalecer e prover sua vida com saúde e  bons sentimentos. 


E lembrando aqui do nome do jovem lá do nordeste que estava na noite de ontem sendo transferido para outra unidade de saúde. Seu nome é Ricelly, ele é da cidade de Itapiúna no Ceará estava sendo transferido para Quixeramobim. Oremos por este jovem, pela sua família. Situações como está não são casos isolados. As famílias estão acuadas e sensibilizadas com o fantasma desse vírus. Se você também conhece alguém ou algumas pessoas que atravessam esta mesma dificuldade, sinta-se a vontade para usar este espaço para colocar seus nomes e juntos intercedemos uns pelos outros em oração. Obrigado e que Deus nos abençoe. 

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Valendo-me dos principais termos e jargões midiáticos em uso nestes tempos de início de terceiro milênio. Fiquei curioso em fazer algum tipo de reflexão a cerca do que realmente as pessoas, principalmente aquelas mais assíduas aos bancos de igrejas, sabem sobre Jesus, ou mesmo se elas tivessem que mapear um perfil psicológico a cerca de Jesus, a partir do que elas ouvem nessas igrejas e as respectivas literaturas que têm acesso, como seria esse perfil?


Não existe apenas um Jesus nos textos bíblicos, em especial no Novo Testamento. O Jesus dos evangelhos, principalmente o da tradição sinótica, não bate com algumas das principais hermenêuticas que se apresentam na atualidade. Ele é muito mais humano, se mistura com o povo, come e bebe com os mais humildes(Pecadores). Nunca se impressiona com a fama, inteligência e riqueza das pessoas(O jovem rico). E, acima de tudo, quando tem a oportunidade de contemplar a multidão, é capaz de externar um profundo sentimento de amor e de misericórdia. Que é, afinal de contas, o que o move no firme propósito de fazer a vontade daquele que o enviou.

    

Esse Jesus não se furta a debater a cerca dos flagelos humanos. Age efetivamente com o objetivo de minimizar todos os flagelos de que o homem é acometido. Aqueles que acontecem em decorrência das condições do clima, da geografia, e que geram situações sociais caóticas como fome, guerras, doenças, etc. Minha outra curiosidade após esse breve resumo, é de saber, em níveis percentuais, e a partir desses frequentadores assíduos de igrejas, qual é o grais de identificação com esse Jesus da tradição sinótica? 



 

 Texto - Lucas 7:36-50


Tema - O fim da religião e o advento da cultura do amor.


ICT - A intensidade do amor é medida proporcionalmente ao tamanho do perdão.


Objetivo Geral - Levar a congregação ao entendimento de que sem amor não há religião.


Objetivo Específico - fazer com que a congregação perceba que o amor sobrevive sem a religião. Já a religião não sobrevive sem o amor.


Tese - …"porque quem ama aos outros cumpriu a lei."



Introdução


     Primeiramente, é bom que se esclareça que o objetivo desta leitura não é o de fazer severas críticas a este ou aquele sistema religioso. Muito menos, fazer algum tipo de apologia de qualquer um deles. Precisamos ter em mente que segundo alguns sociólogos que estudam ou estudaram de perto questões relativas a religião. Com mais especificidade, quero me referir a Durkheime, o sentimento religioso é algo presente no ser humano, digo até como um grifo meu, enraizado no ser humano, tal como Durkheime atesta em sua obra: DURKHEIME, Emile. As formas elementares do sentimento religioso. Ed. Paulinas.

     Entretanto, antes que eu comece a divagar sobre algumas questões sociológicas, ou antropológicas muito presentes no texto lido. As quais, podem, de alguma maneira, fazer com que nós nos enveredemos por alguns substratos dentre os quais não há como omitirmos o substrato histórico, uma vez que, a partir do mesmo, é possível haver uma identificação mais precisa de que época, lugar ou ambiente que estamos falando. É de suma importância que tenhamos em mente o aspecto linguístico e sincrônico que, do ponto de vista textual, será a relação entre o que, a partir de nossas experiências traduzidas em relatos linguísticos, e a forma como hoje nos organizamos social e comunitariamente desde uma orientação religiosa pela qual ditamos os rumos de nossas vidas.

     Com isso quero me basear em duas definições lexicais do termo religião em nosso vernáculo. A primeira diz: "Religião é a crença na existência de um poder ou princípio superior, sobrenatural, do qual depende o destino do ser humano e ao qual se deve respeito e obediência." A segunda diz: "Religião é a postura intelectual e moral que resulta dessa crença." (Definições de Oxford Languages). Conforme o segundo verbete deste dicionário há uma moral e uma intelectualidade que surge dessa crença. Ela então serve para ajuizar quem é íntegro e quem é ímprobo.

     A clara alusão do verbete a que se fez referência e suas duas dimensões, uma vertical desde a perspectiva de relação com um princípio e poder superior. Combinado com a horizontal, o código de ética e a moralidade auferido desde esta relação com aquilo que, doravante, chamarei de "transcendência". Mostra-nos que ano após ano, século após século e ainda vivemos sob a dinâmica de uma vida pautada pela materialidade e realidade do mundo e as inconsistências de seu arcabouço de conhecimento dinâmico, bastante positivo e sensorial, porém, analógico. Assim como o conhecimento da metafísica do ser e sua condição substancial e acidental ao tratarmos do ser enquanto ente durante seu período de vigência.

     O que nos chama a atenção ao lermos o texto de nossa reflexão, é a maneira como a sociedade dos tempos de Jesus se valia, tendo sempre como parâmetro seus princípios religiosos, de uma ética e moralidade que ajuizava a dignidade das pessoas. A questão é levantada neste texto a partir de um encontro social onde Jesus é o principal convidado para um banquete. E este banquete, conforme o texto, foi na residência de um fariseu. De acordo com o texto, este fariseu insistiu muito para que Jesus comesse em sua casa. É uma típica reunião que talvez tivesse como objetivo pegar o Senhor Jesus em alguma contradição com sua doutrina e ensino. Entretanto, as relações de Jesus com os fariseus não eram tão beligerantes a a ponto de não se comunicarem. Elas eram divergentes em conceitos e ideias. Nada que não pudesse estabelecer uma trégua e fazerem suas refeições juntos como bons judeus que eram.

     Curiosamente, uma mulher que era tida como pecadora em sua cidade. Entra sem qualquer problema na casa de um fariseu e vai em direção a Jesus. A mulher em questão entra no recinto e acorre a seus pés. Na descrição da narrativa ela se aproxima por trás e estava extremamente comovida, pois chorava copiosamente. E, ao chorar, regava-lhe os pés com suas lágrimas ao mesmo tempo que os enxugava com os cabelos. Mas, também beijava-lhe os pés e os ungia com unguento que trouxera num vaso de alabastro.

     Toda esta situação criada pela presença daquela mulher e na casa daquele homem fariseu. A princípio poderia transparecer que foi forjada pelo anfitrião da casa. Contudo, não parece que a narrativa queira se valer desta situação, embora essa possibilidade, como deixei claro anteriormente, tenha algum tipo de procedência. Entretanto, o que entendo por ora ser mais relevante para a abordagem dessa narrativa, são aqueles aspectos circunstanciais que acompanham o progresso e argumentação da narrativa propriamente dita. E que de acordo com o que está sendo proposto nesta leitura desde seu início. É a tese de que as questões que estão sendo colocadas a Cristo nesta narrativa se revestem de um propósito redacional que visam defender o fato de que em Cristo tudo se encerra e se explica como um eixo centralizador e irradiador de uma nova e mais eficaz forma de se lidar com Deus sem o instrumental ideológico da religião vigente.

     Teologicamente falando, melhor dizendo, conforme aqueles conceitos antropológicos e teológicos típicos de um básico conhecimento bíblico, Cristo é por excelência o fim da historia. É nele e somente através dele que o homem alcança sua plenitude. Isto significa também que Cristo é o fim da religião. Ele inaugura esse novo tempo com a prática do amor e do perdão. Nada melhor como exemplo do que a situação em que se encontra esta mulher que é socialmente considerada uma pecadora. E para falar do perdão que a ela fora dado. O Senhor Jesus deve ter feito uma análise bem profunda do ambiente e circunstância que rondava aquela casa e seu anfitrião. Os segredos e intencionalidades. Mesmo porque, quando se faz menção de alguém ligado ao farisaísmo. É bom que se considere alguém que leva muito a sério e com extremo zelo sua religião bem como sua religiosidade(Vide o exemplo de Paulo, Gálatas 1:14).

     Outro dado bastante interessante e que serve a título de informacao com o objetivo de aclarar aquele ambiente doméstico e de banquete. É o lado teatral da coisa. Parece que para a época de Jesus era muito comum quando alguém recebia uma pessoa ilustre em sua casa, fazer com que aquilo literalmente se tornasse um acontecimento social. A casa ficava basicamente aberta a visitação pública. Qualquer que passasse e soubesse do ocorrido podia se aproximar, adentrar ao recinto e testemunhar o anfitrião e seus convidados se banqueteando regaladamente. Esse tipo de narrativa a cerca dos banquetes e refeições nos evangelhos é muito comum. Nos quatro evangelhos se pode ver narrativas em que o Senhor Jesus está numa mesa com amigos. Conta alguma parábola onde a figura da mesa é muito presente e corriqueira. Porém, em Lucas essas narrativas acrescentam uma outra peculiaridade. O contra ponto entre duas situações extremamente opostas. Pode se ver isto nesta narrativa propriamente dita em que o destaque passa a ser a figura de uma mulher que por ser pecadora é por assim dizer repugnante. Mas, há também a narrativa do rico e Lázaro e o contra ponto é entre a riqueza e a pobreza. 

     Não faz muito tempo que encontrei uma charge de Lutero em uma dessas redes sociais, e que ilustrava como ele tinha estabelecido o Cânon das escrituras para o protestantismo. Nela o cartunista se vale daquela brincadeira de criança quando encontra um trevo ou uma flor qualquer e começa a arrancar uma a uma as suas pétalas proferindo a expressão: "Bem-me-quer, mal-me-quer," porém, Lutero usa a mesma expressão para cada folha da Bíblia. Esta charge é bastante criativa e de um senso de humor típico de alguém que, mesmo sendo católico, faz com leveza a sua crítica. Estou me referindo a ela não necessariamente pela discordância existente entre um Cânon e outro e sim, pelo fato dela fazer referência a Lutero.

     Feito a referência que fiz a Lutero. Quero lembrar que uma das cartas que o reformador resistiu o quanto pode para não incluí-la no Cânon, foi a Epistola de Tiago. Ele entendia e via esta Epistola como não evangélica pelo fato de não haver referência explícita a Cristo e sua ressurreição. Basicamente, Lutero achava que esta Epistola era muito legalista por enfatizar a lei e o mérito das obras. Ele chegou a cunhar esta Epistola como "Epistola de Palha." Ora palha é uma espécie de refugo que mal e mal quando se aproveita é para servir de alimentador de fogo. Ou seja, esta Epistola não tinha utilidade alguma para a igreja e a mensagem de salvação que se propunha a pregar.

     Muito mais no protestantismo do que no catolicismo, a evolução histórica desde que a questão do Cânon começou a ser debatida na igreja. Levou a uma excessiva valorização da escritura misturada com Hermenêuticas equivocadas a cerca de sua autoridade. O Cânon bíblico que, por minha opção, prefiro chamar de escritura. Atualmente apresenta sua face mais impositiva e arbitrária. Ele deveria ser visto como inspirador de boas ações pelos mesmos motivos dos quais se vale o apóstolo Paulo ao falar da Escritura divinamente inspirada(II Timóteo 3:16-17). Já que a escritura reúne em seu conteúdo o relato das várias experiências e situações por que passaram os servos do Senhor. Porém, a forma como ele é abordado na devida proporção de como a arbitrariedade em sua aplicação se nos apresenta atualmente. É o claro indício de que se tornou um código de ética hermeticamente falando.

     São fatores como os que foram abordados no parágrafo passado que contribuem para a ideia de que os mesmos favorecem um sistema religioso engessado pela aplicação e adequação de pressupostos anacrônicos daqueles que vivem em uma sociedade e mais especificamente na comunidade onde este ou aquele se encontra inserido. A mulher desse relato não é qualificada enquanto alguém que faz parte da comunidade. Ela sequer é tratada pelo nome. A única coisa que interessa é a especificação de que é pecadora. É o qualificativo pelo qual todos daquela cidade a conhecem. Logo ela não precisa de nome. O tipo de estigma que ela carrega por ser pecadora no texto não se mostra em sua clareza. Não se sabe se é pecadora por ser prostituta, por ser adúltera, etc.

     É fato que foi por causa desse sistema religioso e de toda uma hermenêutica montada sobre a escritura para dar sustentação ao mesmo, que se chega a conclusão e consenso social de que aquela mulher é uma pecadora. Por isso ela acaba por se tornar alijada de tudo. Principalmente da vida em sociedade e, portanto, até mesmo da vida religiosa. Todavia, ainda que continuemos nesta leitura tão somente tratando-a como mulher, vamos deixar de lado, por ora, o adjetivo pecadora. Ela é bastante resiliente e não tem medo de se assumir como pessoa na condição de mulher apesar de todos esses contratempos.

     E tomando consciência da presença de Jesus na cidade e na casa de um fariseu. Confesso que até agora estou querendo entender como alguém que é tida como pecadora consegue entrar com relativa facilidade na casa de um fariseu e se aproximar da mesa onde todos estavam a comer? Este fato ainda me deixa perturbado. Mas, o que nos interessa neste momento é o fato de que esta mulher se prestou a passar por alguns inconvenientes dada sua situação naquela cidade para poder se encontrar com Jesus. Sua atitude foi entendida como digna e merecedora da atenção de Jesus. Pelo fato de ter feito o que fez sem que tenha pronunciado uma palavra sequer. 

    E para finalizar esta introdução, quero contar um fato contado e recontado por minha mãe em minha infância e que dizia respeito a conduta ética de um irmão membro de uma igreja evangélica, por volta dos anos cinquenta do século passado(XX). Dizia minha mãe que uma senhora tinha sua filha em idade que já despertava os olhares dos homens. Esta jovem gostava de se maquiar, como toda jovem vaidosa no bom sentido. Este irmão então passou a tecer comentários bastante indelicados que davam a entender o caráter dúbio daquela jovem. A mãe, então, afrontou este irmão e lhe disse o seguinte: O pecado dela todo mundo vê, e o seu?

     Um outro exemplo que nos dá conta da forma como funcionava o sistema religioso nos tempos de Jesus foi o que aconteceu com a mulher pecadora apanhada no ato de adultério e jogada aos pés de Jesus para que ele se pronunciasse sobre o princípio legal na lei mosaica que penaliza a morte por apedrejamento(João 8:3-5). A mesma situação a qualificação de ser uma mulher adúltera, uma pecadora, por assim dizer. Não tem nome e tudo o mais que poderia saber sobre sua vida, seus pais, seu marido, etc. É omitido nesta narrativa, assim como no texto de nossa reflexão. Algumas outras situações poderão ser efetivamente abordadas a partir da lógica cruel e impositiva de qualquer sistema religioso. Porém, não são nossa prioridade.



I - Um sistema religioso amparado por um princípio legal não demanda por uma vigência plena. (V.V 36-39)


     É bom que se esclareça que o discurso religioso e moralista está representado pela figura do fariseu. E o discurso que repercute do lado daquele que é julgado como pecador está representado pela figura da mulher, também conhecida como pecadora. Ela é pecadora e os desdobramentos e consequências pelo fato de ser pecadora são deveras desgastantes, humilhantes e efetivamente danosos a qualquer ser humano. Mas, nada disso é suficiente para impedir que esta mulher vá ao encontro de Jesus. Ela sabe de sua condição e não se deixa tomar pelo desânimo. Luta com todas as suas forças com o objetivo de superar estas dificuldades. Segundo a própria crença que imperava em sua época, sua condição de pecadora a impedia até mesmo de tocar em outra pessoa. O seu pecado, e, neste caso, não estamos falando de lepra, impunha um isolamento social sufocante. Ainda assim, ela foi capaz de passar por cima dessas dificuldades, adentrar aquela casa e chegar a presença de Jesus.

     Estabelecido o grau de participação e relação da narrativa. E isto fica cada vez mais claro pelo tipo de discurso antagônico e anteposto no ambiente da casa do fariseu. A proposição do tópico em questão é a partir desse conceito de que o interior da casa tem relação direta com a privacidade. Deve se destacar que o elemento ajuizador potencializado no interior daquela casa está presente na pessoa e figura de seu anfitrião, o fariseu. É este mesmo fariseu que, doravante, não a lei, mas ele próprio que pelos desdobramentos ocorridos em sua casa estabelece o que se deve e o que não se deve ser obedecido. Em outros casos e em narrativas diferentes nos evangelhos, o Senhor Jesus é advertido e censurado por escribas e fariseus pelo fato de seus discípulos não lavarem as mãos antes das refeições, deixando de observar uma tradição e legado dos antigos(Marcos 7:2, 7:5; Mateus 15:2). A mesma situação se repete, tal qual a deste capítulo 7, em que uma narrativa descreve que o Senhor Jesus sendo convidado para jantar em casa de uma certo fariseu. Afirma que o fariseu ficou admirado dele assentar-se em sua mesa para comer e não ter lavado as mãos ( Lucas 11:38)

     Todavia para chegar a presença de Jesus, esta mulher, apesar dos contratempos, era bastante antenada com a realidade de seu tempo. Nem mesmo o isolamento imposto pela sua condição de pecadora foi suficiente para impedir a conexão que tinha com o seu tempo a tal ponto que pudesse viver alijada de tudo. O verso 37 nos diz que ela tomou conhecimento da presença de Jesus na casa de um fariseu. Então, temos neste caso uma mulher movida pela ânsia de se sentir acolhida e de ser perdoada. Ela sabia que somente Jesus poderia lhe proporcionar esta benção. E embora o Senhor Jesus estivesse em casa de um fariseu. Desfrutando de uma pseudo hospitalidade, pois estava comendo. Ela soube muito bem como unir a fome com a vontade de comer. E foi atrás do único que poderia lhe oferecer alívio e descanso para a sua alma.

     Talvez aquela mulher já tivesse frequentado ambientes parecidos como aquele da casa do fariseu. Ou até mesmo aquela casa em outras épocas. E, quem sabe, em algum momento, alguma coisa tenha dado errado em sua vida e ela, por isso mesmo, se encontrava naquela situação constrangedora de agora. Um dos indícios que mostra que ela era familiarizada com aquele ambiente doméstico, foi o fato de que ao ir ao encontro do mestre tenha levado um vaso de alabastro com unguento. Todo esse ritual judaico era rigorosamente obedecido antes das refeições. Jesus então se encontra literalmente reclinado à mesa na casa do fariseu para a refeição quando por trás, conforme o texto, se aproxima a mulher tida como pecadora.

     Há uma questão que precisa ser levantada aqui. Até que ponto o espaço da casa em dia de banquete deve ser considerado como um evento social e aberto a todos da cidade? Por mais que este tipo de alegação possa parecer sem sentido, há indícios de que era muito comum no tempos de Jesus. As pessoas quando queriam oferecer um banquete a alguém de projeção na sociedade, faziam daquele evento uma acontecimento social. Ao mesmo tempo que franqueava o livre trânsito de qualquer pessoa pelas dependência de sua casa. Assim podiam assistir aqueles que se banqueteavam regaladamente. Isso explica a mesma situação contada neste mesmo evangelho, na parábola do Rico e Lázaro. No caso desta mulher, seu objetivo não foi o de ser apenas uma expectadora de acontecimentos sociais. Ela fez daquele evento um ato de serviço e adoração.

     Já eliminamos em algum momento do desenvolvimento deste texto que embora aquela mulher fosse pecadora, ela não era portadora de lepra. Se fosse este o caso, o seu acesso àquela casa não aconteceria. O fato de que o foco e estigma de pecadora lhe pesava assim como sua condição de mulher, leva-nos a concluir que ela pudesse ser uma prostituta e que talvez tenha caído nesta vida. Porém, em outro momento, tenha sido alguém que transitou pelo meio social de uma classe alta e burguesa de sua cidade. De uma coisa temos certeza, o pecado dela tal como o texto descreve não era visível como a lepra ou qualquer outro tipo de mal patogênico que deixa algum tipo de sequela no corpo. Essa sua condição de pecadora foi o motivo, conforme o texto, de fazer com que o fariseu pensasse consigo próprio e questionasse a condição de profeta divino em Jesus. O texto é de uma complexidade na descrição do que acontece neste banquete e tem como objetivo precipuo não apenas a descrição de um evento meramente social, mas estabelecer o jogo de poder e de intencionalidades. E para tanto o sistema religioso e a forma como ele dispõe as pessoas neste jogo é fator preponderante.

     O que está em cheque não é o olhar misericordioso de quem não se encontra e muito menos se acha na condição de pecador. O que está em jogo é o olhar mesquinho e destruidor de quem se constitui como portador desse discurso religioso revestido de um preceito legal. E, como já foi assinalado, faz parte de um jogo de intencionalidades. O que é mais agravante ainda é que tudo isto esteja acontecendo no interior de uma residência. Não que esta situação não seja passível de acontecer no interior de uma casa. Porém, como jogo de intencionalidades, ela foi deliberadamente levada para lá. O fato de se fazer uma análise desta situação com ar de surpresa tem como interesse contrapor este acontecimento com a situação de nossos dias. E por que se fazer isto? Nas sociedades modernas há uma clara distinção legal e social entre espaço público e espaço privado. Todavia na casa desse fariseu, e nós estamos nos reportando a uma narrativa que tem seu lugar e tempo, espaço e ambiente no mundo antigo e onde o ambiente que deveria ser privado acaba se tornando num espaço público de livre transito de qualquer pessoa. Assim, fica mais passível de se entender porque Lázaro estava próximo a porta da casa do rico e também desejava comer das migalhas de pão que caiam de sua mesa(Lucas 16:20-21).

     O fariseu no verso 39 ao questionar a messianidade ou dom profético de Jesus fazendo alusão a condição de pecadora da mulher, retrata bem o que temos chamado de jogo de intencionalidades. Ou seja, o mestre enquanto profeta na visão do farisaísmo não era capaz de perceber que estava diante de uma pecadora. E para piorar, deixava que ela o tocasse. Há algumas outras situações colocadas nos evangelhos onde Jesus toca nas pessoas que estão enfermas. E se elas estão enfermas é porque têm algum pecado e as cura de suas enfermidades. Isto aconteceu com o leproso, onde ele literalmente toca naquele homem e declara que que quer ele seja limpo(Mateus 8:3: Marcos 1:41; Lucas 5:13). Há também a situação em que alguém lhe toca esperando alcançar uma graça como foi o caso da mulher que sofria de hemorragia(Marcos 5:31; Lucas 8:45). A ironia do fariseu ao pensar e duvidar consigo mesmo da messianidade de Jesus nos leva a reflexão de que não importa o quanto o Senhor tenha feito e de tal maneira que a sua fama tenha se espalhado e tenha chegado a situação de que agora na condição de alguém sendo recepcionado em casa de um fariseu. Ainda assim o olhar inquisidor daquele homem não o capacita a perceber que tudo que o Senhor Jesus tivesse realizado até aquele momento fora movido pelo sentimento de misericórdia pelo próximo. Mesmo que este próximo esteja na condição de uma mulher e socialmente considerada pecadora por todos daquele lugar e especificamente daquela casa.



II - Um sistema religioso capaz de minimizar a culpa através da relação entre credor e devedor.(V.V.40-43)


     No tópico passado objetivei falar do sistema religioso e de como, por mais eficaz que fosse, não conseguia exibir toda a sua abrangência. Já que é fato por tudo que estava ocorrendo no interior daquela casa que nem tudo era perfeição. Não podemos perder de mente que aquela casa pertence a um fariseu. Já falamos sobre isso, inclusive fazendo menção a Paulo, de que um fariseu tem como sua principal característica o extremo zelo pela Lei. Bom, todos sabemos também os motivos pelos quais o Senhor Jesus chamava fariseus e escribas de hipócritas, ou de sepulcros caiados(Lucas 11:14). Eles em nome de um discurso religioso que sustentava o próprio sistema social de sua época, faziam de tudo pela manutenção e perpetuação no cenário político e religioso de sua época e de tal representatividade. Mesmo que para tanto fosse necessário tão somente uma encenação.

     Da forma como tudo aquilo estava construído, muito embora, nem Jesus e muito menos a mulher questionem a validade do princípio legal(Lei). Ou seja, a mulher subsiste na condição de pecadora. Ela tem consciência de sua situação e vai até Jesus porque sabe que nesta condição ela tem apenas uma coisa a fazer. E é o que ela faz ao clamar ainda que silenciosamente por misericórdia. Todos ali naquela casa, a excessão de Jesus, a olham com reprovação e desprezo. Ainda assim, nada disto foi suficiente para que a impedisse de se dirigir àquela casa. E a atitude de Jesus que leva em consideração tanto a intencionalidade silenciosa do fariseu anfitrião, assim como a necessidade de se liberar o perdão para aqueles que por ele procuram.

     A lógica sarcástica de Jesus para com o fariseu é digna de admiração. E, por sarcasmo, quero chamar a atenção para aqueles bons sentimentos. Aqueles que visam tão somente minimizar o peso da culpa. Ele, Jesus, ao falar sobre o perdão de pecados, não está objetivando ignorar o sistema legal que coloca quem quer que seja nessa condição quando algum princípio é transgredido. Mas, a culpa que os indivíduos carregam tem pesos diferentes. E foi o que o Senhor estava querendo fazer quando leva o fariseu e anfitrião da casa, cujo nome era Simão, a raciocinar. O que podemos deduzir é que aquela mulher tinha cometido uma falta muito grande e pesada. Era tão pesada que não era capaz de carregar sozinha. E ainda sofria com o desdém e desprezo da sociedade em sua época.

     Tudo indica, conforme nos informa o verso 38, que aquela mulher ao chegar a casa e se aproximar de Jesus, que ela veio por trás e que ele somente tenha tomado consciência de sua presença pelo que fato de lavar os seus pés com suas lágrimas, enxugá-los com seus cabelos e ainda os ungir com um bálsamo. Mais notável ainda foi a atitude de Jesus de não reagir de forma instintiva afastando-se dela. O Senhor também percebeu algumas intencionalidades hostis tanto em relação àquela mulher quanto em relação a ele próprio. Entretanto, a forma com que lida com essas dificuldades é simplesmente genial. Ele trabalha com uma lógica de raciocínio que é a mesma lógica de Simão, o anfitrião da casa, porém que proporcionam resultados diametralmente diferentes.

     A lógica de Jesus é de acolhimento e perdão. Por isso mesmo, ao primeiro convite de um fariseu para cear em sua casa. Mesmo sabendo que poderia acontecer algum tipo de hostilidade, ele aceita. E essa hostilidade está denunciada pela própria mulher pecadora ao se aproximar de Jesus e fazer o que fez. Todavia, o que ela fez e como este seu ato revela a hostilidade do anfitrião para com o convidado. É o que veremos no tópico a seguir. Por ora, o que importa é pensarmos e repensarmos a lógica do acolhimento e perdão por parte de Jesus e de como, tanto Jesus quanto o fariseu, ao partilharem da mesma lógica e raciocínio, chegam a resultados tão diferentes.

     Primeiro de tudo, a lógica imperante e com base no princípio legal é a lógica punitiva do fariseu. Muito embora, até agora não saibamos de que pecado aquela mulher era acusada e passível de punição por ser pecadora. Entretanto, tendo como ponto de partida essa lógica imperante e o princípio legal que fazia daquela mulher uma pecadora. O que Jesus faz é tão somente demonstrar uma atitude que se mostrará como um ponto fora da curva. Mas, numa atitude que reflete que esta curva ainda é, ou continua sendo o referencial. Foi por isso que enfatizei que na atitude do mestre o que se destaca é o fato de que nele existe acolhimento e perdão. E o perdão é a palavra chave e elemento hermenêutico fundamental.

     O pecado continua sendo pecado para Jesus e a lei que é o princípio que revela se há ou não transgressão ou pecado, continua sendo a mesma. Conquanto os princípios reguladores de nossa vida em busca de retidão não possam ser violados ou omitidos por quem quer que seja, eles não podem nos tornar desumanos e insensíveis, a ponto de fazer com que eles sejam extremamente punitivos. Para se ter a percepção que independente do pecado ser grande ou pequeno, ou até mesmo de quem seja este pecador. O ato de acolher aquele que se encontra em tal situação, é um ato de amor. Jesus aceitou deixando que fosse tocado por aquela mulher pecadora. Isto se chama acolhimento, isto se chama amor. Ao mesmo tempo que também ela se sentiu acolhida, ela também retribuiu sua gratidão na mesma medida. É essa lógica matemática que relaciona proporcionalmente o tamanho da retribuição e amor ao tamanho do perdão recebido que o anfitrião da casa e fariseu não conseguia entender.



III - Um sistema religioso que sabe racionalizar o problema chamado pecado e distribuí-lo socialmente(V.V.44-47).


     Antes de mais nada, vale ressaltar que o Senhor Jesus que pode ser considerado como um convidado de honra para aquela ocasião. Começa reclamando do tipo de receptividade que encontrou ao chegar a casa do fariseu Simão. Ele reclamou pessoalmente com Simão da forma como foi recebido já que o mesmo não lhe ofereceu água para banhar os pés e as mãos e muito menos uma loção balsâmica para que tivesse sua cabeça ungida. Podemos passar por situações semelhantes. E quantas vezes já estivemos em algum tipo de festividade, até mesmo entre familiares e tenhamos saído de lá com algum tipo de sensação ou pressentimento de que não fomos bem tratados? Pois bem, foi o fariseu que insistiu para que o Senhor fosse jantar em sua casa. No minimo, ele deveria, enquanto anfitrião, providenciar todo conforto possível para a ocasião e para o principal convidado. Porém, não foi isto que aconteceu.

     Tudo que o Senhor Jesus argumenta com Simão a cerca do que ele deixou de fazer para com ele como convidado em sua casa, aquela mulher, tida como pecadora pelo próprio Simão, estava fazendo com Jesus e por Jesus. Segundo o próprio Jesus movida por um intenso amor. E é exatamente neste momento que o Senhor Jesus estabelece uma relação entre amar e pecar. Mas, não uma relação racionalizada e aceitável, do tipo social, tal como aquela que estava em vigor até mesmo no interior da casa de Simão, o fariseu. Esta relação entre amar e pecar é o que se pode dizer da prevalência de um em detrimento do outro. No caso efetivo da mulher pecadora o seu grande pecado foi proporcionalmente medido pelo seu intenso ato de amar. Foi exatamente essa proporcionalidade que foi capaz de não apenas produzir perdão de pecados bem como mensurar que o perdão estava atrelado a intensidade com que aquela mulher revelou seu amor ao mestre.

     "Quem ama aos outros cumpriu a Lei" é o que Paulo em Romanos 13:8 afirma em tom categórico. Amar é o grande segredo, e não deveria ser segredo. Pelo contrário, deveria ser a práxis de todos. Falar de praxis deveria ser uma regra básica para a vida cristã. Em meus tempos de seminário tive um professor que sempre que podia repetia aquela máxima de que o cristianismo é a religião mais materialista que se pode imaginar. Pelo fato de que para ser cristão há uma necessidade premente de se testemunhar. O próprio Paulo sempre ensinava às suas igrejas a necessidade de uma vida irrepreensível ao olhar de todos, tanto aos de fora quanto aos de dentro. E ainda exortava dizendo quanto a uma fé sólida e perfeitamente prática: "Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem." (Romanos 12:21).

     O problema de toda racionalização é sempre o mesmo. Quando os princípios e ou pressupostos legais vigentes na Lei passam por um processo de focilização ou petrificação. Casos e situações tais como esta experimentada pela mulher se repetem continuamente. A julgar pelas imperfeições apontadas por Jesus desde que chegou em casa de Simão. Podemos deduzir que sua casa não era uma casa acima de qualquer suspeita quando o assunto é o pecado. Jesus se queixou do tipo de recepção. Deve ter percebido também algum tipo de animosidade em relação a sua pessoa. E isso não fazia parte dos costumes da época quando se hospedava alguém em sua casa. Agora isto, é perceptível que também houvesse algo de maquiavélico arquitetado em relação a sua pessoa. Afinal, todos tinham conhecimento da condição de pecadora daquela mulher e não qualquer tipo de manifestação que pudesse alertar, caos fosse este o caso, quanto a sua presença.

    Pois bem, sendo aquela mulher o pecado em pessoa. Sendo o único objeto hostil e de má reputação naquela casa. As coisas deveriam ser conduzidas pelo anfitrião da mesma forma e com algum critério. Mas, como fora dito no tópico que que assinala e orienta a condução nesta parte do sermão. O que podemos efetivamente deduzir, nos dão conta de que com o que chamamos de racionalização apontamos ao fato de que ao olharem todos daquela casa para a mulher, era como se o pecado apenas nela habitasse. Ela e todas do sexo feminino são elementos catalizadores e por onde também são canalizados os argumentos que apontam a sexualidade feminina como a origem de quase todos os males ou pecados. Quando se faz referência ao adultério a ênfase recai apenas como um fardo que a mulher tem que carregar. Fala-se muito mais em prostituição tendo a mulher como uma das partes mais ativas nesta prática de pecado. E até mesmo quando se fala em divórcio a ênfase recaia sobre quem despede quem, e neste caso, mais uma vez a pessoa despedida com carta de divórcio é mulher.

     Pode ser, e por conta de toda essa carga listada no parágrafo anterior, que o Senhor Jesus, também olhando e analisando está situação de uma maneira tão racional, foi capaz de proferir uma palavra de perdão as àquela mulher. Era muito pesada a opressão sobre ela. Ao mesmo tempo, e pelas razões que também aqui foram colocadas, ela também tinha a necessidade de ser acolhida e viu essa oportunidade ao saber que Jesus estava na cidade e que estaria presente em casa de Simão. A crítica a rigor, que entendo esteja sendo feita por Jesus a este sistema religioso representado nesta casa pela figura de Simão, seu anfitrião. Não é necessariamente por causa da racionalização do pecado operada pelo sistema religioso e sim pela forma injusta com que as cargas pesavam mais sobre uns do sobre outros. Principalmente se entendermos que Simão, por ser fariseu, constitui-se em um dos principais operadores desse sistema.

     Assim Jesus oferece a mulher a alternativa de se sentir aliviada, perdoada, livre do sistema opressor que sabe racionalizar o peso do pecado, mas na hora de redistribui-lo se torna injusto e opressor. Ou seja, aqueles a quem o sistema religioso pouco oprime, são aqueles que pouco amam, por não se sentirem na condição de pecadores tal como aquela mulher se sentia. Foi exatamente está lógica utilizada por Jesus que foi capaz de pronunciar o perdão dos seus pecados. Não qualquer tipo de benefício da parte de Jesus para aquela mulher e muito menos a intenção de omitir o pecado dela ou de quem quer queira se aproximar de Jesus. O que há é uma adequação de uma sistema religioso de tal forma que ele seja justo para com todos desde que sejam resguardadas as liberdades individuais de cada um.



IV - Um sistema religioso que não subsiste ao ato de fé.(V.V. 48-50)


     Não há dispositivo de controle social que, por mais que seja eficiente, consiga submeter, subjugar a atitude de alguém que descobre ser capaz, em confiando em algum princípio em plena adesão por outros, ou até mesmo confiando em alguém que com dignidade lhe transmita confiança. Não podemos cometer a leviandade de acreditar que podemos viver se não temos um sistema. Os sistemas existem enquanto regulação de nossas relações sociais. Por exemplo, não sobrevivemos enquanto seres humanos no meio de um grupo se não dispomos de um sistema como a língua. Onde convenientemente entramos em um acordo para a celebração de um código pelo qual e através do qual norteará nossa comunicação.

     O sistema vigente enquanto norma era o código assim denominado de Lei Mosaica. É ele que, se por acaso algum daqueles cidadãos dos tempos de Jesus transgredisse algum preceito legal poderia ou seria passível de culpa e, dependo do tipo de transgressão, a penalidade poderia ser a pena máxima e capital que era, em casos de adultério, por apedrejamento. Os evangelhos jamais apresentaram Jesus como alguém que quisesse burlar ou se furtar a observância da Lei. Por outro lado, ele nunca se negou a observar o preceito legal tecer algum tipo de comentário, e até mesmo reinterpretar esse mesmo princípio legal. No evangelho de Mateus o mestre esclarece que seu objetivo não era o de abrogar ou abolir a Lei e sim de reinterpretar o princípio legal nela presente, assim como o espírito que foi capaz de inspirá-la(Mateus 5:17).

     Mas, há algo em Jesus que ainda não fomos capazes de reconhecer como uma de suas principais virtudes. Quando em seus embates acerca da aplicação e validade da Lei. E isso me chamou a atenção desde muito jovem. Foi posto em destaque por um mestre que tive no seminário. E dizia respeito ao lado humano de Jesus. Dizia este mestre que no embate entre a instituição e indivíduo, Jesus sempre se posicionava favorável ao indivíduo. O bom homem, fiel cumpridor da le,i não se omite, ou se furta, se num dia de sábado, ele tenha que fazer algum esforço, desde que este esforço esteja na razão direta de se fazer um bem a seu semelhante.

     Jesus se valia até mesmo de exemplos que se encontravam em relatos de textos do Antigo Testamento. Aquele texto que faz referência ao fato de que Davi e seus homens estavam famintos e estando no interior da casa de Deus se alimentou dos pães da proposição que não lhe era lícito comer, senão os próprios sacerdotes(Mateus 12:1-7). É evidente que a intenção ao fazer menção desses fatos tem como objetivo manifestar a forma como o Senhor Jesus valorizava a vida de cada indivíduo. Ao mesmo tempo que, com a única intenção de se valer de uma forma pedagógica a cerca da Lei, observar a maneira mais humana que ela deveria ser vista. O que faria com que ela fosse soberana, porém, sem que fosse impositiva e injusta.

     Dessa forma, a Lei e o que fazia com que aquela mulher fosse considerada pecadora, não estava e jamais seria invalidada. O princípio legal estava em plena vigência. Acho que esse, afinal de contas, deve ser o único ponto em que todos concordam unanimemente. Porém, a forma de interpretação e a consequente aplicação do princípio legal era e sempre foi o ponto de discórdia entre Jesus e todos aqueles que se intitulavam operadores da lei. O elemento que se constitui como diferencial entre Jesus e o anfitrião da casa, que era um fariseu. Era que a aplicação da lei, ou do princípio legal era feita com o mais puro dos sentimentos e que envolve a afetividade. Eu estou falando amor. 

     Pegando gancho na carta de Paulo de I Coríntios 13:13, dá para concluir que se aquela mulher tinha fé, esperança e amor. Não necessariamente que as coisas tenham que avançar nesta sequência. Poderia ser esperança, amor, fé. É fato que eles devem caminhar juntos. Porém, se qualquer um deles for suprimido as coisas não caminharão bem. Mesmo assim, o apóstolo é categórico em afirmar que o maior deles é o amor. Todavia, todo este processo que culmina na declaração de Jesus de que os pecados daquela mulher eram perdoados. Foi desencadeado pelo seu ato de fé e esperança e porque muito amou estar ali diante do mestre.

     A fé demonstrada por aquela mulher não brotou dos estereótipos que a ela eram atribuídos. Quem estava diante do mestre era um ser humano que, independente de sua sexualidade e todos os estereótipos e caricaturas que a envolviam, clamava por misericórdia. Enquanto pessoa, queria ser acolhida. O perdão também não soa como um faz de contas fundamentado nesses estereótipos. O perdão brota daquele que pode perdoar para aquela que clamava por perdão.

     E foi justamente este tipo de atitude que foi capaz de derrubar aquele sistema religioso. Ele ruiu, desmoronou porque não resistiu a fé proposicional daquela mulher. Ou seja, nenhum sistema religioso subsiste ao ato de fé daquele que busca e aceita, de acordo com os preceitos contidos e encontrados na escritura, andar em novidade de vida para que tenha uma vida irrepreensível.



Conclusão


     Tenho a nítida consciência de que esta temática é de extrema responsabilidade. E, a princípio, cabe aqui os devidos esclarecimentos quanto a proposição de uma temática tão delicada e extremamente volátil como esta. Alguém poderia dizer que estes esclarecimentos deveriam ser feitos logo na introdução. Que seja na introdução ou como está aqui na conclusão. O importante é que eles estão sendo feitos. E o primeiro deles a ser feito é no sentido de deixar claro que inexiste qualquer objetivo que não seja o de edificação de vidas, e por edificação entende-se maturidade. Fazer menção a maturidade tem como objetivo deixar claro também que não me furto ou me escondo, para não responder às grandes questões que têm sido colocadas para debates sob a tutela de algum tipo de preceito doutrinário e ou dogmático.

     Quando não se fala ou alguém se omite deliberadamente falar a cerca de algum sistema religioso justaposto na história e que esteja atrelado a alguma grande expressão de fé e religiosidade. Uma das principais explicações para tanto, prende-se ao fato de que há mais facilidade de se ater aos registros históricos desde que, a rigor, eles se vinculem a alguma personalidade histórica. No mais, a única forma, no nosso caso, de estabelecer uma ponte entre o sistema religioso vigente nos tempos de Jesus com a figura histórica de Jesus ocorre pelos embates dele Jesus com aqueles, tal como o fariseu anfitrião, que representavam e reproduziram o sistema operativo da Lei. Na ausência desses embates seria quase impossível estabelecer uma relação desse sistema religioso com sua própria historicidade.

     Outro fundamental esclarecimento que precisa ser feito diz respeito ao fato de que esta prédica não tem por objetivo decretar o fim da religião, ou do sistema religioso que a viabiliza e chancela enquanto prática e norma social. Quando se fala de fim desse sistema se leva em conta os ensinamentos de Jesus e a observação de que apenas e tão somente com o cultivo e prática do amor se pratica a boa e eficaz religião. Se faz dela não apenas um fim em si mesma. Pelo contrário, faz-se dela um instrumento de prática para o exercício da misericórdia. Longe e livre das amarras de seu caráter impositivo, heterodoxo e heteronômico.

     As amarras da religião e seu sistema heteronômico se desfazem com a prática do amor. Foi o que fomos capazes de ver ao nos debruçarmos sobre este texto tendo em vista o alcance desse objetivo específico. Entre o reconhecimento formal de nossas obrigações com o cumprimento da lei, naturalizada em nós pela obrigação de sua observância. Lei esta que é o elemento moderador em nossas relações sociais, culturais e religiosas. Tem que existir também a medida certa do bom senso para que a partir das relações interpessoais que surgem dessa norma previamente estabelecida tenhamos a melhor das convivência. E assim, apenas e tão somente assim, seremos capazes de vislumbrar aquela comunhão e advindo daí cultivarmos o espírito comunitário.

     



       Diferentemente de algumas figuras da história tais como Sócrates, por exemplo, que é trabalhado e pensado tão somente em um universo acadêmico e filosófico. O que acontece com Jesus, é que o cristianismo fez de um Jesus de Nazaré(Também conhecido como Jesus histórico), não necessariamente um Cristo da Fé na atualidade. Fizeram dele uma caricatura. 

     Se apropriaram dessa caricatura, e, sequer imaginam, ou passam por suas cabeças não pensantes que alguém queira estudar, buscar, e, quem sabe, levantar as fontes sobre essa figura em sua perspectiva histórica que, a rigor, não tem nada em comum com essa caricatura de propriedade dos vários grupos e seguimentos cristãos. 

     Explicar para eles que a Bíblia é um dos principais instrumentos de pesquisa na busca do Jesus Histórico é uma tarefa quase impossivel. Pois, para estes é o mesmo que cometer violência e sacrilégio contra o texto sagrado..

      Jesus é a principal personagem religiosa de uma parcela significativa da população mundial. A principal fonte de informações que temos a seu respeito é também chamada do ponto de vista técnico e canônico de Bíblia. Fazer menção da busca do Jesus Histórico e não considerar a narrativa bíblica como fonte confiável para se apurar quem efetivamente foi este personagem é algo de muito temerário. 

  De certa forma, faz com que desconsideremos qualquer tipo de informação com base na tradição canônica. Ou seja, todos que ao longo dos séculos com suas lutas e dificuldades tornaram-se testemunhas e preservaram a memória de Jesus e seu principal mandamento: "Fazei isto em memória de mim." Ficam expostos e colocados de forma duvidosa no quadro daqueles que se prestaram a desinformar quem realmente foi esse Jesus. 

     Até entendo a natureza metodológica de quem se presta a pesquisar quem realmente foi esse Jesus. É um tipo de metodologia empírica e racional que leva em consideração apenas os elementos concretos e sua materialidade e que se pode ter em mãos, ainda que outras ciências além da história possam ser utilizados. Entretanto, o que esses pesquisadores omitem em seus trabalhos científicos, é que dependendo do desenvolvimento das mesmas, todas elas possuem um grau relativo de subjetividade.

     Houve uma primeira busca do Jesus Histórico, e a conclusão que se chegou é que os textos a cerca desse Jesus na literatura canônica, especialmente nos sinóticos, não tinham nada historicamente que fosse passível de confirmação. Houve uma segunda busca e os resultados em nada a que se chegaram em nada alteraram o panorama da primeira busca.

     É fato, e até aqui estamos falando de buscas e pesquisas de caráter teológico, que todos os teólogos que que se dedicaram com especificidade a este tipo de pesquisa foram pessoas sérias. Bultmam foi um deles e seu objetivo era fazer com que mensagem se tornasse atual para o homem moderno.

     Outros como Tillich, embora não tenha dedicado a este tipo de pesquisa em algumas oportunidades se pronunciou sobre o método que se consagrou no emprego e busca da historicidade de Jesus(Histórico-Critico).

Apontamentos na epístola de Paulo aos Gálatas.

 



INTRODUÇÃO.


Sempre houve dificuldades no interior da Igreja de Cristo. Ela sempre se viu envolvida com perseguições devido a mensagem do Reino de Deus em que ela é a sua portadora. E neste caso, bem como em muitos outros, quando se aprofundam e endurecem as perseguições, a tendência é que se tornem mais violentas.

E ao se constatar que mesmo em meio às mais violentas perseguições, aqueles que são perseguidos continuam mais fortes e unidos. Então vem uma nova e mais demorada tentativa de se solapar e destruir qualquer movimento de união e unidade humana. Este segundo momento na perseguição começa a partir de um processo de constante infiltração de pessoas que se constituem como os agentes que implodem ou tentam implodir qualquer tipo de organização humana de dentro para fora.

Se hoje existe um grande problema no seio da Igreja de Cristo, este problema pode ser identificado como falta de maturidade. A simples referência ao tempo, atribuindo que este problema é atual, na realidade, quase todas as dificuldades por que tem passado a Igreja é resultante da falta de maturidade, logo o problema se quer é atual. Ele desde sempre esteve presente na história desta instituição divina.

A maturidade que me refiro é fruto das constantes investidas dos opositores da igreja que como afirmei, começaram essa investida de fora para dentro. Os motivos para tanta perseguição são muitos, diversificados e transmutados numa linha histórica e ascendente de tempo. Mas, em linhas gerais, eles obedecem uma certa lógica. E essa lógica é patrocinada por um poder temporal que se antepõe radicalmente a tudo que não faça parte dos seus domínios.

A retórica de pregação da igreja começou por celebrar um nome tendo-o como seu Rei. Este nome conhecido por Jesus trouxe ao seu povo a mensagem de um Reino, já que o Deus desse povo, agora presente na vida desse Jesus(A encarnação) é o símbolo por excelência da presença agora constante desse Reino: "Arrependei-vos pois é chegado o Reino de Deus".

Evidentemente que esse tipo de retórica jamais seria aceito por quem sempre esteve a frente e na liderança desse povo. Por outro lado, o que era um movimento pequeno e de poucas pessoas que a este movimento iam aderindo, de repente se avoluma de tal forma que não somente incomodaria as autoridades locais, bem como ao poder hegemônico e geopolítico representado pelo Império Romano.

Então, e tendo como pano de fundo as considerações iniciais deste texto. Que são considerações essencialmente genéricas, eu diria que uma das grandes dificuldades da raça humana é a convivência com o seu próprio semelhante. Eu não sou muito afeito a utilização de termos como espiritualidade. Mas entendo que o maior entrave para o desenvolvimento de uma espiritualidade humana, reside na dificuldade do homem em olhar para seu próximo e semelhante não com o objetivo de subjugá-lo.

Amar a Deus acima de qualquer coisa e amar ao próximo como a si mesmo, além de ser uma síntese do que está no DECÁLOGO, é o que fundamenta também a pregação da Igreja e toda a sua retórica ao longo dos séculos. Mas é também a pedra de tropeço desta mesma igreja. E eu diria que tudo isso começou desde que aquilo que chamamos de espírito comunitário começou a ser substituído de forma paulatina e natural pelo que chamamos de processo de institucionalização. E com a institucionalização veio também a hierarquização.

Não é leviano afirmar que este é o grande problema da raça humana. Todavia, como o nosso foco é a Igreja de Cristo, preciso me policiar para não incorrer em generalidades que interferem diretamente tanto na análise deste assunto quanto efetivamente ao sentido que se tenta emprestar ao mesmo.

Eu parto do princípio de que o sentido das coisas tem uma peculiaridade histórica. Ou seja, algo passível de uma mensuração no tempo. Para tanto o olhar de quem se volta par o tempo e as suas nuances obedece a critérios de natureza cultural e antropológica. Aduz-se ainda, uma variedade de vozes que, num primeiro momento, poderíamos cunhar, não sei se é o termo mais apropriado para isto neste momento, de POLIFONIA.

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Uma leitura no capítulo primeiro da Epístola de Paulo aos Gálatas.

Ao nos enveredarmos pelos textos paulinos, uma das primeiras características de suas epístolas, é sua maneira inconfundível de se apresentar. Ele não apenas se identifica assim como chama para si sua autoridade apostólica. E ao que tudo indica essa reivindicação de apóstolo chegou a ser bastante questionada em alguns ambientes das comunidades cristãs do primeiro século.

     Ele é apóstolo não da parte de homens e muito menos por intermédio de homem algum. Em seu histórico de vida cristã inexiste aquela chancela  por parte de um grupo denominado de apóstolos que se aplicava àqueles que tiveram suas experiências reunidas junto ao mestre quando esteve por aqui, até o momento em que foi crucificado e morto na cruz.

     Ele mesmo chega a fazer referência a sua experiência com Cristo quando em perseguição aos crentes a caminho de Damasco é tomado de uma grande e forte luz no meio da qual uma voz o interpelava do porque de sua perseguição aos crentes e consequentemente ao personagem da voz. E quando ele indaga de quem poderia ser aquela voz. A mesma lhe responde em tom categórico: "Eu sou Jesus a quem tu persegues."

    A narrativa com riqueza de detalhes, pode ser encontrada tanto em Atos 9:1-9; 22:1-10; 26:9-18. Entretanto, bastaria para nós como alusão a este contexto de chamada e autoridade apostólica o que ele mesmo, Paulo, nos relata em I Coríntios 15:1-10. Lá, ele traça uma cronologia das aparições do ressuscitado e de como este ressuscitado vem até ele por último. 

     É também uma característica sua nas cartas de apresentação, fazer alusão ao elemento trinitario do ser de Deus. Especialmente em Gálatas, o apóstolo destaca essa relação mais profunda, equilibrada e afinada entre Deus Pai e o próprio Jesus. E dessa maneira introduz o caráter maior da graça divina que foi a entrega voluntária do filho pelos pecados do mundo. A pregação da graça é como uma tônica maior nos discursos mais primitivos da pregação apostólica, há tanto a ênfase na morte de Jesus quanto no miraculoso ato de ressurreição operado por Deus Pai. E é exatamente dessa maneira que o apóstolo se dirige a estes irmãos da Galácia.

     Com isto, Deus em Cristo se propõe a desarraigar o homem dos seus pecados e deste mundo perverso e pervertido. Na pregação do apóstolo tudo ocorre pela vontade soberana de Deus e nosso Pai. E conquanto tudo isto se deu no tempo e no espaço, a figura do filho para seu cumprimento foi fundamental. É dessa maneira que o apóstolo conclama os Gálatas a glorificarem a Deus pelos séculos dos séculos.

     O "Amém!" final neste trecho introdutório destaca o caráter doxológico. O relato de Paulo não objetiva ser tão somente o estabelecimento dos princípios que norteiam a sua pregação. Sua forma de apresentação jamais dispensa a oportunidade de glorificação do nome de Cristo e do porque este nome precisa e deve ser reverenciado, uma vez que foi ele que de forma obediente cumpre com a vontade do Pai ao revelar seu amor e misericórdia a todos nós. Até mesmo os Gálatas foram objetos dessa graça maravilhosa.

    Terminada esta apresentação com teor doxológico. O apóstolo agora fala em tom de surpresa a cerca da reação dos Gálatas quanto a graça de Deus que a eles foi trazida por meio da pregação de Paulo. A afirmação em tom acusatório do apóstolo nos dá conta de que eles estavam passando da graça de Cristo, o evangelho anunciado por Paulo para outro evangelho. Segundo o apóstolo este novo evangelho era tão somente uma forma distorcida do que o apóstolo havia anunciado entre aqueles irmãos.

    A palavra do apóstolo em tom de juízo e maldição é no sentido de que se alguém lhes anunciasse um evangelho diferente, ou forma distorcida do evangelho que já foi pregado, que seja anátema. E volta a repetir esse juízo e maldição fazendo menção de que qualquer coisa que se apresentasse como evangelho e que fosse além daquilo que eles já tinham recebido, que seja anátema.

     Nas palavras do apóstolo, anátema não é tão somente um juízo condenatório. É também uma sentença que tem como função precípua erradicar do meio da comunidade quem se comporta de maneira a perverter a doutrina ou ensinamento de Cristo. Nós vamos começar a entender melhor o porque de uma atitude tão austera do apóstolo quando adentrarmos à análise dos versos subsequentes.

     Neste verso de número 10, vemos o apóstolo fazendo menção de como ele se comporta diante dos homens e do próprio Deus. E nessa dinâmica de relacionamento entre ambos, ele fala que busca tão somente agradar e glorificar a Deus. Caso não fosse assim ele não seria servo de Cristo. Portanto, a conclusão pela qual ele tenta levar o raciocínio aos Gálatas é de que o evangelho por ele pregado entre eles não é segundo o homem. E por uma simples razão. Ele não recebeu, nem aprendeu de homem algum. Tudo foi por intermédio de revelação e em Cristo Jesus.

    Os Gálatas precisam entender que a defesa do evangelho e a forma como ele lhes foi pregado por Paulo, não se limita a um conjunto de doutrinas ou ensinamentos que se apura através do homem e sua cultura. Aquilo que comumente chamamos de tradição. Pois é este o argumento de Paulo. Ele fala de revelação assinalando que o evangelho veio até ele por revelação direta de Jesus Cristo. 

     Aliás, esta é uma característica muito presente no pensamento de Paulo. Quando ele usa a expressão "Estar em Cristo", isto significa que há uma conexão direta com o Senhor Jesus e que categorias da finitude que nos ajudam a pensar, tais como tempo e espaço, caem por terra. É um tipo de conexão que independe de qualquer tipo de mediação.

     A seguir, o apóstolo apela para a memória dos Gálatas quando relata o tipo de procedimento por estar muito apegado ao judaísmo e às tradições de seus antepassados. E de que neste interin buscava perseguir a igreja de Deus e, como ele mesmo diz, provocava muitos danos e devastação.

     Ele fala de seu extremo zelo e de como superava a muitos de sua idade. Após o que ele lembra que aquele que o separou antes de nascer e lhe chamou pela sua graça, foi do seu agrado revelar Jesus nele. E o objetivo era tão somente de que pregasse o evangelho aos gentios. E para tanto ele não se viu na obrigação de consultar ninguém. E acrescenta que se quer subiu a Jerusalém para ver aqueles que já eram apóstolos antes dele.

     Então Paulo, seguindo em seu histórico de narrativa que serviu como testemunho para os Gálatas, afirma que somente depois de três anos passados de sua conversão, ele subiu a Jerusalém para se avistar com Cefas(Pedro) e de ter permanecido com ele quinze dias. E nesse período não viu nenhum outro apóstolo a não ser Tiago, irmão do Senhor. Seu intento em relatar tais fatos era no sentido de deixar claro que seu ministério não dependia e jamais dependeu de uma chancela ou licença por parte daqueles líderes da igreja em Jerusalém. E faz questão de dizer que o seu relato é testemunho fiel e não há mentira nele.

     O apóstolo esteve em regiões como Síria e Cilícia. Porém, jamais se preocupou em ser conhecido pelas igrejas da Judeia, que estavam em Cristo. No máximo o que se ouvia a seu respeito, era que ele de perseguidor da igreja passou a ser aquele que pregava o que esta igreja perseguida sempre pregou. Agora prega a fé que um dia visou destruir. E essas histórias eram motivos para que Deus fosse glorificado a seu respeito. 

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Uma leitura do capítulo 2 da Epistola de Paulo aos Gálatas.


Decorridos 14 anos após Paulo ter ido a Jerusalém, e ter estado com Cefas e Tiago, ele retorna novamente a Jerusalém. Porém deixa claro que esteve lá por obediência a uma revelação. Desta vez ele estava acompanhado de Barnabé e Tito. Seu objetivo era esclarecer o evangelho que pregava entre os gentios. E segundo ele, ainda que não devesse obediência alguma a liderança da igreja em Jerusalém, ele não queria fazer a obra a revelia do que eles também pregavam.

A grande questão que se colocava nesta época era se os gentios deveriam ou não, ao aderirem a pregação do evangelho, ser circuncidado. Mas, Paulo que tendo levado a Tito que era de origem grega, disse que jamais se viu constrangido por quem quer que seja a circuncidá-lo. E o motivo de todo esse mal estar, eram aqueles falsos crentes que se infiltraram no seio da igreja com o objetivo de espionar a liberdade que se alcança em Cristo Jesus e reduzir novamente a comunhão da igreja do Senhor em escravidão.

Paulo afirma que jamais se dobrou a estes por uma simples razão para que a verdade do evangelho permanecesse entre todos na igreja. A cerca daqueles que exerciam liderança na igreja, o apóstolo é de opinião que em nada acrescentaram. Ele também achava que esta liderança teve algum tipo de eficácia no passado, por ora tinham apenas aparência e para Deus aparência é algo inaceitável.

A única conclusão sensata que Paulo tirou desta liderança em Jerusalém foi quanto a seu ministério entre os gentios e de que continuasse com a pregação do evangelho da incircuncisão. Tendo Cefas como responsável pelo evangelho da circuncisão. Neste caso, e a partir dessa relação e atribuição de função entre Cefas e Paulo. O apóstolo retoma aquela dinâmica estabelecida nos Atos do Apóstolos onde de uma forma velada essa demarcação entre uma pregação e outra já era notada.

O apóstolo fala da satisfação daqueles líderes, ao tomarem conhecimento do que Deus através de seu ministério estava realizando. Aqueles tidos como os colunas da igreja em Jerusalém, Tiago, Cefas e João estenderam a mão da comunhão a Paulo e a Barnabé que estava com ele. Ou seja, eles possuíam formalmente o aval daquela liderança e consequentemente da igreja de Jerusalém com uma recomendação específica de que não esquecessem dos pobres.

Feito estes esclarecimentos e estabelecidas as condições e atribuições de uma e de outra vertente aqui representados por Cefas e por Paulo. O apóstolo relata que em uma outra ocasião. Quando este grupo ou parte desse grupo se encontrava em Antioquia. Tanto aqueles que seguiam e pregavam o evangelho da circuncisão quanto aqueles como Paulo e Barnabé que pregavam o evangelho da incircuncisão. Paulo relata ter havido um incidente provocado pela conduta de Pedro.

O apóstolo relata que antes da chegada do grupo de Tiago, Cefas comia com os gentios. Ao avistar a chegada do grupo de Tiago ele se afastou dos gentios de uma maneira dissimulada a ponto de até mesmo Barnabé se deixar levar por tamanha dissimulação. O contra senso apontado por Paulo dizia respeito ao fato de que ao pregarem o evangelho da circuncisão impunham aos gentios que eles deveriam viver como judeus. Porém, eles mesmos não se comportavam como judeus.

O argumento de Paulo é de que embora ele, Cefas, Barnabé, Tiago, João e tantos outros judeus de natureza, não sejam contados como pecadores entre os gentios. Devem ter pelo menos a consciência de que os judeus não são justificados por obras da lei. Mas, mediante a fé em Cristo Jesus. Por isso os judeus têm crido em Cristo Jesus para alcançarem a justificação pela fé em Cristo e não por obras da lei. Pois, pelas obras ninguém será justificado.

Em seu argumento, o apóstolo fala de uma incompatibilidade entre a fé em Cristo e o seu resultado direto que é a justificação e as obras da lei. Pois é impossível que se busque uma justificação em Cristo e ao mesmo tempo o homem se encontre na condição de pecador. Cristo não é ministro do pecado. Esse argumento de Paulo serve para alertar e ilustrar a armadilha daqueles que queriam convencer os Gálatas da necessidade de uma circuncisão como elemento também de justificação.

A lei termina para o judeu com a aceitação do sacrifício, morte e ressurreição de Cristo. Eles foram achados na condição de herdeiros da promessa que se concretizou pela lei. Mas, o princípio legal jamais logrou sua eficácia para a justificação dos seus pecados. Ele apenas indica uma solução final que se atinge com a obra de Deus em Cristo mediante a operação da graça.

Os Gálatas enquanto gentios estão dispensados desse processo que por natureza é prerrogativa do povo da promessa. Se é que existe alguma vantagem nessa prerrogativa. A seguir Paulo faz de seu testemunho pessoal e, por fazer parte do povo da promessa, um comparativo de sua relação com a lei quando afirma que morreu para a lei a fim de viver para Deus. A imagem por ele pintada é de que no sacrificio de Cristo ele é solidário com ele e com ele é crucificado.

Assim não é mais ele quem vive e sim Cristo que vive nele. O seu viver na carne, é vivido pela fé no filho de Deus que o amou e se entregou a si mesmo por ele. Para concluir este capítulo, o apóstolo que até este momento tem dado o seu testemunho pessoal. Afirma que existe apenas uma maneira de não se anular a graça de Deus e esta maneira se dá pela forma solidária pela qual entendemos o nosso relacionamento com Cristo e de como neste relacionamento ele ocupa esse espaço em nossa vida e ser. Com isso se conclui que a justiça ou justificação é mediante a fé e não pelas obras da lei.

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Leitura do capítulo 3 da epístola de Paulo aos Gálatas.


A começarmos pelo verso primeiro deste capítulo, a crítica do apóstolo, que por sinal, é veemente, indica a falta de sensibilidade daqueles crentes. Vocês são insensatos ANÓETOI, falta de sensibilidade decorrente da própria ignorância. Objetivamente poderia se questionar esse tom um tanto quanto sarcástico por parte do apóstolo. Mas este tipo de construção que beira a ironia, é capaz de reproduzir o sentimento de profunda decepção ante ao que estava acontecendo entre o Gálatas.

O lamento do apóstolo reflete uma subversão de valores ante a tudo que aqueles crentes puderam experimentar a época em que Paulo esteve com eles e tudo quanto foi ministrado em favor do crescimento de suas vidas. Esses crentes após serem impactados pela ministração da palavra de Deus, a pregação do evangelho. Agora, foram seduzidos por algo menos substancial e mais representativo.

Eles estão se deixando levar por algo ilusório que explora muito mais uma pseudo visão do que o que ouviram através do testemunho da palavra. É o que Paulo através do verso 2 questiona: "Recebestes o Espírito pelas obras da Lei, ou pela pregação da fé?" De certa forma o apóstolo está apelando, parece até irônico falar sobre isso, para a sensibilidade adormecida ou perdida dos crentes de Gálatas.

Desde o verso 2 até o 5 o apóstolo explora dialeticamente toda esta situação. Obras da Lei em vez de pregação da fé; começa pelo Espírito e acaba pela carne; Padecimento em vão ou não; E o perigo de se subverter, por conta disso, aquela certeza de que aquele que lhes dera o Espírito é também o mesmo que opera os milagres.

Quando afirmei categoricamente que o sentido das coisas tem uma peculiaridade histórica e reafirmo essa peculiaridade. Também quero dizer que esta peculiaridade obedece a critérios hermenêuticos. A alusão feita a Abraão e a justiça divina imputada a ele por causa de sua fé é o que faz com que cada crente da igreja da Galácia seja filho de Abrão, ou quem quer que tenha crido em Cristo.

A referência a Gn 12;3 e o entendimento de que estas bençãos prometidas a Abraão é uma realidade e cumprimento que acontece na vida de cada não judeu(GENTIO) que em Cristo Jesus são alcançados pela graça. Mostra como essa forma de dialogação do apóstolo com a cultura e tradição religiosa de seu povo perde o ar de algo comunitário e restrito ao âmbito de uma etnia. Ela ganha características de uma mensagem de diversidade e universalismo.

Como foi dito no parágrafo anterior. Essa conclusão tipicamente comunitária, doméstica e religiosa de Paulo, é capaz também de alcançar o mundo. E que conclusão é esta a que chega o apóstolo? Todos nós que temos crido em Cristo e o aceitamos como nosso salvador, somos bem aventurados. Fazemos parte da promessa que o Deus dos hebreus havia feito ao grande patriarca Abraão: "Em ti serão benditas todas as famílias da terra."

Até aqui temos chegado a uma razão dialética desenvolvida por Paulo e com alguma argumentação e fundamentação histórica entre os crentes de gálatas e sua relação com a herança dos patriarcas, ainda que não pautada pelo principio legal e escriturístico. A fundamentação até aqui não conta com o aval da escritura, mas com uma hermenêutica escriturística.

Se pensarmos que a vida deste apóstolo foi uma constante entrega a escritura e que, num determinado momento, esta vida sofre um guinada espetacular. O cenário é o caminho de Damasco adornado com uma mistura de névoa, luz e uma voz misteriosa que a ele se apresenta como Jesus.

É evidente que as coisas não são assim tão simplórias a ponto de, ao fazermos alusão a esta guinada espetacular, imaginarmos que uma mudança tão radical de vida pudesse acontecer como que num flash de luz. Mas, a escritura exerceu papel preponderante na vida deste apóstolo. Mesmo depois de sua conversão ocorrida inicialmente a partir de seu encontro pessoal com o Cristo e no caminho que o levava a Damasco.

O que muda no apóstolo é a sua relação com a escritura a partir de uma nova abordagem hermenêutica. E a conclusão que ele é capaz de tirar da escritura, e esta, simbolizada pela Lei, é que ela está posta numa relação bastante bipolarizada e na forma da letra. O resultado triste desta relação bipolar quando o assunto é a escritura, será somente um; CONDENAÇÃO.

Então o apóstolo conclui que foi Cristo que se fez maldição por nós por ter assumido essa condenação da Lei. Ele sofreu todo um martírio com direito a execração pública e o seu objetivo era nos livrar de toda esta situação vexatória; "Cristo nos regatou da maldição da Lei." Para tanto ele se fez maldição por nós.

Há uma infinidade de outras nuances, corolários desta hermenêutica paulina. E que ficaram em período de hibernação. As quais poderão ser identificadas em período tardios da história da igreja. Esta afirmação é tão real que se pegarmos alguns dos grandes teólogos e pais da igreja veremos que a fonte inspiradora de suas teologias foram as cartas do apóstolo e, uma grande epístola em especial: ROMANOS.

Quem não permanece naquilo que está escrito se torna maldito. Isto se diz daquele que se torna consciente dos registros escriturísticos. Mas e aqueles que não chegaram ao conhecimento e reconhecimento de culpa pela forma da letra, a Lei é inimputável a este? Para o apóstolo não, e o seu argumento se sustenta na soberania divina afirmando que o agir providencial de Deus na forma da Lei constitui-se numa ferramenta que dimensiona a gravidade do delito do homem que precedeu a Lei(Romanos 5:20).

Logo, na visão do apóstolo é somente o evangelho de Jesus Cristo e este tal qual foi anunciado aos Gálatas(gentios) que deve possuir relevância para isentá-los de um cumprimento da Lei mosaica com o objetivo de se obter uma justificação diante de Deus. A chave linguística na interpretação de Paulo que leva o homem a justificação é a FÉ por ele depositada em Cristo Jesus.

Ninguém melhor do que Paulo para saber e ter consciência do fardo que a Lei representa. Principalmente por ele ter sido durante boa parte de sua vida um judeu extremamente zeloso no cumprimento da Lei. Porém, quando ele fala da Lei, e muito embora ela tenha essa atribuição de um grande fardo, Isto não significa que haja rancor em seu coração.

O apóstolo quando faz referência a Lei, ele usa a metáfora de uma PEDAGOGA. Uma orientadora que tem como objetivo nos orientar em nossa formação desde a infância de tal maneira que alcancemos a maturidade. Esta maturidade é chegar a Cristo. Ao estabelecer o período mosaico como elemento de transição para se adquirir a maturidade em Cristo Jesus, ele conclui que a tentativa de se impor aos gentios as amarras desse período não é parte do plano divino e muito menos de sua justiça.

A Justiça de Deus agora revelada, em Cristo Jesus, aos homens, estabelece que a Lei não pode invalidar a promessa. O que se pode depreender da atitude do apóstolo eu chamo de uma proposição pró ativa quanto a eleição dos gentios. E ao se utilizar de uma outra metáfora, entre a raiz e os ramos. Onde os naturais(Judeus) foram quebrados e em seu lugar enxertados os outros povos(Gentios), Romanos 11:16-24.

Todo esse arcabouço teológico construído pelo apóstolo é para justificar que a eleição de Deus ocorrida em Cristo Jesus é o anteparo para todas as barreiras étnicas e culturais. Nele nos encontramos unidos pela soberana vontade de Deus. Fomos feitos descendentes de Abraão e, desta forma, herdeiros conforme a promessa que Deus mesmo fizera ao grande patriarca.

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Leitura do capítulo 4 da Epístola de Paulo aos Gálatas


Paulo fez menção sobre falsos irmãos que espreitam a nossa liberdade alcançada em Cristo e buscam fazer com que sejamos novamente reduzidos a escravidão. Agora, ele se vale do princípio legal para apontar a nossa situação em um momento em que ele mesmo descreve nossa realidade para o referido momento, como quando nós nos encontramos sem maturidade e, portanto, sem autonomia sobre o rumo de nossas vidas. E ele diz que ao nos encontrarmos nesta situação, embora sejamos herdeiros, em nada nos distinguimos dos servos ou escravo

Assim que nesta situação até o tempo estabecido pelo pai estamos sob tutores e curadores. Houve um tempo de nossas vidas quando éramos menores em que estávamos sujeitos aos rudimentos ou elementos do mundo, os quais por si só estão condicionados pelo princípio legal. Isto apenas mudou em face do cumprimento do tempo. E este tempo é demarcado e caracterizado com a vinda de Cristo. Ou seja, foi quando Deus enviou seu filho ao mundo. E ele verdadeiramente se inseriu neste mundo de forma concreta ao nascer de mulher e declarado homem pela tutela da Lei

O objetivo estava claro em sua missão ao nos resgatar do julgo dessa Lei. Ao fazer isto somos recebidos como filhos por adoção. Ao nos colocar na condição de filhos, Ele também proporcionou aos nossos corações que recebêssemos o espírito de seu filho. E mediante quem nós clamamos a ele como Pai. Em outras palavras, Deus em Cristo Jesus nos proporciona a condição de filhos. Mais do que isso, por ele temos como principal aquisição a nossa maturidade e consequente liberdade. Com isso deixamos de ser escravos e nos tornamos filhos e herdeiros de Deus e de suas promessas

Paulo faz uma comparação entre o tempo antes dos Gálatas terem conhecido a Deus. Ele então faz alusão a cultura politeísta deles e o fato de que eles ainda não conheciam a Deus. Era um tempo de culto pagão que para nada servia. Porém, depois de terem conhecido a Deus por meio do evangelho, mesmo já sendo conhecidos de Deus. O apóstolo revela todo seu inconformismo pelo fato deles agora ensaiarem voltar àqueles rudimentos fracos e pobres e o que é mais absurdo, uma vez tendo experimentado a liberdade agora desejam retornar ao que antes os escravizava

Uma atitude em direção ou retorno ao passado tal qual o apóstolo descreveu neste verso oito. É um tremendo e estupidk retrocesso. Ele também inibe, quando o homem está sob controle de um poder escravista e opressor, a capacidade humana em contar seus dias, meses, e tempos, e anos. Somente pela liberdade alcançada em Cristo, o homem é capaz de fazer um exame e ele próprio estabelecer o quanto ele cresceu e se desenvolveu. Ao mesmo tempo que projeta de forma positiva seus pensamentos e mentes para o futuro. E se torna ainda mais frustrante quando o apóstolo fala de seu receio em ter trabalhado em vão junto aos Gálatas

A seguir e em tom de súplica o apóstolo apela para a sensibilidade dos Gálatas. Chama a atenção no sentido de que os Gálatas devem olhar para ele e concluírem que tanto Paulo quanto os Gálatas são iguais em seus sentimentos e se disponibilizaram a servirem o mesmo Deus em Cristo Jesus. Eles em nada têm ofendido a Paulo. Paulo lembra a maneira como pregou o evangelho pela primeira entre eles. E foi por causa de uma enfermidade. Pode ser que o apóstolo estivesse apenas de passagem por aquela região, mas a enfermidade o fez permanecer por mais tempo. E, segundo o apóstolo, a enfermidade nunca foi algo de tão pesado e tentador. Pelo contrário mostrou o profundo sentimento de acolhida por parte deles

E agora o apóstolo pergunta pelo sentimento de felicitações e de acolhimento por parte deles. E lembra o profundo sentimento de entrega por parte deles que se possível arrancariam os próprios olhos em favor do apóstolo. E ainda pergunta, será que ao falar a verdade corro o risco de me tornar seus inimigos agora? A revelação que o apóstolo faz a partir deste momento é no sentido de que aqueles que cortejam os Gálatas agora, não fazem para o bem. Senão para o bem deles mesmos

O caráter afetuoso das palavras do apóstolo ao chamar os Gálatas de filhos e a revelação do quanto lhe doeu estando longe do convívio desta igreja no presente momento em que redige esta epístola. O fato de estar falando duro quanto ao está acontecendo no seio desta igreja. E talvez se estivesse presencialmente no meio deles o tom de voz teria se alterado e não fosse tão duro e com força de juízo

Um dado bastante interessante neste verso 21, resume-se ao tipo de argumentação do apóstolo ao chamar a atenção daqueles que desejam viver sob o jugo da lei. E quando o apóstolo remete este tipo de questão aos tais, ele estabelece uma relação entre o que se ouve e o que está escrito sob forma de registro na escritura: "Não ouvia a Lei?"_ "Pois está escrito." A sequência narrativa então reproduz a saga do patriarca Abraão e a duas mulheres que lhe deram filhos. Entretanto, com o agravante de que uma é escrava e a outra é livre

A aparente relação conjugal do patriarca não apenas serve para ilustrar os dois tipos de aliança de que se vale o apóstolo para falar dos desdobramentos dos respectivos nascimentos. E de que o filho da escrava é nascido segundo a carne e o filho da livre é nascido segundo a promessa. Ele também esclarece que são duas alegorias. Por onde encaminha sua narrativa e o desenvolvimento da mesma tendo por base os desdobramentos históricos e o que eles representam em termos de escatologia para toda a tradição cristã

Todavia, o ponto focal e fundamental aqui abordado passa com certo grau de imperceptibilidade. Já que, o que está em jogo aqui é o tipo de hermenêutica utilizada por Paulo que visa dar sentido a tudo que os Gálatas tinham aprendido quando foram evangelizados por ele. De uma maneira célere e sintética o que o apóstolo usa como recurso para advertir aos Gálatas é o mesmo recurso utilizado por ele ao se referir em uma outra situação a cerca de Lei e sua respectiva hermenêutica inaugurada com o evento de Cristo. Quando a mesma é iluminada pelo Espirito de Deus: "A letra mata, mas o Espírito vivifica." (II Coríntios 3:4-5)

É esta liberdade alcançada, dinamizada e impulsionada pela ação do Espírito que nos transforma em ousados na hora de analisar e interpretar o texto da escritura. Foi dentro desta lógica que Paulo desenvolve sua hermenêutica, ao mesmo tempo que é capaz de elencar que aliada a esta hermenêutica responsável está o backgroud de sua perspectiva histórica no auxílio dessa leitura. Entre Ágar e Sara pode se estabelecer, não querendo parafrasear um grande filósofo, a dialética da senhora e da escrava. E de posse desse conhecimento da escritura, o apóstolo propõe uma enquete em que os Gálatas são levados a escolher de quem eles preferem ser filhos, da escrava ou da mulher livre

Paulo ao puxar pela memória da tradição dos patriarcas e ao relacionar o dilema ou querela entre a serva e a livre. Agora, e em tom categórico afirma aos Gálatas que eles são os filhos da promessa, tal como Isaque. E assim como o filho segundo a carne perseguia o filho da promessa que é segundo o Espírito. Assim é a situação agora em que os Gálatas se vêem envolvidos. E novamente apelando para o que a escritura diz. Pois o filho da escrava juntamente com a mãe são despedidos e lançados fora. Assim também está determinado que em hipótese alguma o filho da escrava herdará o lugar do filho da livre

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Leitura do capítulo 4 da Epístola de Paulo aos Gálatas.


Paulo fez menção sobre falsos irmãos que espreitam a nossa liberdade alcançada em Cristo e buscam fazer com que sejamos novamente reduzidos a escravidão. Agora, ele se vale do princípio legal para apontar a nossa situação em um momento em que ele mesmo descreve nossa realidade para o referido momento, como quando nós nos encontramos sem maturidade e, portanto, sem autonomia sobre o rumo de nossas vidas. E ele diz que ao nos encontrarmos nesta situação, embora sejamos herdeiros, em nada nos distinguimos dos servos ou escravos.

Assim que nesta situação até o tempo estabecido pelo pai estamos sob tutores e curadores. Houve um tempo de nossas vidas quando éramos menores em que estávamos sujeitos aos rudimentos ou elementos do mundo, os quais por si só estão condicionados pelo princípio legal. Isto apenas mudou em face do cumprimento do tempo. E este tempo é demarcado e caracterizado com a vinda de Cristo. Ou seja, foi quando Deus enviou seu filho ao mundo. E ele verdadeiramente se inseriu neste mundo de forma concreta ao nascer de mulher e declarado homem pela tutela da Lei.

O objetivo estava claro em sua missão ao nos resgatar do julgo dessa Lei. Ao fazer isto somos recebidos como filhos por adoção. Ao nos colocar na condição de filhos, Ele também proporcionou aos nossos corações que recebêssemos o espírito de seu filho. E mediante quem nós clamamos a ele como Pai. Em outras palavras, Deus em Cristo Jesus nos proporciona a condição de filhos. Mais do que isso, por ele temos como principal aquisição a nossa maturidade e consequente liberdade. Com isso deixamos de ser escravos e nos tornamos filhos e herdeiros de Deus e de suas promessas.

Paulo faz uma comparação entre o tempo antes dos Gálatas terem conhecido a Deus. Ele então faz alusão a cultura politeísta deles e o fato de que eles ainda não conheciam a Deus. Era um tempo de culto pagão que para nada servia. Porém, depois de terem conhecido a Deus por meio do evangelho, mesmo já sendo conhecidos de Deus. O apóstolo revela todo seu inconformismo pelo fato deles agora ensaiarem voltar àqueles rudimentos fracos e pobres e o que é mais absurdo, uma vez tendo experimentado a liberdade agora desejam retornar ao que antes os escravizava.

Uma atitude em direção ou retorno ao passado tal qual o apóstolo descreveu neste verso oito. É um tremendo e estupidk retrocesso. Ele também inibe, quando o homem está sob controle de um poder escravista e opressor, a capacidade humana em contar seus dias, meses, e tempos, e anos. Somente pela liberdade alcançada em Cristo, o homem é capaz de fazer um exame e ele próprio estabelecer o quanto ele cresceu e se desenvolveu. Ao mesmo tempo que projeta de forma positiva seus pensamentos e mentes para o futuro. E se torna ainda mais frustrante quando o apóstolo fala de seu receio em ter trabalhado em vão junto aos Gálatas.

A seguir e em tom de súplica o apóstolo apela para a sensibilidade dos Gálatas. Chama a atenção no sentido de que os Gálatas devem olhar para ele e concluírem que tanto Paulo quanto os Gálatas são iguais em seus sentimentos e se disponibilizaram a servirem o mesmo Deus em Cristo Jesus. Eles em nada têm ofendido a Paulo. Paulo lembra a maneira como pregou o evangelho pela primeira entre eles. E foi por causa de uma enfermidade. Pode ser que o apóstolo estivesse apenas de passagem por aquela região, mas a enfermidade o fez permanecer por mais tempo. E, segundo o apóstolo, a enfermidade nunca foi algo de tão pesado e tentador. Pelo contrário mostrou o profundo sentimento de acolhida por parte deles.

E agora o apóstolo pergunta pelo sentimento de felicitações e de acolhimento por parte deles. E lembra o profundo sentimento de entrega por parte deles que se possível arrancariam os próprios olhos em favor do apóstolo. E ainda pergunta, será que ao falar a verdade corro o risco de me tornar seus inimigos agora? A revelação que o apóstolo faz a partir deste momento é no sentido de que aqueles que cortejam os Gálatas agora, não fazem para o bem. Senão para o bem deles mesmos.

O caráter afetuoso das palavras do apóstolo ao chamar os Gálatas de filhos e a revelação do quanto lhe doeu estando longe do convívio desta igreja no presente momento em que redige esta epístola. O fato de estar falando duro quanto ao está acontecendo no seio desta igreja. E talvez se estivesse presencialmente no meio deles o tom de voz teria se alterado e não fosse tão duro e com força de juízo.

Um dado bastante interessante neste verso 21, resume-se ao tipo de argumentação do apóstolo ao chamar a atenção daqueles que desejam viver sob o jugo da lei. E quando o apóstolo remete este tipo de questão aos tais, ele estabelece uma relação entre o que se ouve e o que está escrito sob forma de registro na escritura: "Não ouvia a Lei?"_ "Pois está escrito." A sequência narrativa então reproduz a saga do patriarca Abraão e a duas mulheres que lhe deram filhos. Entretanto, com o agravante de que uma é escrava e a outra é livre.

A aparente relação conjugal do patriarca não apenas serve para ilustrar os dois tipos de aliança de que se vale o apóstolo para falar dos desdobramentos dos respectivos nascimentos. E de que o filho da escrava é nascido segundo a carne e o filho da livre é nascido segundo a promessa. Ele também esclarece que são duas alegorias. Por onde encaminha sua narrativa e o desenvolvimento da mesma tendo por base os desdobramentos históricos e o que eles representam em termos de escatologia para toda a tradição cristã.

Todavia, o ponto focal e fundamental aqui abordado passa com certo grau de imperceptibilidade. Já que, o que está em jogo aqui é o tipo de hermenêutica utilizada por Paulo que visa dar sentido a tudo que os Gálatas tinham aprendido quando foram evangelizados por ele. De uma maneira célere e sintética o que o apóstolo usa como recurso para advertir aos Gálatas é o mesmo recurso utilizado por ele ao se referir em uma outra situação a cerca de Lei e sua respectiva hermenêutica inaugurada com o evento de Cristo. Quando a mesma é iluminada pelo Espirito de Deus: "A letra mata, mas o Espírito vivifica." (II Coríntios 3:4-5).

É esta liberdade alcançada, dinamizada e impulsionada pela ação do Espírito que nos transforma em ousados na hora de analisar e interpretar o texto da escritura. Foi dentro desta lógica que Paulo desenvolve sua hermenêutica, ao mesmo tempo que é capaz de elencar que aliada a esta hermenêutica responsável está o backgroud de sua perspectiva histórica no auxílio dessa leitura. Entre Ágar e Sara pode se estabelecer, não querendo parafrasear um grande filósofo, a dialética da senhora e da escrava. E de posse desse conhecimento da escritura, o apóstolo propõe uma enquete em que os Gálatas são levados a escolher de quem eles preferem ser filhos, da escrava ou da mulher livre.

Paulo ao puxar pela memória da tradição dos patriarcas e ao relacionar o dilema ou querela entre a serva e a livre. Agora, e em tom categórico afirma aos Gálatas que eles são os filhos da promessa, tal como Isaque. E assim como o filho segundo a carne perseguia o filho da promessa que é segundo o Espírito. Assim é a situação agora em que os Gálatas se vêem envolvidos. E novamente apelando para o que a escritura diz. Pois o filho da escrava juntamente com a mãe são despedidos e lançados fora. Assim também está determinado que em hipótese alguma o filho da escrava herdará o lugar do filho da livre.

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Leitura do capítulo 5 da Epístola de Paulo aos Gálatas.


Para aprendermos e entendermos o conceito de liberdade em Paulo que é o tema fundamental deste capítulo 5. É fundamental que se tenha lido o capítulo anterior. Primeiramente pelo fato de que ao sermos alcançados pela graça de Cristo alcançamos a liberdade, porém não necessariamente por uma escolha que fosse nossa e sim porque assim aprouve o agir de Deus em nosso favor por meio de Cristo.

Eu não possuía antes de ser alcançado por Cristo uma prerrogativa de escolha que me fosse segura. Mas, pela revelação de Cristo em seu evangelho, hoje eu possuo uma mente esclarecida. Neste sentido, e apenas neste sentido, há uma concordância de minha parte quando os calvinistas falam de uma depravação total que interfere em toda minha vida e por extensão aos meus juízos de valores. Os quais me impediam, antes de conhecer a Cristo, de fazer qualquer tipo de escolha que estivesse imune ao pecado.

Paulo então conclama aos Gálatas para que estejam firmes na liberdade com que Cristo os havia libertado. A condição de livres alcançada pelos Gálatas apenas acontece após terem conhecido Cristo. Se eles agora possuíam o poder da escolha, esta condição foi adquirida pela experiência do evangelho de Cristo que lhes foi pregado. O apóstolo então apela para essa prerrogativa agora adquirida no sentido de que eles se mantenham firmes na condição de livres e não mais aceitem se colocar sob o jugo da servidão.

Aceitar o jugo da servidão naquele momento por parte dos Gálatas e conforme a palavra do apóstolo, era o mesmo que aceitar ser circuncidado. O apelo do apóstolo faz referência, caso eles aceitassem sobre si a circuncisão. E alertava que se as coisas se dessem dessa maneira Cristo para nada serviria. Receber o jugo da lei pela circuncisão era o mesmo que anular a graça de Cristo. Pois quem se deixa circuncidar está obrigado a guardar toda a lei.

O apóstolo faz alusão a fraternidade ou comunidade do Espírito por onde se constrói a fé e por meio da qual se conserva e preserva a esperança da justificação. Em Jesus nem circuncisão nem incircuncisão têm qualquer valor. E sim a fé que opera pelo amor.

Mas, ainda assim, o apóstolo continua intrigado e sem saber quem poderia ter objetivado colocar esses entraves no sentido de que os Gálatas viessem a descumprir e desobedecer a verdade. Ele então está a procura de respostas. Porém, de uma coisa ele tem certeza conforme registra no verso 8. Esse tipo de persuasão veio de fora, já que não veio "Daquele que vos chamou."

A desconfiança do apóstolo é de que existe alguém acrescentando algum fermento à massa e este fermento é muito estranho. O fermento faz a massa levedar, crescer, inchar. E além de não se ter a identidade de quem anda acrescentando este fermento, a forma e a maneira como a massa crescia se tornou desproporcional.

O apóstolo revela sua preocupação com o tipo de sentimento que os Galatas possam ter desenvolvido a partir desse fermento aplicado. E mais uma vez e sem ainda saber da identidade de quem faz tal coisa. Ele pondera em tom de juízo que aquele que provoca inquietação entre os Gálatas seja ele quem for, sofrerá as consequências de um juizo de condenação.

Para Paulo não há qualquer lógica se ele prega a circuncisão e ser perseguido. E se ele faz isso o escândalo da cruz é aniquilado. Ele prefere ver aqueles que têm provocado inquietações entre os Gálatas cortados, expurgados do meio deles. A liberdade em Cristo é um bem precioso e não deve ser usado para dar ocasião aos desejos da carne. Pelo contrário, o mandamento de serviço no meio deles deve ser mútuo. Servir uns aos outros em amor.

Quando o apóstolo afirma que toda a Lei se cumpre numa só palavra. Muito embora esta palavra esteja omitida neste verso 14: "Amor." Com toda a objetividade e praticidade que é o que se pede no verso e que se o contexto de igreja e a realidade exposta na especificidade da igreja dos Gálatas revela o tipo de inquietação provocada por distúrbios e desavenças de tal forma que os crentes já não mais se entendem. E buscam se moder e devorar-se mutuamente. Na ótica do apóstolo não dá pra falar de amor a Deus de todo o coração sem a prática efetiva do amor ao próximo. Segundo a nota de roda pé "z" do capítulo 5:14, da Bíblia de Jerusalém, para Paulo o segundo mandamento inclui o primeiro.

A recomendação é andar conforme o Espírito buscando não satisfazer as obras da carne. Tanto a carne quanto o espírito, segundo o próprio apóstolo, possuem aspirações contrárias e jamais vão se entender. Eles se opõem mutuamente. E se eles derem algum tipo de abertura a carne depois de terem conhecido a Cristo. Acontecerá aquilo que Paulo revela ser sua grande preocupação. Aqueles crentes não mais terão controle sobre si. Ou seja, escravizarão suas próprias vontades.

A alternativa para não se retornar ao estado de dependência e subjugação da vontade que acontecia antes de se conhecer a Cristo, é o que Paulo aponta como recomendação imperativa. Tal como está no verso 16 que é de se andar no Espírito. É o antídoto para não ceder e satisfazer as obras da carne. E se somos guiados pelo Espírito não estamos sob o jugo da Lei. Em seguida o apóstolo estabelece como elemento de distinção entre um quadro bastante pedagógico e elucidativo em que mostra as características de quem anda pela carne e de quem anda pelo Espírito. E tal como o próprio Cristo certa vez nos ensinou ao trazer a nisso conhecimento a metáfora da árvore boa e da árvore má. E nos ensinou, pelos seus frutos nós as reconheceríamos(Mateus 7:20).

Então o apóstolo conclui que se vivemos no Espírito devemos andar no Espírito. Em outras palavras, não se desvincula uma coisa da outra. As relações pessoais de irmão para irmão devem ser abertas e transparente. Sem qualquer tipo de provocação e sem invejas entre si. Ou seja, todos devem buscar o bem comum e a fraternidade que é resultado do amor incondicional a Deus e ao próximo.

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Leitura do capítulo 6 da Epístola de Paulo aos Gálatas.


     Neste último e derradeiro capítulo desta epístola, o apóstolo encaminha algumas possíveis situações que poderão acontecer no seio desta congregação e que demandará o exercício e prática de quem, em Cristo Jesus e pela experiência da igreja, possui um espírito comunitário. Em caso de algum tipo de ofensa por parte de alguns de seus integrantes, a recomendação é de que aquele que se sentiu ofendido seja encaminhado e tratado com espírito de mansidão. No bom português, as coisas devem ser de tal forma acomodada pelos que são espirituais, ou andam segundo o conselho de Paulo no capítulo anterior, no Espírito. Para que esse tipo de querela ou desavença não se torne uma prática recorrente e ao alcance de todos.

     Eles também são admoestados a levarem as cargas uns dos outros pois isto faz com que a igreja em sua totalidade se coloque na condição de que todos estão numa mesma relação de igualdade e de submissão a ação do Espírito. De certa forma, esse tipo de recomendação Paulina tem como objetivo desfazer o laço que se tentou colocar sobre os Gálatas para que aderissem a circuncisão. E com isso se introduziria a noção de mérito nas obras. Era a forma mais danosa de se acabar com o espírito comunitário que somente aquele que está em Cristo possui a capacidade de exercitá-lo.

     Apenas e tão somente quando o crente é solidário e se prontifica a carregar a carga uns dos outros que o amor se revela e se cumpre o mandamento que vem com força de Lei. O crente quando está cheio de si e que cuida ser alguma coisa, terá a glória em si mesmo, e não em outro. E cada um acaba levando sua própria carga. E no verso 6 como coroamento de todas essas instruções, o apóstolo reforça o dom da partilha. Porém, de uma maneira satisfatória e que proporcione prazer e alegria. 

     As consequências de se adotar um rumo diferente daquele inspirado por Cristo e seu exemplo maior. E devido a condição de livres em que os Gálatas naquele momento se encontravam, era de que se entrassem e escolhesse andar nas obras da carne. Primeiro era de que Deus jamais se deixou escarnecer e de que seguindo aquela regra de uma justiça retributiva aquilo que o homem plantasse ele também colheria. Diferentemente do Espírito que se colhe a vida eterna. Aquele que semeia na carne colhe apenas corrupção.

     A prática do bem não deve ser algo enfadonho. E além de ser uma demanda com limite de tempo já que ao nos vermos diretamente envolvidos nesta prática o que menos deve importar é se haverá tempo hábil para que sejamos retribuídos. Então, o apóstolo conclui que enquanto tivermos tempo que façamos então bem a todos, porém, não por ordem de chegada, e sim privilegiando aos domésticos da fé. E por uma razão bastante lógica, pois é dessa maneira que se conserva e se constrói o espírito comunitário.

     A ação impositiva de alguns infiltrados na igreja de Gálatas e as tentativas de se impor a prática da circuncisão, revela apenas uma coisa a cerca do caráter destes: Querem aparentar algo que não são. Estes mesmos agem dessa maneira como se fosse um anteparo para se esconderem da Cruz de Cristo. Eles não guardam a Lei. Todavia querem impor a circuncisão como forma de se gloriarem na carne daqueles crentes de Gálatas. A marca física da circuncisão é como se fosse um troféu por suas conquistas.

     Novamente no verso 14, Paulo faz uso de seu testemunho pessoal para dizer que ele apenas se glória na Cruz de Cristo. Pois por ela tanto o mundo está crucificado para ele quanto ele para o mundo. E novamente ele faz uso dessa expressão tão significativa e emblemática para ele: "EM CRISTO Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm virtude alguma e sim a nova criatura que se alcança em Cristo Jesus.

     Paulo faz menção daqueles que andam por esta regra desejando paz e misericórdia sobre cada um deles e sobre todos aqueles que se juntam da mesma forma em outros lugares e regiões além da Galáxia, os quais chama de Israel de Deus. E que ninguém precisa perder tempo em querer inquietar ou perturbá-lo. Ele traz no corpo as marcas de Cristo. Já vi e li algumas interpretações sobre isto. Algumas afirmam que este trazer no corpo essas marcas é o resultado dos açoites e torturas pelas quais passou por causa do evangelho. Pode até ser, mas entendo que essas marcas têm relação com aquele jeito solidário do apóstolo para com o Cristo crucificado. E como ele mesmo afirmou que apenas se gloria na Cruz de Cristo, a rigor, e como contraponto às marcas deixadas no corpo pela circuncisão. A única marca que lhe interessa são as marcas da Cruz de Cristo.

     E como fechamento doxológico e planejado dessa epístola, ele abençoa esta igreja de uma maneira que destaca não apenas a liberação da graça sobre aqueles irmãos. Mas, que esta graça esteja sobre o espírito comunitário de cada um daqueles crentes que ainda tinham se deixado levar pelas falácias daqueles que intentavam impor a prática da circuncisão. Por isso, e, neste caso, o Amém é bastante enfático. Amém!!!

                               

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A Tensão entre Multiculturalismo Acadêmico e Teologia Evangélica Protestante.

1. O debate sobre inspiração O debate sobre a inspiração bíblica evidencia que a tensão entre multiculturalismo e teologia evangélica não é ...