Compreendes tu o que lês?

Texto - Atos 8:26-40


Tema - Compreendes tu o que lês?


Introdução 


Uma temática bastante sugestiva, tanto quanto desafiadora para o que me proponho nesta oportunidade trazer a nível de reflexão. Todavia, não a entendo e não me proponho desenvolvê-la desde uma abordagem acadêmica. Por uma simples razão, o que efetivamente me proponho fazer, sem um exacerbado esforço intelectual, é apenas e tão somente com base numa leitura bíblica e sem uma busca meticulosa nas infindáveis referências bibliográficas que versam especificamente acerca dela mesma. Assim, com determinante naturalidade e em concomitância com o texto bíblico que se credencia como base dessa exposição, e a partir do qual se pode depreender desde o primeiro versículo e do primeiro capítulo do livro de Atos. Sinalizo que é de fato pela percepção de abertura nesse espaço narrativo que os relatos ali encontrados nos dão conta de um cristianismo palestiniano, melhor dizendo, Hierosilimitano. Os acontecimentos relatados em Jerusalém, mais especificamente na igreja de Jerusalém. Que por si só já vinha dando sinais de que à medida que ela, igreja, ia crescendo, os problemas e dificuldades cresciam na mesma proporção. Já em seu prólogo, o autor cuja autoria é atribuída a Lucas. Explica a um certo Teófilo, a quem trata com tamanha deferência desde o evangelho que também leva seu nome (κράτιστε θεόφιλε). Na base e tronco narrativo desta obra, estão expostos em dois tomos: Atos/Lucas, todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar, até o dia em que foi elevado às alturas, não sem antes haver deixado mandamentos por meio do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera. O autor ainda lembra deste Jesus ter se apresentado vivo, mesmo depois de ter padecido. Segundo este mesmo autor, suas incontáveis aparições são incontestáveis. E perdurará por um espaço de 40 dias. Em todas elas o ressuscitado falava das coisas concernentes ao Reino de Deus. Passados esses 40 dias, o ressuscitado antes de ser elevado aos Céus, adverte a seus discípulos que não se ausentassem de Jerusalém. Quando inquirido sobre seu retorno, se nega a falar de algo que não era de sua competência, e afirma que apenas Deus, o Pai, é sabedor do tempo do fim. Uma de suas últimas orientações antes de ser elevado aos Céus era de que eles, os discípulos, receberiam a virtude, ou poder que desceria do alto, vindo do Espírito Santo. E apenas e tão somente desta maneira, eles poderiam ser suas testemunhas tanto em Jerusalém, quanto em toda Judéia, e Samaria e até aos confins da terra.

Essa primeira igreja cristã*, apesar de apresentar alguns traços que são característicos de universalidade, ainda é muito provinciana. Um pouco mais a frente veremos como esses traços distintivos vão gerar alguns choques e desencontros. Porém, nada que impeça a expansão do Evangelho por meio da pregação. E, vale ressaltar, pregação apostólica. Por ora, podemos perceber que ela tenta dentro de uma linha de padrão apostólico se reorganizar. Podemos constatar essa informação quando os apóstolos reunidos após terem voltado do Monte das Oliveiras e presenciado a ascensão de Jesus. Seus nomes são listados nesta reunião e o verso 14 do capítulo primeiro fala da entrega e perseverança em oração. O texto ainda informa que além dos Apóstolos estavam também Maria, mãe de Jesus, e com ela os irmãos dele. Muito embora a reflexão conduzida aqui não tenha por objetivo fazer uma análise detalhada dos doze integrantes do colégio apostólico, não resta dúvida de que existem algumas discrepâncias de nomes nas listas de composição de seus membros. Entretanto, elas não invalidam sua historicidade, mas evidenciam a riqueza cultural e a complexidade da tradição oral que originou os evangelhos. A diversidade de nomes e designações reforça a autenticidade dos relatos, já que reflete práticas linguísticas e contextos sociais da época. Uma análise mais detalhada, pode ser iniciada com base na comparação das passagens bíblicas diretamente. Essa busca aqui por esta lista, apenas nos interessou pelo fato de que há a existência de um homônimo tanto na lista de nomes do colégio apostólico quanto na lista daqueles varões escolhidos para serem diáconos. E o que nos leva a fazer uma distinção entre um e outro é o fato de que os apóstolos, dentre eles Filipe, não saíram de Jerusalém conforme Atos 8:1. Eles permaneceram em Jerusalém, apesar da forte perseguição. Neste caso, é até interessante o fato de que um dos Pais da Igreja tenha feito confusão por causa da homonímia entre o Filipe, apóstolo e o Filipe, diácono. A obra específica em que Eusébio de Cesareia cometeu tal confusão é a História Eclesiástica, principalmente no Livro III. Sua interpretação equivocada de fontes antigas levou à fusão de duas figuras distintas, mas análises modernas, baseadas no Novo Testamento e em evidências arqueológicas (como o túmulo do apóstolo em Hierápolis**), restabelecem a separação entre os dois Filipes.

Vocês devem estar se perguntando de porque se voltar para essa distinção de nomes. E o que essa distinção de nomes tem de relevante para a nossa reflexão? Primeiramente, é importante desfazer qualquer tipo de dúvida acerca da pessoa com quem estamos tratando a partir de sua identificação como diácono eleito em Atos 6:5. Isso já foi feito no parágrafo anterior. E creio que as dúvidas que poderiam pairar quanto a verdadeira identidade de nosso personagem foram sanadas. Tudo isto por conta da lista do colégio apostólico registrada em Atos1:13. Mas, seguindo em frente, e, já que após a ascensão de Jesus os apóstolos tiveram que se reorganizar. Para tanto, viram a necessidade de recompor o número inicial de sua formação (12). Eles assim o fazem, e já se experimentava entre eles a liderança  natural de Simão Pedro. É Pedro quem faz uso da palavra e sua hermenêutica para falar da necessidade de se escolher um novo membro para o grupo dos doze, tendo  como fundamento o registro no livro dos Salmos. Ele fala do cumprimento das escrituras, uma vez que o Espírito Santo por boca do Rei Davi, previu acerca do traidor de nosso Senhor. Tendo colocado a necessidade de se escolher um novo integrante para o grupo dos doze. Estabeleceram alguns requisitos dentre os quais a necessidade de se escolher alguém que os acompanhou durante  o tempo em que o Senhor Jesus andou entre eles. Começando a partir do batismo de João até o dia em que ascendeu aos Céus. E a necessidade era clara: Alguém que fosse testemunha da ressurreição de Jesus. O texto diz que eles lançaram sortes e o escolhido foi Matias. A partir de então, Matias passou a ser contado entre os doze. Adentramos ao capítulo 2. O elemento principal dessa temática que passará a influenciar diretamente a tudo o mais que diz respeito às narrativas deste Livro, será a manifestação poderosa do Espírito Santo, e a forma como ele desce soberanamente sobre todos os seus discípulos e não apenas sobre os apóstolos. O texto nos oferece informações  dando conta de uma presença maciça de pessoas de muitas partes do mundo até então conhecido. E a maravilha era de que essas pessoas estavam encantadas e atônitas ao ouvirem os discípulos falarem das maravilhas que Deus realizou na vida deles. Sendo que essas pessoas ouviam em suas próprias línguas(Atos 2:5-13). Pedro mais uma vez toma a iniciativa de falar em nome dos discípulos, alertando para o fato de que aquelas pessoas que visitavam Jerusalém, jamais poderiam imaginar que naquela hora do dia fosse possível aqueles discípulos estarem embriagados (Atos 2:15). Então toda Jerusalém foi capaz de ouvir a pregação de Pedro. Em conformidade com o texto, e para justificar o que aqueles visitantes de Jerusalém estavam presenciando. Ele fala do cumprimento de uma profecia registrada no livro do profeta Joel 2:28-32. Todo o discurso de Pedro teve como principal objetivo revelar que a concretização da promessa divina já era uma realidade. O apóstolo além de anunciar a boa nova faz referência a estes últimos dias como dia em que Deus também está trazendo seu povo a juízo. A multidão ouve atentamente a pregação do apóstolo e, compungida em seu coração, indaga ao apóstolo sobre como deveria agir. É quando se fala da necessidade de arrependimento e de crer para que possam ser batizados em nome de Jesus. Notemos uma coisa, nesta fala do apóstolo, a ênfase de um batismo em nome, ou no nome de Jesus, é bastante sintomática. Então, tal como diz o texto eles creram e foram batizados. E eram cerca de três mil pessoas.

Esses três mil e tantos outros convertidos viviam num estado de perfeita comunhão nesta novel igreja. Tudo quanto tinham, tinham em comum para com todos. A relação deles uns com os outros era de grande harmonia. Perseveravam unanimemente na doutrina e no ensinamento dos Apóstolos. E tinham como ponto de encontro a frequente ida ao Templo. O laço comunitário era tão forte que acabavam contando com a simpatia de todo povo. A figura do apóstolo Pedro era cada vez mais destacada entre o povo. E numa dessas idas ao Templo durante o período da oração da hora nona. Pedro e João são abordados por um homem coxo. Por ocasião desta situação, eles presenciam o apelo de um homem, que sendo trazido por outros ou por alguém passa a pedir esmola aos apóstolos. O pedinte quando os viu, implorava-lhes por uma esmola. Pedro então opera um milagre restituindo ao homem sua plena capacidade motora. Este milagre ocorreu na entrada da porta chamada Formosa. Com isto a fama do apóstolo como líder do grupo dos doze e um dos líderes da Igreja, crescia de forma exponencial. A medida que a igreja crescia numericamente, a popularidade dos Apóstolos, especialmente falando de Pedro, crescia também, mas a onda de perseguição também aumentava. O discurso de Pedro cada vez mais inflamado contagiava a multidão que o ouvia. O teor das palavras do apóstolo estavam sendo colocadas sempre no sentido de incentivar o Espírito comunitário da Igreja. 

É factível, assim como comprovável, a forma genial com que o discurso de Pedro se desenvolve alinhando uma hermenêutica de sustentação a partir do Antigo Testamento. Ele avoca para si e para João com quem estava no templo falando corajosamente aos israelitas, ao mesmo tempo que apela para a memória histórica que seu tem nos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó. É este Deus dos patriarcas que glorificou o seu servo Jesus. Evidentemente, se vislumbra nesta prédica, um tipo de hermenêutica etno social. A referência do apóstolo diz respeito à herança étnica de seu povo com forte relação na tradição dos patriarcas. E de forma imediata, desfaz em sua hermenêutica qualquer tipo de sinergia com uma leitura interpretativa que pudesse passar pelo controle de uma classe muito forte naquele momento, a classe sacerdotal. Foi a Jesus que este povo traiu incitado por estes clérigos e demais lideranças, entregando-o a Pilatos. A hermenêutica apostólica é inspirada pelo Espírito Santo, e está rigorosamente atrelada à pregação de Pedro. Reforça como parâmetro de fé neste momento não apenas a crença no nome de Cristo. Ela também chama a atenção ao fato de que com tamanha ignorância aquele povo(Israelita), que agora ouve este duro discurso, foi quem traiu o homem Jesus que foi morto e crucificado sob Pôncio Pilatos. Eles traíram aquele sobre quem estava predito pela própria escritura e testemunho dos profetas. De acordo com o verso 16 deste capítulo 3, foi pela fé no nome de Jesus que o milagre de fortalecimento das pernas daquele homem coxo aconteceu. Mais uma vez ele reforça que foi a fé que vem por meio do nome de Jesus que deu a este homem saúde perfeita na presença de todos. Ao final deste capítulo 3, o apóstolo conclui que tendo Deus ressuscitado o seu servo(Jesus). Enviou-o primeiramente a vós outros para vos abençoar no sentido de que cada um se aparte das suas perversidades. É evidente que tudo tem seu limite. Não tardou para que as autoridades religiosas agissem. Essas autoridades estão aqui devidamente identificadas: Os sacerdotes, o capitão do templo e os fariseus. Afinal de contas, eles ao ensinarem o que ensinavam no templo, causavam seríssimos constrangimentos a estes religiosos. Pedro e João ensinavam que a prova da ressurreição dos mortos era o próprio Jesus. Antes de serem presos e recolhidos ao cárcere, muitos ouviram aquela palavra a aceitaram. Aquele número de três mil que se convertera já chegava a quase cinco mil. Aquele povo que agora passava a crer em Jesus, provavelmente, boa parte deles estiveram nas ruas de Jerusalém por ocasião do Martírio de Jesus. Boa parte deles deve ter clamado no meio da multidão aquela célebre frase, quando Pilatos indagou a multidão: “Disse-lhes Pilatos: Que farei então de Jesus, chamado Cristo? Disseram-lhe todos: Σταυροθήτω_Seja crucificado.”(Mateus 27:22). No dia seguinte estavam reunidos em Jerusalém, as autoridades, os anciãos e os escribas. Além da presença do sumo sacerdote, Anás, e alguns membros de sua linhagem sacerdotal. Pedro e João então na presença dessas autoridades passam a ser questionados: “Com que poder e em nome de quem fizeram isto?” É novamente o apóstolo que toma da palavra para falar às autoridades do povo. Ele faz pelo poder que estava investido pelo Espírito Santo. Sua palavra segue a mesma linha do que vinha tratando antes em seu discurso. Ele continua falando do Martírio e da morte de Jesus. Seu discurso perante as autoridades têm os mesmos contornos de coragem e intrepidez ao anunciar o evangelho. O motivo por terem sido levados ao sinédrio foi a operação de um milagre na vida de um homem enfermo e porque ele foi curado. Era o que remetia a justificação de seu discurso sobre a fé em Jesus. Naquele momento também chamado Nazareno. Quando o apóstolo faz tal referência, ele também acusa aqueles que foram seus algozes. Pois afirma: “a quem vós crucificastes” (Atos 4:9-12).

Quando me encontrava naquela fase de transição entre a adolescência e a juventude, lembro-me de ter passado por minhas mãos um livrinho de um pastor norte americano que escrevera sob a temática do Espírito Santo. A certa altura do texto e de minha leitura, deparei-me com a seguinte afirmação quando comentava sobre o livro de Atos dos Apóstolos: “Não dá pra se dizer se são atos dos apóstolos ou atos do Espírito Santo(Passim)”. A realidade é que até aqui especificamente na leitura e condução dessa reflexão, no capítulo 4. E desde que houve aquela recomendação aos apóstolos para não saírem de Jerusalém até que recebessem a virtude, ou poder do Espírito Santo. O que se percebe em toda narrativa deste livro é uma investidura de poder com base em elementos argumentativos como os que Pedro desde o ‘pentecostes’ tem buscado tendo como base a própria história de seu povo, assim como a tradição e os profetas. Esse dado tem a sua relevância, até porque foi com base nesta investidura do Espírito divino que eles se lançaram e se entregaram ao cumprimento da ordem de Cristo pregando a palavra. Por outro lado, quando nos deparamos com a narrativa do capítulo 4. E a forma condicional que foi colocada a Pedro e João no sentido de  não mais pregarem sobre a ressurreição do Cristo. Há várias nuances que podem ser exploradas aqui. Primeiramente, o fato de que ao se falar de ressurreição apenas sem que ela estivesse relacionada com o Cristo, já trazia algum transtorno àqueles que administravam os negócios do templo. A classe sacerdotal não trabalhava com esse tipo de doutrina. Eles tinham como texto básico, enquanto escritura sagrada, apenas a Torá. Lembram do embate de Jesus com os saduceus e o tipo de indagação que propuseram a Jesus? (Mateus 22:23-33; Marcos 12:18-27; Lucas 20:27-40). Ainda há o consenso por parte dessas autoridades, de que sendo Pedro e João pescadores. Não pertenciam a qualquer daquelas escolas diretamente ligadas àqueles segmentos clássicos do judaísmo do segundo templo. No final, o que se questiona é o fato de não possuírem qualquer tipo de habilitação para ministrar ensinamentos acerca da palavra de Deus naquele lugar, o templo. Objetivamente, eles não teriam qualquer tipo de licença para o exercício dessa função no sentido de doutrinar o povo que para lá acorria em busca de um serviço de natureza espiritual e religiosa.

Mas, o que chama a atenção não é o tipo de censura que se tentou estabelecer de forma impositiva a Pedro e João. Foi sim a partir dessa tentativa de censura imposta aos apóstolos, e a reação corajosa e intrépida com que reagiram. O termo intrepidez é a tradução da palavra grega **Παρρησία** (transliterada como *parrhesia*), que significa "ousadia", "coragem" ou "liberdade de expressão", aparece **duas vezes** no livro de Atos dos Apóstolos, a primeira é em Atos 4:29  após a libertação de Pedro e João da prisão, os cristãos oraram pedindo a Deus que lhes concedesse **ousadia** para pregar a Palavra: "Agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a **ousadia** a tua palavra"* .  A segunda vez é em Atos 4:31. A oração foi respondida, e o local onde estavam reunidos tremeu, enchendo-os do Espírito Santo, o que resultou em pregação ousada: "Todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciavam a palavra de Deus com ousadia". Embora o termo possa aparecer em outras passagens do Novo Testamento, nos resultados fornecidos, apenas essas duas ocorrências em Atos são destacadas. A Παρρησία é um conceito-chave no livro, refletindo a coragem dos apóstolos em testemunhar sobre Cristo mesmo sob perseguição.

Fizemos menção no segundo parágrafo deste texto ao fato de que a igreja de Jerusalém embora apresentasse alguns traços de universalidade ainda era muito provinciana. Mas, é fato que ela já começa a se destacar como uma comunidade bastante numerosa por experimentar esse crescimento numérico avassalador. Evidentemente que os problemas e dificuldades de ordem interna haverão de ficar cada vez mais patente aos olhos tanto dos dentro quanto dos de fora. O poder dos Apóstolos acaba por se consolidar dado ao testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. Segundo Atos 4:33, em todos os apóstolos havia abundante graça. Há um texto de Karl Barth, onde ele fala da relação existente entre a comunidade cristã (igreja) e da comunidade civil (estado), ele menciona o fato de que ambas as comunidades ocupam espaços. Especialmente ao falar sobre a comunidade religiosa(igreja), Barth a define como uma: “Entidade a congregar aquelas pessoas de um lugar, de uma região, de um país, que estão especialmente convocadas dentre as demais como ‘cristãos’ e como tais reunidas pelo reconhecimento de Jesus Cristo e no intuito de professá-lo. A causa, o sentido e a finalidade dessa reunião (ECCLESÍA) é a vida comum dessas pessoas em um Espírito Santo, isto é, na obediência àquela uma palavra de Deus em Jesus Cristo que todas elas já ouviram e que todas novamente desejam e precisam ouvir e para cuja transmissão todas estão congregadas”¹ Está claro que para todo e qualquer momento da vida dessa comunidade emergente de Jerusalém, os apóstolos eram sua referência e parâmetro. Isto envolvia tanto o ministério da palavra quanto a administração e partilha dos benefícios sociais. Estamos caminhando para o término do capítulo 4. E já vislumbramos na prática a maneira como os recursos adentram nesta comunidade. E não há muita diferença entre o que acontece neste ambiente palestiniano que não tenha acontecido em outros períodos subsequentes da história, e até nos nossos dias. A igreja sempre contou com o dom da liberalidade de seus membros. O exemplo de Barnabé nos dois últimos versos do capítulo 4:36-37 reforça este argumento.

Toda e qualquer comunidade atravessa aqui e ali alguma dificuldade. Este início de capítulo 5 mostra algum tipo de dificuldade pelo fato de que alguns de seus membros(Ananias e Safira). Melhor dizendo, de acordo com o que já falamos aqui, este casal apenas se inseriu como um de seus membros do ponto de vista de sua contagem numérica. Mas, no que diz respeito ao Espírito Santo, não devia haver nenhum tipo de engajamento comunitário por parte deles. Tanto que foram movidos por sentimento mesquinho e egoísta e, ao tomarem conhecimento da atitude de Barnabé que ao vender uma propriedade depositou o valor integral da mesma aos pés dos Apóstolos. Ananias e Safira também fizeram o mesmo ao vender uma propriedade. O que não fizeram foi depositar o valor integral da venda. A intervenção de Pedro se deu por uma censura e juízo no sentido de que ambos mentiram ao Espírito Santo e, por conta disso, pagaram com suas vidas. Este ajuizamento do apóstolo Pedro é mais forte e poderoso do que qualquer nota de censura que alguém no interior de uma comunidade qualquer possa sofrer. Mentir para a comunidade e, em especial para os apóstolos é na realidade mentir para o próprio Espírito Divino. Ao afirmar para Ananias que foi satanás quem encheu o seu coração (Atos 5:3) não o isenta de culpa pela falta. Participar da comunidade cristã, igreja, tem suas consequências até hoje. Para a época  e momento sócio-cultural e religioso em que se encontrava a Palestina, poderia ser o fato de que o marido como chefe e patriarca da família, Ananias, pudesse ser responsabilizado unicamente por esta falta grave. Todavia, a forma como resolvem dispor do bem relativo a propriedade e depositar o pseudo valor integral da propriedade, demonstra que foi uma atitude combinada. Tanto que, não foi enquanto casal que eles trazem a oferta e sim separadamente. Nas palavras de Pedro a Safira, o questionamento é sobre a forma como combinaram colocar a prova o Espírito do Senhor(Atos 5:9). Safira então ouve o juízo do apóstolo do que lhe sobrevirá e cai morta instantaneamente. Toda a comunidade é acometida de assombro e de temor. O capítulo 5 ainda complementa que muitos outros sinais e feitos extraordinários que eram realizados por meio dos Apóstolos, os quais tinham como ponto de encontro o pórtico de Salomão***.

Foi tamanha a comoção social por causa dos milagres e maravilhas que se operavam por meio dos Apóstolos aliada a forte tendência de grande crescimento das massas em adesão a pregação Apostólica, por se tratar não apenas da morte de um justo(Jesus), bem como de sua ressurreição, que acabou gerando não apenas o desconforto por parte das autoridades religiosas, assim como o sentimento de inveja do Sumo Sacerdote e seus seguidores. A consequência foi a prisão dos Apóstolos que imediatamente foram recolhidos à prisão pública. O que não se esperava era o milagre ocorrido no cárcere por ocasião desta prisão. Um anjo enviado do Senhor que a certa altura da noite abre as portas do cárcere conduzindo os apóstolos para fora. Após isto, recomenda-lhes a se apresentarem no templo para dizer ao povo todas as palavras desta vida. Não sei se todos conseguem entender neste episódio de prisão e depois de soltura dos Apóstolos, um viés de ação da parte do Senhor que não reconhece a autoridade e investidura desses religiosos. Ao romper do dia, lá estavam adentrando ao templo para ensinar. E, simultaneamente, a reunião que foi convocada pelo sumo sacerdote com a participação do sinédrio e todo senado dos filhos de Israel, tinha como objetivo promover algum tipo de censura pública aos apóstolos. Todavia, qual não foi a surpresa quando mandaram buscar no cárcere os apóstolos. Simplesmente, as portas estavam fechadas, porém sem qualquer dos Apóstolos que ali foram encarcerados. A mensagem que este milagre passa é que aliada a intrepidez dos servos de Deus pela ação do Espírito Santo, está a mão forte e soberana do Senhor. Não há qualquer tipo de impedimento que possa alterar o ritmo de expansão do Evangelho pregado do ponto de vista da tradição apostólica. Ao mesmo tempo que ao capitão do templo fora revelado que o cárcere onde encerrara os apóstolos estava vazio, também se chegou a notícia de que os apóstolos estavam no templo ensinando o povo. Foram trazidos, agora sem violência,  do templo para o sinédrio e o sumo sacerdote interrogou-os. O argumento do sumo sacerdote era de que os apóstolos estavam descumprindo sua determinação de não ensinar sobre este nome. Ainda afirma que eles encheram Jerusalém com esta doutrina, e ainda queriam lançar sobre essas autoridades, inclusive o sumo sacerdote, o sangue deste homem. Contudo, em Mateus 27:25, a multidão manipulada por estas mesmas autoridades, se manifestou dizendo: “Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos!”. Mais uma vez, é Pedro quem se levanta para fazer uso da palavra, em nome dos demais apóstolos e afirma: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens”. E, com extrema autoridade, afirma em tom acusatório dizendo que o Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus a quem vós matastes, pendurando-o num madeiro(Atos 5:30). A palavra de juízo trazida pelos apóstolosa se reveste de tom acusatório contra as autoridades religiosas de terem matado o filho de Deus. Nem por isso, os apóstolos que foram açoitados com extrema violência se omitiram. Fizeram o que é peculiar e próprio daqueles que são movidos e conduzidos pelo Espírito Santo, tal barbárie não foi capaz de ofuscar ou impedir que os planos e a vontade de Deus se realizassem. Tal como afirma o verso 31 deste capítulo 5, Deus com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, com o objetivo de conceder a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. Foi para este objetivo que Deus nos constituiu como testemunhas destes fatos. Assim como também outorgou o Espírito Santo aos que lhe obedecem(Atos 5:32).

A intrepidez e ousadia dos Apóstolos, fez com que as autoridades religiosas enchessem ainda mais seus corações de ira. A ponto de manifestar o desejo de silenciar os apóstolos dando cabo de suas vidas. Porém, são momentos tenebrosos e sombrios como estes, que sempre surge alguém com tamanha temperança e equilíbrio para acalmar os ânimos. Neste caso, foi quando surgiu a figura de um homem chamado Gamaliel. De acordo com o texto, mestre da Lei, acatado por todo o povo. Gamaliel é o mesmo mencionado por Paulo como seu mestre. É uma identificação respaldada pelo contexto bíblico e histórico passível de ser amplamente detalhada por registros da própria escritura. A partir de uma Identificação Bíblica Direta. Paulo, em Atos 22:3, declara: “Fui educado rigorosamente na Lei de nossos antepassados, aos pés de Gamaliel". E no capítulo 5 deste livro de Atos que tem sido objeto de nossa leitura e investigação, Gamaliel é descrito do verso 34-39 como um fariseu respeitado, membro do Sinédrio e doutor da lei, que interveio para evitar a execução dos apóstolos. A conexão entre os dois textos é clara, já que ambos se referem ao mesmo indivíduo histórico, destacando sua influência como mestre. A palavra de um homem sábio, mesmo porque sendo um doutor da Lei, e conhecedor da história de seu povo e a relação deste povo para com Deus. Sua palavra no sentido de que se aquela obra fosse de Deus aquelas autoridades jamais poderiam destruí-la. Para tanto, a capacidade para identificar uma obra como sendo de Deus ou não, é suficiente, apenas e tão somente, depois de um certo tempo: “Somente o tempo dirá”. Muito embora aqueles homens aceitassem o sábio conselho de Gamaliel,  ainda assim, os apóstolos foram punidos com açoites e mais uma vez, as autoridades religiosas, usando de argumentos coercitivos, proibiram os apóstolos de falarem em nome de Jesus. Todavia, a forma coercitiva e proibitiva daquelas autoridades não foi capaz de calar aqueles homens movidos pelo Espírito divino. O verso 42 fala que todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo. 

A igreja apesar da perseguição feroz que se desenhava no horizonte, melhor dizendo, a seita ou seguidores do nazareno, jamais interrompeu seu fluxo de crescimento. Por outro lado, e como já disse antes, ela trazia consigo traços marcantes de ser uma igreja, naquele momento apenas um segmento faccioso no interior do judaísmo hierosilimitano, mais especificamente junto ao Templo de Jerusalém, porém com tracos provincianos. Até mesmo na hora de solucionar seus problemas internos a grande maioria dos seus integrantes , ou dos membros, ainda estava reduzida a uma  dinâmica do Evangelho e do Reino de Deus bastante simplória. Percebo que a visão de mundo que os encerrava já não era capaz de acompanhar as mudanças e reviravoltas que se avizinhavam de todos os lados. Esse cristianismo palestiniano e hierosilimitano, ainda muito influenciado pelo judaísmo. Eles ainda frequentavam o templo e cumpriam com os horários de funcionamento litúrgico do templo. Por conseguinte, apesar de já terem tido a experiência genuína de conversão por meio do Espírito Santo, faltava-lhes, por exemplo, uma visão dimensionada pela geopolítica, já introduzida no horizonte e espectro da real dominação e subjugação por que passava pela presença do império romano. Quando adentramos o capítulo 6, percebemos que alguma coisa não funciona no seio desta comunidade religiosa. Ouviu-se uma grande murmuração. Esse murmúrio brotava no seio da igreja. Embora não haja uma ligação direta entre a invasão selêucida do século II a.C. e o incidente em Atos 6:1, a memória histórica da helenização forçada e suas divisões culturais influenciaram as dinâmicas sociais e religiosas na Judeia romana. A tensão entre helenistas e tradicionalistas no cristianismo primitivo pode ser interpretada como um eco das lutas identitárias desencadeadas pelo domínio selêucida, agora ressignificadas em um novo contexto comunitário. Esse contexto comunitário que, de certa forma, era resultado de outras tensões que remontavam a uma resistência, do ponto de vista de uma visão bem mais tradicional e fechada daqueles judeus mais conservadores. A Septuaginta simboliza tanto uma adaptação pragmática quanto uma resistência cultural. Ao traduzir as Escrituras para o grego, os judeus alexandrinos não rejeitaram totalmente o helenismo, mas o reinterpretam para servir à sua fé. A posterior rejeição judaica à LXX reflete menos uma oposição ao helenismo em si e mais uma reação ao seu uso pelo cristianismo, que apropriou-se da tradução para fundamentar suas doutrinas .  Em síntese, a Septuaginta é um exemplo de como uma comunidade minoritária pode usar os instrumentos culturais dominantes para preservar sua identidade, mesmo que isso gere tensões internas e externas.

Quanto ao relato de Atos 6:1, Há evidência de discriminação neste relato bíblico. O termo "helenistas” (Ἑλληνιστής) carregava conotações de inferioridade, indicando judeus assimilados à cultura grega, em contraste com os "hebreus" (Ἑβραίοι), termo que denotava identidade tradicional. O termo "murmuração" (γογγυσμός) implica uma queixa coletiva contra injustiça sistêmica. A insatisfação não era sobre recursos escassos, mas sobre equidade na distribuição. A resposta dos apóstolos com a nomeação de sete diáconos helenistas (como Estêvão e Filipe, com nomes gregos) para supervisionar a distribuição indica que o problema era tanto organizacional quanto cultural. A escolha de membros da minoria discriminada visava restaurar a confiança. Atos 6:1 não apenas descreve um conflito logístico, mas expõe preconceitos enraizados entre grupos étnico-culturais. A resposta dos apóstolos, porém, transformou a crise em uma oportunidade para fortalecer a unidade e a justiça, princípios essenciais para qualquer comunidade que busca refletir o amor de Cristo. Esse episódio permanece relevante como um alerta contra a discriminação e um modelo de resolução de conflitos baseado na sabedoria divina. De acordo com o contexto histórico e cultural apresentado nos resultados de levantamentos, todos os sete homens listados em Atos 6:5 possuíam nomes de origem grega. Isso inclui Estêvão, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timom, Pármenas e Nicolau. "Estêvão" (Stephanos), "Filipe" (Philippos), "Prócoro" (Prochoros), entre outros. Nicolau, por exemplo, era um prosélito (gentio convertido ao judaísmo) de Antioquia, mas seu nome também é grego. A escolha de homens com nomes gregos sugere que eram “helenistas”, ou seja, judeus de língua grega da diáspora, em contraste com os "hebreus" (judeus palestinos de língua aramaica). Isso foi estratégico para resolver a queixa dos helenistas a cerca do tratamento dado às suas viúvas, que se sentiam negligenciadas na distribuição de alimentos. A seleção de helenistas demonstrou sensibilidade cultural e evitou acusações de parcialidade. Além disso, alguns deles, como Estêvão e Filipe, posteriormente se destacaram por seu ministério ativo, incluindo pregação e realização de milagres. Embora Nicolau fosse um prosélito (não judeu de nascimento), seu nome grego indica que ele estava integrado à cultura helenística, reforçando a uniformidade da lista. A lista em Atos 6:5 reflete uma solução prática para um conflito interno na igreja primitiva, priorizando a equidade e a representação cultural. A origem grega dos nomes não era mera coincidência, mas uma resposta intencional às tensões entre grupos linguísticos. Dentre estes sete nomes dessa lista de diáconos, encontramos dois deles que se destacaram por um ministério profícuo tanto na evangelização quanto na realização de prodígios. 

Comecemos falando então de Estêvão (Στέφανος). O capítulo 6 verso 8 fala de Estêvão como um homem cheio de graça e poder. Também operava prodígios e grandes sinais entre o povo. O verso 9 nos dá conta de como ele era poderoso em seus discursos e na maneira como argumentava com aqueles que o questionavam. E não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito, pelo qual ele falava. Os que debatiam com Estêvão eram membros de grupos judaicos helenistas (de cultura grega) que frequentavam sinagogas específicas em Jerusalém. Esses grupos representavam diferentes origens geográficas e contextos sociais, e sua oposição a Estêvão refletia tensões culturais e religiosas na igreja primitiva. Uma análise tipicamente simplória porém, detalhada, nos informa que, por exemplo, a Sinagoga dos Libertinos (Libertos). Eram judeus ou descendentes de judeus que haviam sido escravizados pelos romanos (especialmente após a conquista de Jerusalém por Pompeu em 63 a.C.) e posteriormente libertos. Muitos retornaram a Jerusalém e formaram uma comunidade distinta, mantendo uma sinagoga própria. O termo "Libertinos" (do latim *libertini*) indica sua condição de libertos ou filhos de libertos. Cireneus e Alexandrinos: “Cireneus”, judeus originários de “Cirene”, cidade no norte da África (atual Líbia), conhecida por sua população judaica significativa. Um exemplo bíblico é Simão de Cirene, que carregou a cruz de Jesus (Lucas 23:26). ”Alexandrinos”: Judeus de Alexandria, no Egito, centro cultural helenístico onde a Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento) foi produzida. Eram influenciados pela filosofia grega e tinham uma visão mais ampla das Escrituras. Judeus da Cilícia e da Ásia. “Cilícia”: Província romana na Ásia Menor (atual Turquia), cuja capital era Tarso, terra natal de Saulo (o futuro apóstolo Paulo). É provável que Saulo tenha participado desses debates, já que frequentava a sinagoga da Cilícia. “Ásia: Refere-se à província romana da Ásia Menor, que incluía cidades como Éfeso. Esses judeus eram parte da diáspora e mantinham práticas religiosas adaptadas ao contexto helenístico. O Contexto do Conflito é realmente desafiador.  Estêvão, um dos sete diáconos escolhidos para servir à comunidade helenista (Atos 6:5), pregava com autoridade e realizava milagres, o que atraiu a atenção desses grupos. A discussão centrou-se em temas como: A validade do templo e da lei mosaica após a ressurreição de Jesus. A acusação de que Estêvão blasfemava contra Moisés e defendia que Jesus "destruiria o templo" (uma distorção de João 2:19-21). Seus opositores, incapazes de refutá-lo intelectualmente, recorreram a falsas testemunhas para acusá-lo perante o Sinédrio. O Significado Histórico e Teológico, revela a turbulenta polaridade existente entre - Helenistas vs. Hebreus. A tensão entre judeus helenistas (de língua grega) e hebreus (de língua aramaica) já era evidente na igreja primitiva (Atos 6:1). Estêvão, como helenista, desafiava tradições judaicas rigidamente ligadas ao templo, o que gerou resistência para a expansão do Cristianismo, digo, dos ensinamentos deixados pelo Cristo em ambientes ligados ao judaísmo, tais como as sinagogas e, porque não também o templo. O martírio de Estêvão catalisou a dispersão dos cristãos de Jerusalém, espalhando o evangelho para outras regiões (Atos 8:1-4). Os debatedores de Estêvão representavam judeus helenistas da diáspora, organizados em sinagogas por origem geográfica ou social. Sua oposição refletia não apenas divergências teológicas, mas também conflitos culturais e o temor de que a mensagem e os ensinamentos do Nazareno minasse as estruturas religiosas tradicionais. A história ilustra como a fé a partir do testemunhos e dos ensinamentos do Nazarenos. A qual posteriormente, ficaria conhecida como fé cristã, confrontou e transcendeu barreiras culturais desde seus primórdios.

O capítulo 7, tem seu início com a sequência do discurso de Estêvão perante o Sinédrio. É também a forma como encaminha a sua defesa. O texto faz referência de como este diácono era eloquente em suas palavras. Seu discurso começa com a saga dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó. E de como a partir de Abraão rumam em direção a terra prometida por Deus, Canaã. O que chama a atenção em toda a retórica desenvolvida por Estêvão é que ele mantém o seu discurso preso apenas e tão somente na saga dos patriarcas. E de como desde os patriarcas, os relatos marcam a forma como cada um deles construíram seus relacionamentos para com Deus. Mas, em momento algum, ele faz menção de uma classe ou casta religiosa. Algo de muito instrutivo pode ser extraído da dinâmica redacional deste texto, em especial, do discurso de Estêvão. Motivo pelo qual, as autoridades religiosas promovem a perseguição e censura aos Apóstolos patrocinadas pelos oficiais do templo e liderados pelo sumo sacerdote. Neste tempo, representado pelo mais aristocrata dos grupos religiosos da Palestina do primeiro século, o saduceus. Já fizemos menção deles neste texto. O que ainda não fizemos foi relacionar a relação deste grupo com uma linhagem sacerdotal ligada a Sadok(Zadoque), sumo sacerdote nos tempos de Davi e Salomão. A ligação entre Sadoc (Zadoque). Os saduceus são frequentemente associados à linhagem sacerdotal de “Sadoc”, mencionado em passagens como 2 Samuel 8:17 e 1 Reis 1:35. Sadoc foi um sumo sacerdote leal a Davi e Salomão, e seus descendentes mantiveram o sacerdócio por séculos. Acredita-se que o nome "saduceus" venha de “bnê Sadôq” ("filhos de Sadoc"), indicando uma reivindicação de autoridade sacerdotal legítima. Todavia, há muita controvérsia nesta associação. Há algo de muito importante nesta hermenêutica e narrativa encontrada no discurso de Estêvão, além do que consegue estabelecer uma relação dos fatos narrados e encontrados no Antigo Testamento com a incredulidade que sempre lhes fora peculiar, ao chamar este povo de homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, e que sempre resistiram ao Espírito Santo. Esse tipo de incredulidade era próprio dos antepassados deste povo e que seus representantes conseguem repetir os mesmos erros cometidos no passado. Em sua análise comparativa entre a incredulidade do povo no passado e a desse tempo. Estêvão afirma que a perseguição desses antepassados aos profetas, matando aqueles que anunciavam a vinda do justo. Este justo(Jesus) do qual essas autoridades religiosas se constituíram traidores e assassinos em seu tempo. A cristologia dos discursos de Estêvão se encontra bem atrelada ao caráter hermenêutico do Antigo Testamento. Ele ainda fala de uma lei recebida de ministério de anjos e que não guardaram. É curioso que apesar de haver um arranjo narrativo nos momentos finais do capítulo 7 e início do capítulo 8, onde encontramos o início de apedrejamento de Estêvão, desde o momento que lançam mão dele, levando-o para fora da cidade. Estêvão, como uma de suas últimas palavras, ora a Deus pedindo que não lhes imputassem aquele pecado. Há um arranjo que visa do ponto de vista redacional estabelecer uma relação entre seu martírio e a vida e autoridade de um certo jovem chamado Sh'aul, Saulo, Psaulo, Paulo. No desenvolvimento deste capítulo 8, em seu início, o que se pode vislumbrar após o martírio de Estêvão é uma fase de grande perseguição imposta pelas autoridades religiosas de Jerusalém. O texto começa dizendo que com essa grande perseguição todos, exceto os apóstolos, se dispersaram pelas regiões da Judeia e Samaria. Após o sepultamento de Estêvão houve grande pranto e lamento tanto pela sua perda quanto por tudo que a igreja vinha passando. O verso 3 então, começa dando nome a alguém que assolava a igreja. E que ao longo das narrativas subsequentes haverá de ocupar espaço e projeção nas narrativas do Livro de Atos. Este homem se chamava Saulo. Pois entrava pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, os encerrava no cárcere. Curiosamente, é com a perseguição que se tem o início  do processo de evangelização da Igreja. A medida que se dispersaram pela Judeia e Samaria, também pregavam o evangelho.

Após a morte do diácono Estêvão, um outro diácono começa a ganhar algum tipo de projeção por causa da pregação do evangelho. Este diácono é Filipe. O texto a partir do verso 5 do capítulo 8, relata que ele desceu a cidade de Samaria, e lá anunciava a Cristo. As multidões lhe atendiam, unânimes nas coisas que Filipe dizia, ouvindo-as e vendo os sinais que ele operava. Os espíritos imundos eram expulsos de muitos possessos saíam gritando em alta voz; assim como muitos paralíticos e coxos foram curados. E havia, por conta dessas maravilhas operadas, grande alegria naquela cidade. É quando, em meio aos sinais e maravilhas operadas pelo Espírito Santo na vida de Filipe, que vai aparecer a figura de Simão. O texto fala dessa figura como um mágico ou ilusionista. E que já se encontrava em Samaria há muito tempo. Era tudo pelos habitantes daquela cidade como forte e até mesmo cheio do poder de Deus. Porém, Samaria experimentou realmente o poder de Deus. É foi pela pregação do diácono Filipe. Filipe simplesmente os evangelizava a respeito do Reino de Deus e de Jesus Cristo. Dessa maneira, homens e mulheres ao aderirem a fé uma sendo batizados. O verso 13 que o próprio Simão aderiu a fé pela pregação do diácono Filipe. Desde então o acompanhava de perto, observando extasiado os sinais e grandes milagres que eram operados. Está notícia alvissareira chegou ao conhecimento dos Apóstolos e, despertou por isso mesmo grande curiosidade. Em parte, esse tipo de curiosidade por parte dos Apóstolos se justifica pela relação que os judeus até então tinham para com os Samaritanos. Não precisamos lembrar em que contexto a parábola do Bom Samaritano é contada por Jesus(Lucas 10:30-37), muito menos lembrar da passagem em que Jesus se encontra com a mulher Samaritana(João 4:4-28). É fato que existia uma grande chaga do ponto de vista de relacionamento entre judeus e samaritanos. E uma vez que Samaria estava recebendo de bom grado e aderindo a pregação do evangelho por meio do diácono Filipe, essa curiosidade foi despertada pelos apóstolos que para lá enviaram Pedro e João. Tendo chegado lá, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo. E aqui nos temos que ter um cuidado extremo na hora de ler, interpretar e ensinar a palavra de Deus. Vocês lembram que no capítulo (2:38) deste livro, logo após Pedro ter terminado seu discurso. Ele foi questionado pela multidão sobre o que haveriam de fazer. O apóstolo então fala sobre a necessidade de arrependimento, e cada uma daquelas pessoas fossem batizadas em(o) nome de Jesus para a remissão dos seus pecados. E apenas assim receberiam o dom do Espírito Santo. E, afinal de contas, por causa de que essa cautela toda? Precisamos pensar que essa narrativa acontece em um mundo que passa por uma transição, do ponto de vista de como Deus, em Cristo, resolve se revelar e isto, conforme o registro de João capítulo 1:14. Lá o apóstolo fala da encarnação e de como pela encarnação ele escolhe habitar, ou armar a sua tenda entre nós. Segundo, precisamos entender como foi fundamental, e ainda continua sendo, aderir, aceitar o nome de Jesus como aquele que é a propiciação pelos nossos pecados. De certa forma, aderir, aceitar o nome de Jesus para perdão de pecados tinha uma probabilidade muito maior de aceitação pelos Samaritanos do que pelo próprio judeu. Basta pensarmos de que maneira se alcançava um perdao pela culpa. Tudo efetivamente estava baseado em atos litúrgicos, dentre  os quais existia a imolação de animais. Além de ser custoso, havia ainda as limitações que eram impostas aos samaritanos caso resolvessem se dirigir a Jerusalém. Sem contar a ameaça de Bulling e preconceito. Receber o perdão dos pecados por meio de Jesus, para as autoridades religiosas que perseguiram e mataram Jesus. E agora perseguem os apóstolos e os proíbem pregar Jesus(Atos 4:18). Para estas autoridades é uma verdadeira conspiração contra o templo. E uma tentativa de inviabilizar economicamente a religião do templo.   

Apesar da perseguição e proibição de se pregar o evangelho em Jerusalém. E por causa dessa perseguição, o evangelho chega aos samaritanos. Em Samaria, os problemas e dificuldades haverão de ser outros, a perseguição enquanto problema, ainda não existe. Mas, a expansão do Evangelho, em que pese as perseguições, em cada canto haverá de enfrentar novos desafios, novas dificuldades. A religião dos judeus ficou em Jerusalém com o templo que lá estava. E quando falamos em expansão do Evangelho há um pequeno detalhe que até agora tem sido tratado como detalhe. Porém faz toda diferença, que é a ação do Espírito Santo. Nas palavras de Jesus a mulher samaritana, o mestre ensina que Deus é Espírito e importa que os verdadeiros adoradores o adorem em Espírito e em verdade. Portanto, não será aqui, nem em Jerusalém, conforme as palavras de Jesus, que Deus haverá de ser adorado. Mas, em qualquer lugar que seja invocado. Do ponto de vista da tradição litúrgica do Cristianismo, o único mediador capaz de fazer com que Deus seja invocado é Jesus. Vejamos como nestas poucas linhas, e, agora para tratar de um assunto com tamanha relevância tivemos que, ao fazer menção da pessoa do Espírito Santo, a referência dada a ele como um detalhe pode, num primeiro momento, transparecer que estivéssemos tratando com pouco caso. Ou que podia parecer como ações esporádicas quando se trata de narrativas atreladas ao Antigo Testamento, a partir de sua manifestação em Pentecostes(Atos capítulo 2), sua presença e condução da Igreja haverá de ter a mesma constância e efetividade que se atribuem a ações do Pai e do Filho. Neste estágio revelatório do caráter e das ações do Espírito Santo como o que temos presenciado em Samaria. Quando os apóstolos, Pedro e João, descem de Jerusalém a Samaria, e impondo as mãos sobre aqueles que creram em Jesus, imediatamente recebiam o Espírito Santo. A sequência de narrativa que interpõe a crença no nome de Jesus como a priori, ou precedente ao recebimento do Espírito Santo obedece a lógica redacional, histórica e fundante de sua manifestação. Assim como não poderia ser diferente. Uma vez que a pregação apostólica que, ao enfatizar a morte e ressurreição do Cristo, oferece-nos a possibilidade de entender e investigar os variados ambientes religiosos e contextos sociais por onde a pregação através dos Apóstolos, diáconos e tantos outros pregadores itinerantes passaram levando o evangelho da salvação pela confissão do nome de Jesus.  É fato que nós, Batistas, não invalidamos a sequência de narrativa tal como exposta neste capítulo 8 e verso 16, quando afirmamos em nossa profissão de fé, bem como nos concílios examinatórios ao ministério da palavra de que quando cremos em Jesus, naturalmente cremos porque já houve uma ação efetiva de convencimento operada em nossa vida pelo Espírito Santo de Deus. 

Como falamos antes, a igreja em cada ambiente ou contexto em que o evangelho haverá de ser pregado enfrentará desafios outros é que não são os mesmos pelo fato de que os ambientes, contextos e épocas se diferem de um para outro. No caso específico de Simão, podemos aprender muito. Tanto do ponto de vista de como o Espírito Santo se manifesta, assim como a partir de dificuldades como esta de Simão, o mago. Onde podemos e assim o fizemos, ao construirmos uma doutrina mais esclarecedora acerca do papel do Espírito Santo tanto na igreja quanto na experiência cristã de cada um de nós ao nos convertermos pelo testemunho do nome de Jesus e pela redenção de nossas vidas. Simão achava que podia também receber aquele dom com uma soma de dinheiro. O que Simão não foi capaz de entender é que não são aqueles(Apóstolos)que impõem suas mãos sobre os que creem que têm poder e soberania e sim o Espírito Santo. Ele acabou comentando uma blasfêmia tal que recebeu um juízo dos Apóstolos digno de quem sempre se refreou com a impiedade. Pedro, porém, lhe respondeu: “O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois julgaste adquirir, por meio dele, o dom de Deus. Não tens parte nem sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te, pois, da tua maldade e roga ao Senhor; talvez te seja perdoado o intento do coração; pois vejo que estás em fel de amargura e laço de iniquidade”. As palavras proferidas pelo apóstolo Pedro foram tão duras e investida de autoridade que o próprio Simão, tendo recuado neste intento descabido, se pronunciou pedindo aos apóstolos que rogasse por ele ao Senhor para que nada desta sentença de juízo pronunciada por Pedro sobreviesse a ele. Já falamos das multifacetadas experiências que os crentes e as igrejas, onde quer que elas se reúnam, podem atravessar. Para cada ambiente e contextos novos, muitas são as possibilidades de se conhecer pessoas novas, culturas, personalidades e faixas sociais diferentes. É o que temos para falar agora. E foi em função do que temos pra falar agora, que também temos conduzido essa reflexão. Outro dado de extrema relevância, é a constatação de que ao final da leitura desse capítulo 8, estaremos presenciando uma guinada no eixo narrativo deste livro. Se até este capítulo alertamos para o fato de que dentre os apóstolos, Pedro foi aquele que ocupou o protagonismo necessario para falar em nome dos doze. Porém, a partir deste momento, precisamos tratar especificamente do episodio ocorrido entre o diácono Filipe e seu encontro, em pleno deserto, com um eeunuco. Ainda não consegui entender até que ponto a guinada quanto ao eixo narrativo a se iniciar a  partir do capítulo 9, que trata da conversão de Saulo de Tarso. E em que patamar esses versos que vão do 26 ao 40, representam ou podem representar o elemento de transição para o que vem depois. Foi a perseguição em Jerusalém que fez com que o diácono Filipe descesse até Samaria e pelo caminho evangelizava aqueles que encontrava pelo caminho. Mas, agora é um anjo do Senhor falando a Filipe para que ele se disponha a ir na direção do lado sul. Segundo o texto, o caminho que desce de Jerusalém a Gaza. O anjo alertou dizendo que este caminho se acha deserto. Filipe prontamente se levantou e foi. É neste caminho que ele se depara com um eunuco. O texto ainda afirma quanto a identificação desse eunuco que de misteriosa não há nada. Já que é alto oficial de Candace, rainha dos etíopes e ainda era superintendente de todo o seu tesouro. E estava naquele caminho porque vinha de adorar em Jerusalém. 

Estando ele de volta em sua carruagem, aconteceu de estar lendo o livro do profeta Isaías. Filipe obedecendo a ordem do Espírito Santo, aproximou-se da carruagem para acompanhar o viajante. Enquanto corria ao lado da carruagem, ouviu que o viajante lia  o profeta Isaías. Foi quando perguntou: “Compreendes o que vens lendo?” Este texto é de uma exuberância de detalhes e nuances que repercutem tanto o repertório e conteúdo linguístico do diácono Filipe, assim como também revela muito do adorador secreto do Senhor, doravante chamado de eunuco. Mas, uma análise de perfil desde as leituras anteriores deste livro até o presente capítulo, acho que são suficientes para entendermos não apenas o teor da pergunta do diácono bem como a forma como o eunuco lhe responde. Quanto a Filipe dissemos aqui que ele é um daqueles 7 diáconos que encabeçam a lista dos eleitos para servirem as viúvas dos gregos. Já falamos aqui do porque se eleger 7 crentes (homens) de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria. O que, a princípio, poderia parecer que estivéssemos lidando apenas e tão somente com algo que beirasse algum tipo de discriminação. Uma vez que segundo o texto, houve murmuração dos gregos contra os hebreus, por causa do tipo de tratamento que suas viúvas estavam recebendo no momento da partilha. O objetivo aqui não significa negar a existência da discriminação. Elas estão presentes nos relatos bíblicos. Basta ver a terminologia utilizada: A palavra "helenistas" (Ἑλληνιστής) carregava conotações de inferioridade, indicando judeus assimilados à cultura grega, em contraste com os "hebreus" (Ἑβραίοι), termo que denotava identidade tradicional. Já o termo "murmuração" (γογγυσμός) implica uma queixa coletiva contra injustiça sistêmica. A insatisfação não era sobre recursos escassos, mas sobre a igualdade na distribuição deles. E uma das explicações para este tipo de atitude dizia respeito aos responsáveis pela logística da distribuição. Se não havia escassez dos elementos que estavam para ser distribuídos que outro argumento se deveria ter sobre está situação, se não algum tipo de má vontade em atender as viúvas de um segmento étnico-cultural  como os gregos(judeus de orientação helenista). Esse tipo de debate sempre se arrastou, por razões históricas de dominação e com muita tensão entre tradição e adaptação. O Helenismo não é visto meramente como uma extensão da cultura Helênica, mas como um fenômeno complexo, moldado por intercâmbios globais e reinvenções. Enquanto a cultura Helênica simboliza a "greicidade" clássica, o Helenismo representa sua projeção transcultural, questionando até onde a identidade grega pode se estender antes de se transformar. Mas, voltando ao relato do texto e o que apóstolos deliberaram para solucionar esta situação. Eles nomearam sete diáconos helenistas (como Estêvão e Filipe, com nomes gregos) para supervisionar a distribuição. Com esta atitude por parte dos Apóstolos foi possível ver que o problema era tanto organizacional quanto cultural. A escolha de membros da minoria discriminada visava restaurar a confiança.

É curioso observar que a igreja assim que solucionou esta questão nomeando seus primeiros sete diáconos. Dois deles, pela ordem, Estêvão e Filipe desempenharam papéis de extrema relevância para a pregação e expansão do evangelho. Estêvão foi capaz de testemunha sobre sua fé até mesmo nos momentos finais de sua vida antes de ser apedrejado. E Filipe tendo deixado Jerusalém e chegado a Samaria levou os habitantes daquela cidade, outrora muito discriminada pelos judeus a receberem o nome de Jesus como Senhor e salvador de suas vidas. A ação do Espírito Santo foi tão impactante através da vida de Filipe que os apóstolos Pedro e João para lá se dirigiram para checarem mais de perto o que estava acontecendo. Quando falamos de Filipe e do porque enquanto diácono ele se encaixa na definição de helenista, atrelamos tambem sua pessoa, sua posição hierárquica na governança da Igreja. Ele é, conforme a compreensão moderna da Igreja um de seus oficiais. E por ser grego, alguém que tenha assimilado o arcabouço cultural de uma outra etnia, muito embora, pelo próprio testemunho dos relatos anteriores, jamais abandonou sua fé e religiosidade. Então, temos a partir daí construído o seu perfil. Quanto ao eunuco, já dissemos, melhor dizendo, nos reportamos pelo próprio texto, que ele era um prosélito(Gentio que aderiu à fé judaica). O verso 27 deste capítulo 8, não apenas nos notifica que ele era alto oficial e superintendente de todo tesouro da Rainha Candace da Etiópia, assim como percebemos que sua viagem não era nada protocolar como alguém ligado a compromissos públicos e de estado. Sua viagem era de peregrinação religiosa. Outro sim, a partir do momento que Filipe interpela um viajante em uma carruagem e por ouvir que que estava lendo o profeta Isaías lhe pergunta se compreendia o que estava lendo? Este tipo de atitude poderia soar como uma ofensa, já que o eunuco da carruagem e por tudo que representava era um homem bem informado e provavelmente tinha uma vasta cultura. O simples fato de estar lendo indicava que tinha em sua posse um manuscrito. A pergunta óbvia acerca do manuscrito poderia ser: Esse manuscrito estava em hebraico ou grego?

Seja qual for a língua em que este manuscrito estivesse escrito, ou hebraico ou grego, tenho certeza que o nosso diácono Filipe saberia identificar. Tal como fez, e, conforme o próprio texto indica Atos 8:30. Pois, Filipe ouviu que lia o profeta Isaías. Todavia, sendo o eunuco um alto funcionário de um governo, tal como no texto, superintendente do tesouro da rainha Candace. Fico muito mais inclinado a afirmar que o manuscrito de posse do eunuco era de língua grega. As razões para tal afirmação são bastante factíveis. Quando o Novo Testamento cita o Antigo Testamento, na maioria das vezes segue a Septuaginta. A passagem específica que o eunuco lê (Isaías 53:7-8, referenciada Em Atos 8:32-33) alinha-se estreitamente com o texto da LXX, não com o texto Massoretico Hebraico. Isto sugere que Filipe e o eunuco estavam discutindo a versão grega. O papel do eunuco como tesoureiro de Candace(Rainha da Etiópia)implica que ele foi educado e provavelmente fluente em grego, a língua administrativa da época. A alfabetização hebraica teria sido incomum para um funcionário estrangeiro, a não ser que ele tivesse treinamento judaico especializado, o que é improvável, dado seu status de gentio ou judeu marginal(como eunuco ele teria sido excluído da plena participação na adoração no templo; conforme Deuteronomio 23:1. Algumas informações para se fazer neste momento. Sobre Atos 8:32–33. O texto de Atos é uma citação direta da Septuaginta (LXX) de Isaías 53:7–8. A única diferença está no final do versículo 8: a frase "ἀπὸ τῶν ἀνομιῶν τοῦ λαοῦ μου ἤχθη εἰς θάνατον" ("pelas iniquidades do meu povo, ele foi levado à morte") não aparece em Atos, possivelmente porque Filipe interrompeu a leitura para explicar o contexto messiânico. Sobre Isaías 53:7–8 na LXX. A Septuaginta traz uma nuance teológica distinta do texto hebraico (Massorético). Por exemplo, a frase "ἀπὸ τῶν ἀνομιῶν τοῦ λαοῦ μου" enfatiza que a morte do Servo ocorre "pelas iniquidades do meu povo", alinhando-se com a interpretação cristã da expiação vicária de Jesus. A citação da LXX em Atos confirma que o manuscrito do eunuco era grego, já que a versão hebraica de Isaías 53:7–8 não coincide verbalmente com o texto de Atos (por exemplo, o hebraico usa "geração" de forma mais abstrata, enquanto a LXX usa "vida" [ζωὴ] de modo mais pessoal).

Pelas razões que anteriormente(parágrafo acima) foram listadas, já entramos num consenso de que tanto o texto, quanto o diálogo estabelecido entre Filipe e o eunuco ocorreram tendo como base linguística, a língua grega. Fizemos inclusive uma observação de que para que o eunuco tivesse a sua disposição um manuscrito grego teria que ser alguém de posse e detentor de uma vasta e ampla formação cultural. Tudo isso, faz jus ao cargo e a posição que o eunuco ocupava sendo o tesoureiro e administrador da Rainha dos Etíopes. Por outro lado, também encontramos um judeu crente, tido como helenista, esse grifo é meu, chamado Filipe. Lembremos que um dos motivos para a eleição de diácono na igreja ou comunidade de Jerusalém, deveu-se a práticas discriminatórias na hora da partilha. E quando o texto diz que os gregos estavam murmurando por causa da prática em deixar de fora as suas viúvas no momento da partilha. Dentre esses gregos, poderiam estar figurando aqueles 7 irmãos da lista de Atos 6:5. Estêvão e Filipe poderiam normalmente ser encontrados entre aqueles gregos que murmuravam. É fato que a deliberação dos Apóstolos foi muito sábia e orientada pelo Espírito Santo. Eles são helenistas. Estêvão e Filipe são helenistas. Eram homens versados na cultura e na língua dos HELENOS. Esta prerrogativa foi suficientemente importante quando alguém como o eunuco que naquele momento passava pela dificuldade de ler e entender o que estava lendo. E providencialmente o Espírito Santo direciona este missionário para encontrar este Etiope e efetivamente proporcionar um sentido maior a sua vida. O eunuco já era um prosélito, ou alguém temente a Deus. Sua peregrinação a Jerusalém, talvez, poderia ser a última. É neste exato momento que ação de Deus através de seus servos se torna necessária e providencial. Texto Grego (NA28): προσδραμὼν δὲ ὁ Φίλιππος ἤκουσεν αὐτοῦ ἀναγινώσκοντος Ἠσαΐαν τὸν προφήτην καὶ εἶπεν· ἆρά γε γινώσκεις ἃ ἀναγινώσκεις; algo de muito interessante se apresenta na forma como a pergunta é feita ao eunuco. Sabemos que ele é um adorador do Deus de Israel. Vimos que regressava de mais uma peregrinação ao Templo. Ele tem em sua posse um manuscrito grego do Antigo Testamento. Ele tem ciência de que tanto nas sinagogas espalhadas pelo mundo, quanto nas celebrações realizadas no templo existe aquele momento em há a abertura dos rolos, da lei ou dos profetas, para que sejam lidos. Esse ritual litúrgico está  muito presente em sua mente. E com base nele, o eunuco faz sua leitura. Logo, está fazendo a leitura em voz alta, tal como no ritual do culto judaico. Mas existe um lado crítico que imediatamente acontece. Pois, aquele que corre ou caminha paralelo a sua carruagem, neste caso, o diácono Filipe. Ao ouvir que lia no profeta Isaías. Esse é outro dado que não pode passar despercebido. Filipe era familiarizado também com este ritual de abertura e leitura do texto sagrado e profundo conhecedor das escrituras. Simultaneamente, e não depois de concluir a leitura, ele interpela o eunuco perguntando se ele entendia o que estava lendo? “ἆρά γε γινώσκεις” (ara ge ginōskeis). Partículas interrogativas: ἆρά γε introduz uma pergunta retórica, muitas vezes esperando uma resposta negativa.  γινώσκεις: Presente ativo ("compreendes?"). Contrasta com ἀναγινώσκεις ("lês"), sublinhando a diferença entre leitura mecânica e entendimento espiritual. Tão imediata que foi a pergunta quanto imediata foi sua resposta: “ὁ δὲ εἶπεν· πῶς γὰρ ἂν δυναίμην ἐὰν μή τις ὁδηγήσει με; παρεκάλεσέν τε τὸν Φίλιππον ἀναβάντα καθίσαι σὺν αὐτῷ. Atos 8:31 destaca a dinâmica entre a busca humana e a providência divina. A confissão do eunuco ("como poderei entender sem um guia?") ressalta a necessidade de mediação espiritual para a compreensão das Escrituras, tema central em Lucas (Lc 24:45; At 17:2-3). A prontidão de Filipe em responder ao chamado reflete a ação do Espírito na missão cristã, enquanto o eunuco personifica a abertura ao Evangelho além das fronteiras judaicas. O versículo reforça que a fé surge não apenas pela leitura, mas pelo encontro entre a Palavra e a comunidade orientada pelo Espírito.

Entendes, compreendes o que lês? é a prova de que até mesmo a escritura que brota enquanto discurso de uma experiência de culto e de êxtase, não pode e não deve ser subjugada por uma racionalidade individual, vazia e esvaziada de um povo que vem para adorar. Também quer ser uma advertência para aquele que avoca pra si o controle de uma hermenêutica oficial e autoritária sobre o Texto. E quando se fala em texto, não custa nada lembrar acerca daqueles que estavam a serviço do templo. A nova vida em Cristo estava transformando aqueles crentes que ainda adoravam a Deus com base na hermenêutica distorcida de uma velha dispensação. Que aljava qualquer um que se dispusesse a fazer a obra divina. O que estava acontecendo era o que o próprio Jesus já havia ensinado sobre este tempo novo e de forma metafórica: Não se deita remendo de pano novo em tecido velho(Mateus 9:16). A reprodução dos manuscritos e a administração do Templo estavam intimamente ligadas aos Saduceus. Este grupo, composto principalmente por sacerdotes e aristocratas, controlava o Templo de Jerusalém e era responsável pelos rituais e pela manutenção das práticas religiosas. Eles aceitavam apenas a Lei escrita (a Torá) como autoridade religiosa e desempenhavam um papel crucial na preservação e transmissão dos textos sagrados. Mas, há uma classe que funciona como peça chave dessa engrenagem, os escribas. Eram profissionais especializados na escrita e cópia de manuscritos, independentemente de sua afiliação religiosa. Desempenhavam um papel essencial na reprodução dos textos, mas não estavam necessariamente ligados a um grupo específico ou à administração do Templo. Portanto, enquanto os Saduceus tinham uma ligação direta com a administração do Templo e a reprodução dos manuscritos, os escribas atuavam como um grupo à parte, focando na tarefa técnica de copiar e preservar os textos. Como estamos falando de um diálogo que começa com alguém que faz uma leitura em voz alta, e quem a ouve interpela o tal leitor se ele entende o que lê? Obviamente que o que ele está lendo é um manuscrito. De minha parte, demandou a necessidade de fazer com que o leitor ou aquele que em algum momento estiver presenciando e ouvindo a leitura desta reflexão tenha a nítida consciência de como na Palestina do primeiro século, funcionava a cadeia de comando da religião institucional de Israel e aqueles que controlavam a religião.

Temos sinalizado até aqui a existência de um ponto de tensão entre a devoção e o que também chamamos de racionalidade religiosa. Para o eunuco apenas fazer uma leitura com base no ritualismo religioso tem sua hora e momento adequado. Isto é, fora do ambiente e contexto do templo, é o tipo de leitura e engajamento que se torna sem propósito e sem sentido. De acordo com o relato, o eunuco ao se deparar com o texto do profeta Isaías reproduzido neste capítulo 8 de Atos nos versos 32 e 33(Isaías 53:7-8). Pairou sobre ele uma dúvida: “A quem se refere o profeta. Fala de si mesmo ou a um outro? E é esta dúvida que é levada a Filipe, verso 34. O que salta a nossos olhos de uma maneira bastante crítica é o fato de que o elemento gerador de tanta perseguição em Jerusalém e pelas autoridades religiosas, que não se pode falar de Cristo. Para se falar de Cristo houve a necessidade dos pregadores de se ausentarem de Jerusalém onde se encontrava o foco de violência e de resistência a esta pregação. Mais tarde, será um pouco mais a frente com o advento de uma figura proeminente no judaísmo chamada Saulo de Tarso. O tipo de perseguição se estenderá para além de Jerusalém(Atos 9:1-2). Mas, voltando a questão levantada pelo eunuco, foi num lugar deserto que O Espírito Santo preparou para que neste encontro entre Filipe e o eunuco pudesse ser apresentado Cristo como chave de leitura e entendimento das escrituras Vetero testamentarias, neste caso e, em especial, o livro do profeta Isaías 53: Naquele exato momento em que Filipe estava levando a palavra de Cristo ao eunuco. Aquela palavra era também uma palavra de consolo, conforto e libertação. Quando aqui falamos da situação deste homem, que apesar de ser alguém que ocupasse uma posição social bastante relevante nesta época. Apesar de ser um prosélito, o quem sabe apenas um homem temente ao Deus dos hebreus. Ele tinha alguns impedimentos para o exercício de sua religiosidade. Embora fosse um adorador e que pudesse entender o ritualismo da religião praticada em Jerusalém e ditada pelas autoridades e oficiais do templo os quais também se constituiam como controladores da hermenêutica. Ao apresentar Cristo, Filipe mostra ao eunuco que as barreiras legais(Levitico 23:1) colocadas como fatores impeditivos para que o bom e fiel adorador pudesse se aproximar do Senhor, em Cristo, que estava sendo anunciado ao eunuco, elas caiam por terra e não mais se sustentavam. Então sim, em Isaías 53:7-8 reproduzido por Atos 8:32-33, o profeta não estava falando dele próprio, mas de outro. Este foi o questionamento do eunuco. E este outro era Cristo. A expressão paulina que afirma que em Cristo somos mais que vencedores(   ) é de vital importância no sentido de entendermos o que ele pela sua obra ao  morrer na cruz fez por nós. Após a palavra de Filipe o eunuco, que a rigor, via todo tipo de dificuldade no sentido de adorar o Deus dos Hebreus em Jerusalém, teve como conclusão lógica a atitude de interpelar Filipe, seu discipulador, se todas essas barreiras foram quebradas, eis aqui água, que me impede que eu seja batizado? É quando Filipe revela que só há impedimento caso não creia, ambos descem da carruagem, e Filipe o batiza. Depois disto, e ao sairem da água, o Espírito Santo arrebatou Filipe. Não o vendo mais o eunuco; e este foi seguindo o seu caminho cheio de júbilo. Enquanto Filipe véi a ser encontrado em Azoto; e, passando além, evangelizava todas as cidades até a chegar a Cesareia.

O caso emblemático deste eunuco serve como parâmetro e pano de fundo para exemplificar o processo de transformação pelo qual estava passando a dinâmica de pregação do evangelho. Quando no início desta reflexão fui capaz de chamar a Igreja de Jerusalém, que apesar daqueles crentes estarem presenciando e testemunhando a maneira soberana e poderosa de manifestação do Espírito Santo, ainda assim, era uma igreja muito provínciana. E uma maneira encontrada pelo Senhor de fazer com que estes crentes saíssem de Jerusalém para pregar o evangelho em Jerusalém, Judéia, Samaria e até os confins do mundo, mesmo depois de terem recebido a virtude ou poder do Espírito Santo, foi a grande e feroz perseguição a que foram submetidos. E o exemplo que tento me valer para falar desse tipo de transformação assume dimensão e amplitide bem maior. É o caso de Antioquia, conforme relatado em Atos 11, foi um marco crucial no desenvolvimento inicial do cristianismo. Podemos analisar sua natureza e as mudanças ritualísticas com base no contexto bíblico e histórico: Antioquia: Sinagoga ou Igreja? Origem Judaica: Inicialmente, os discípulos dispersos pela perseguição em Jerusalém (Após o martírio de Estêvão) pregavam nas sinagogas aos judeus (Atos 11:19). Antioquia, como uma grande cidade do Império Romano, tinha uma comunidade judaica significativa, e é provável que os primeiros cristãos tenham começado seu trabalho missionário nesse ambiente. O diferencial em Antioquia foi que alguns discípulos (como os de Chipre e Cirene) começaram a pregar aos gregos (gentios) diretamente (Atos 11:20-21). Isso gerou uma comunidade mista de judeus e gentios convertidos, algo inédito até então.

O que poderia ter se tornado uma sinagoga, na realidade, proporcionou o nascimento da "Igreja como Entidade Distinta: O termo "cristão" (Χριστιανός, (Christianós) foi cunhado ali (Atos 11:26), indicando que a comunidade já não era vista como um ramo do judaísmo, mas como um grupo distinto. Assim, Antioquia não era uma sinagoga, mas sim uma comunidade cristã emergente, composta por judeus e gentios, que se reunia separadamente. Daí a acontecer o que chamamos de transição ritualística da circuncisão para o batismo, foi algo sem maiores constrangimentos. O contexto da Circuncisão no judaísmo, era o sinal da aliança para os homens (Gênesis 17:10-14). Inicialmente, os cristãos judeus mantinham essa prática, mas surgiu um conflito quando gentios começaram a se converter sem passar pela circuncisão (Atos 15:1-2). Em Antioquia, o batismo (já praticado desde João Batista e Jesus) tornou-se o ritual de iniciação principal para todos os convertidos, independentemente de origem étnica (Atos 11:16-18; cf. Mateus 28:19). Isso refletia a teologia paulina de que a fé em Cristo, não a circuncisão, era o critério para a salvação (Gálatas 5:6; Romanos 3:28-30). A tensão entre circuncisão e batismo levou ao Concílio de Jerusalém (Atos 15), onde se decidiu que os gentios não precisavam ser circuncidados. Antioquia foi um catalisador para essa mudança, pois já praticava a inclusão dos gentios pelo batismo. Antioquia não foi uma sinagoga que virou igreja, mas uma nova comunidade cristã formada por judeus e gentios, que se organizou à parte das sinagogas tradicionais. O batismo substituiu a circuncisão como marca de pertencimento à comunidade para os gentios, embora judeus convertidos possam ter mantido práticas culturais (como a circuncisão) sem vinculá-las à salvação (Atos 16:3; 21:20-24). Antioquia tornou-se um centro missionário (Atos 13:1-3) e modelo de igreja multicultural, refletindo a universalidade da mensagem cristã. Em suma, Antioquia representa o surgimento da igreja como uma entidade distinta do judaísmo, com o batismo consolidando-se como o ritual de iniciação para todos, independentemente de origem étnica. O batismo é a fórmula encontrada por Deus para agilizar e facilitar o acesso de entrada dos crentes na igreja. O batismo é a representação da universalidade tanto da Igreja quanto da mensagem do evangelho.

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¹BARTH, Karl. Dádiva e Louvor.

Editora Sinodal. 1986. p. 289

*A relação entre "nazarenos" e "cristãos" ilustra a evolução do cristianismo de um movimento judaico marginalizado para uma religião universal. Enquanto "nazarenos" vinculava-se à humildade e às raízes judaicas de Jesus, "cristãos" emergiu em Antioquia como um marco de uma nova comunidade, transcultural e centrada em Cristo. Essa transição não apenas refletiu a expansão geográfica da fé, mas também sua transformação teológica e social, consolidando-a como uma identidade distinta e global .

**A combinação de evidências arqueológicas (túmulo do século I, basílica do século V, artefatos devocionais) com fontes históricas (Eusébio, tradição eclesiástica) sustenta a identificação do túmulo de Filipe em Hierápolis. Embora a ausência de restos mortais ou inscrições diretas limite uma confirmação absoluta, o contexto geral é considerado convincente pela maioria dos pesquisadores.

*** O pórtico de Salomão funcionava como espaço, projetado arquitetonicamente, de ensino e comunidade. Ilustra como a fé e a história se entrelaçam em Jerusalém, ecoando até os dias atuais através de relatos bíblicos e descobertas arqueológicas.








A conversão que conhecemos hoje é assim desde o inicio? Ou ela também passou por um desenvolvimento historico?

 O que é uma conversão?




Que motivação extremamente relevante deve ter o fato de que tratamos da forma como tratamos uma temática tão ampla e abrangente como esta? Antes de mais nada, o objetivo é exatamente tratar do assunto ou problema com a maior amplitude. Evidentemente que tratar dessa maneira não significa que o seu desenvolvimento não deva trilhar o caminho da lógica e da boa fundamentação teórica e intuitiva. Primeiramente é preciso ter consciência, e ainda não tenho condições de afirmar qual momento exato em que esta temática haverá de se revestir de um viés religioso, ou que ponha a religião em evidência. Ainda não é possível elencar, neste momento, o pensamento e a lógica religiosa como base desta reflexão. Mesmo que tenhamos que fazer em algum momento, algum tipo  de referência bíblica. Fazer referência aos escritos bíblicos independente do tipo de relação ou abordagem que desses escritos se façam, não faculta a seus usuários contumazes qualquer tipo de reivindicação quanto a sua autoridade e chancela para efeito de normatização seja canônica, seja doutrinária, ou até mesmo espiritual. Quem se vale desses textos bíblico-canônicos, não pode, nem deve fazer em nome de uma pretensa autoridade chancelada por algum tipo de investidura vinda do alto. Entretanto, como o assunto aqui diz respeito, a princípio, ao conceito de conversão, vale assinalar que precisamos estabelecer, desde já, uma definição clara do termo CONVERSÃO. Uma coisa é certa, o termo conversão tem vários significados. Porém, depende do contexto onde é aplicado. A origem etimológica do termo remonta ao LATIM "Conversio”. E pode ser entendido como transformação, modificação, adaptação, alteração, reestruturação, ou evolução de algo. Esse princípio chamado conversão está presente numa amplitude e ótica conjuntural na modernidade como um todo. Ele se faz presente na tecnologia quando se converte um sinal analógico em sinal digital. Quando, por intermédio de uma taxa de câmbio, se faz a conversão de moedas. Quando se faz a conversão de medidas de metros para quilômetros. Sua amplitude tem uma relação direta com os desdobramentos de tal ato de converter e se refere à extensão ou alcance de algo. Em linhas gerais podemos converter água em vapor e podemos converter vapor em energia que move máquinas. Deixando claro que a relação água e vapor não é simétrica com a relação vapor-máquina. Ou seja, estamos utilizando o conceito de conversão que nos dá base para análise de processos de transformação. Evidentemente que este estágio de consciência que adquirimos nestas poucas linhas, não é algo que acontece da noite para o dia. Porém, ele foi impulsionado de uma maneira relativamente acelerada com o que os gregos antigos forjaram com base em sua filosofia.


O simples fato de falarmos em filosofia nos remete a um outro princípio. Este princípio, eu tenho que elencá-lo. Digamos que seja um conjunto de coisas que vou chamar desde que sejam orientados por um consenso sobre o qual fazemos a atribuição de DOGMATA. Ou, quem sabe, um princípio em torno do qual se reúnem aqueles que se dizem detentores de ideias que se distinguem de um grupo de dogmata para outro grupo de dogmata. Um pitagórico se apresenta como um seguidor dos princípios deixados por Pitágoras. Um acadêmico tinha como balizamento o pensamento platônico . Um peripatético seguia Aristóteles. E dessa maneira as escolas filosóficas foram tomando forma na antiguidade. Notamos que, a despeito de insistir que ainda não é o momento certo para me utilizar das ideias e conceitos de natureza religiosa, mas a simples utilização da cultura, da língua e por conseguinte do pensamento grego. Sinaliza que estamos lidando com situações que em algum momento se resvalam, ou, interseccionam-se em um ou mais pontos tangenciais. Por uma simples razão faço esta observação: Historicamente, o elemento que marca a passagem do pensamento mítico para as escolas filosóficas, e este acontecimento ocorre por volta do século VII AC. Foi a atitude dos filósofos de não se contentar com a mitologia, ou saga dos deuses, como instrumento de leitura e de explicação do mundo. Os deuses da tradição homérica(Ilíada, Odisseia), ou da tradição de Hesíodo(Teogonias), passam a ser questionados quanto à efetividade e importância deles na cultura da Pólis. Apologia de Sócrates, um texto de Platão é um bom exemplo do que estamos falando(PLATÃO, Apologia de Sócrates. www.virtualbooks.com.br/). E é a partir dos relatos desse texto que testemunhamos que uma das causas da sentença de Sócrates a morte, não foi a única, neste caso, são acusações que, dentre elas, destaco apenas duas. A primeira foi a acusação de corromper a juventude e a outra foi de não acreditar nos deuses.


Dá para se perceber que estamos sempre resvalando naquele ponto tangencial onde entra efetivamente para a discussão do momento a questão colocada sobre a religião. Todavia, a questão da religião que não é religião socraticamente falando, ainda caminha de maneira embrionária na direção daquele sentido que o elemento vital não se resume numa crença dos deuses. E sim na crença de um conjunto de regras que faz com que este ou aquele cidadão grego faça a adesão ou opção filosófica por uma das escolas de filosofia que estavam em ascensão e efervescência. Acho que não há qualquer tipo de registro histórico que sinalize uma espécie de preferência pela religião ou pelos deuses quando nos valemos de um exemplo, como de Heráclito de Éfeso. Heidegger quando proferiu palestras sobre Heráclito naqueles famosos cursos de verão, foi capaz de perceber na atitude desse pensador pré-socrático que o que se verificava ao relatar dois de seus fragmentos, era que estando junto ao forno de fazer pão e se aquecendo era possível se perceber a manifestação dos deuses(HEIDEGGER, Martin, Heráclito. p.22). Assim como quando adentrava ao templo de Diana para jogar dados com as crianças, era melhor do que cuidar da Polis(HEIDEGGER, Ibid. p.25). De qualquer maneira os filósofos desde o período pré-socrático, e Heráclito era um deles, começam a direcionar um olhar investigativo para tudo que está a seu redor. Para tanto, não era suficiente que o ponto de partida dessas investigações ainda estivesse sob a tutela de um pensamento mitológico. Essas investigações e pensamentos têm um caráter existencial. De repente, eu me encontro numa situação em que meu corpo precisa se agasalhar e se aquecer pois existe tanto o aspecto sensorial de leitura da existência quanto o fato de que fisicamente uma temperatura mais fria(ausência de calor) provoca uma sensação extremamente desagradável a meu corpo físico. 


Ainda não é possível detectar que não estamos falando ou tecendo algum tipo de argumento que via de regra perpassa o sentimento religioso. Muito embora, algum desavisado, queira ou se atreva a afirmar que este texto é um texto religioso. Até porque, fazer referência ao que doravante preciso fazer pode nos induzir falaciosamente por estes descaminhos. E que assunto ou elemento é este a ser introduzido? Ele diz respeito, desde uma perspectiva existencial, que há um princípio de QUEDA. E objetivamente fazer referência aqui a um mito de QUEDA. Isso não significa que a partir de agora trago para essa investigação o mito da queda tal como se encontra na narrativa de Gênesis capítulo 3. Para tanto me permito fazer uma referência mais do que merecida ao grande pensador e teólogo Paul Tillich. E é nessa ordem de grandeza que coloco essa figura: Pensador e Teólogo. Quando se vale de um conceito muito utilizado pelos teólogos, principalmente aqueles da ala calvinista que é o mito da queda transcendental. Tillich, vai afirmar que embora esse conceito tenha sido utilizado na Bíblia, ele precede aos textos bíblicos. Já existia de forma embrionária na consciência dos pré-socráticos de que o mundo carecia de uma realidade última(TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. p. 260). Essa consciência de QUEDA traz consigo impreterivelmente um caráter trágico. Dois elementos emergem a partir do momento que se toma consciência de que há uma transição do ser essencial para o ser existencial: Moral e Trágico(TILLICH, Paul. Ibid. p. 272).


Uma leve abordagem dessa temática e surge logo uma questão. Se converter a que, ou a quem? E o que efetivamente, dentro daquele grau de normalidade e praticidade, representa a adesão desta ou daquela escola filosófica? Adesão a um pricipio filosófico tal como vemos na Grécia antiga, significa uma conversão? A ruptura com o elemento mítico não é automatica. Porém, a começar pelos pré-socráticos até que chegue a Platão e Aristóteles, é o ponto crucial e divisor de águas quando se observa historicamente esses elementos de transição e ruptura. Mesmo que alguns desses elementos de leitura da realidade que não mais estão sob a chancela dos mitos. Ainda assim eles são tratados com deveras desconfiança e para que sejam aceitos, ainda têm um longo caminho na história da Grécia. Pois, é difícil traçar a fronteira temporal do momento em que surge o pensamento racional (JAEGGER, Werner. Paideia. p.191). Um exemplo prático é a epopeia de Homero, é tão estreita a interpenetração do elemento racional e do pensamento mítico que mal se pode separá-los (JAEGGER, Paidéia. Idem p.191). Quando estes elementos de ruptura se tornam mais claros e patentes, temos como principal exemplo a condenação à morte de Sócrates já aludida no corpo deste texto. Falamos ainda que dois dos principais argumentos para sua condenação era de corromper a juventude e de não acreditar nos deuses. Acho que nestes primeiros elementos assinalados e que marca o desenvolvimento das ideias filosóficas impulsionadas não apenas por seus pensadores, mas acima de tudo pela adesão dessas ideias e a consequente formação das chamadas escolas filosóficas. O fator e diferencial de tudo isso não se resume àquele conceito de conversão aludido nas primeiras linhas deste texto. Lá, especificamos que conversão poderia ser basicamente a mudança de um estado. O exemplo mais simplório foi de que se converte água para vapor. O que detectamos aqui é tão somente a ideia e conceito de adesão. Aquele cidadão grego do mundo antigo, que em algum momento de seu dia, ao passar pela ÁGORA(Praça), se depara com um determinado orador-pensador. Ali, ele se sente identificado com suas ideias e acaba por sinalizar sua adesão à filosofia de tal pessoa. Repetindo mais uma vez não houve conversão e sim adesão.


O que acabamos de tratar no parágrafo anterior. E dado que o caráter historicamente transitório da ruptura do mito pelo pensamento racional, é ainda muito embrionário. Qualquer tipo de tratativa nesse quadro que se posicione com o objetivo de estabelecer com base num quadro geral de dados levantados aleatoriamente e que desconsidere, tanto o lugar e valor da intuição mítica quanto esta mesma intuição sem o elemento formador do LOGOS, permanece sendo uma atitude aleatória e “cega”. Ou seja, uma conceituação lógica sem o mito, sem o núcleo vivo da “intuição mítica” originária, permanece vazia de sentido (JAEGGER, Paidéia. Ibid p. 192). É apenas e tão somente a partir de um claro e nítido desenvolvimento da Filosofia Grega que, desde uma visão historicista, e considerando este processo como um processo de racionalização progressiva da concepção religiosa do mundo implícita nos mitos (JAEGGER, Paidéia. Idem p.192)


Doravante, procurarei ser um pouco mais ousado e dessa vez pretendo utilizar uma passagem bíblica. Porém, continuo com aquele entendimento que ainda não é o momento de falar em religião, ou de uma possível e provável ética religiosa. O texto a que me refiro é Atos 19:1-7. Ali há a narrativa do encontro de Paulo com alguns discípulos, e é bom que se esclareça que, num primeiro momento, a referência a discípulos não especifica o possível mentor ou mestre deste grupo.  para ser mais específico conforme o verso 7 deste capítulo, eles eram em número de 12 homens ou mais. Pois bem, neste encontro ocorrido na cidade de Éfeso. O apóstolo pergunta se estes homens já tinham recebido o Espírito Santo quando creram. Se levarmos em consideração que eram discípulos de João Batista, eles creram no que João pregou acerca da chegada do Messias (João 1:21-27). A resposta foi bastante inusitada e surpreendente: Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo. Seguida desta resposta o apóstolo propõe  uma segunda pergunta: Em que batismo fostes batizados, então? Eles então responderam: no batismo de João. Está claro com a resposta desses discípulos que o batismo a eles admnistrado diz respeito muito mais a um tipo de adesão ao grupo daquele mestre ou rabi, neste caso, eles eram discípulos de João, o batista. Muita coisa se explica também pelo tipo de adesão daqueles que se dedicavam a seguir João Batista. Sua pregação era muito contundente do ponto de vista ético-moral. Aderir a comunidade ou grupo dos discípulos de João exigia dos mesmos uma vida de rigor ético e moral. Já nesta época o povo se via cansado e descrente de tanto pecado e da corrupção das autoridades. Muitas dessas comunidades se formavam com o objetivo de proteger suas famílias e crenças. Com o tempo, as comunidades cristãs também foram se formando, isto já no primeiro século. Os evangelhos canônicos são exemplos disso. Entretanto, quero crer que a comunidade dos discípulos de João Batista precedia no tempo as comunidades cristãs. O elemento balizador para que alguém fosse chamado de cristão era sim fazer parte de uma dessas comunidades. E claro, o batismo era o rito de iniciação para que o cristão desse período fizesse parte de uma dessas comunidades. Fora essa questão de um rito de iniciação, quando aqui aludimos àquelas escolas filosóficas do período clássico grego. Aqui também se verifica este mesmo movimento de formação dessas escolas. Apenas com um ingrediente com tendências mais religiosas e apocalípticas do que um movimento filosófico. Não é pra menos, afinal, desde o período do segundo século AC, até o segundo século DC, nos deparamos com uma espécie de piedade judaica. Com isto muitas comunidades se formam no seio do judaísmo. Algumas delas mais radicais que outras a ponto de se isolarem no deserto, como é o caso dos essênios.


Fica também um pouco mais claro com a pergunta do apóstolo Paulo a estes discípulos de João que o diferencial para a caracterização que distingue uma comunidade cristã de uma comunidade não cristã é a relação com o Espírito Santo. Está claro que o Espírito Santo, enquanto pessoa que age eticamente no seio do povo de Deus, é, por assim dizer, a figura emblemática da terceira pessoa da Trindade divina que se faz presente em toda e qualquer comunidade cristã do primeiro século. Por mais que uma comunidade priorize a observância da boa conduta, da ética e da moral. Não são estes elementos que fazem dela uma comunidade cristã. E sim a relação que esta comunidade precisa ter com o Espírito Santo. Aqueles discípulos ao revelarem ao apóstolo que foram submetidos ao batismo de João. Tinham consciência do peso moral e ético, assim como do elemento distorcivo do caráter que o pecado provoca no homem. O próprio João Batista no evangelho de João, capítulo 1:29, ao se deparar com Jesus que veio a ele junto ao Jordão para ser batizado, disse a seus discípulos: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Aqueles homens tinham uma consciência de grupo e do elo construído entre este grupo e a doutrina e ensinamento trazida por João Batista a eles. Quem já leu e observou a maneira como um dos discípulos de Jesus no evangelho de Lucas, capítulo 11:1, manifesta um pedido simples a Jesus. O pedido era que o mestre o ensinasse a orar assim como João ensinou a seus discípulos. Está claro que a forma de orar era elemento distintivo entre um grupo de seguidores de um determinado mestre para outro grupo. Uma das maneiras de se entender como essas comunidades existiam. É perseguir e demarcar um escopo mais abrangente de formação das mesmas. E o ambiente e contexto social, político e religioso pode e deve ser enquadrado na perspectiva daquilo que anteriormente tive o cuidado de chamar de piedade judaica.


Embora a perspectiva religiosa esteja cada vez mais próxima de fazer dos argumentos construídos até agora para o levantamento propriamente dito do que seja efetivamente o conceito de conversão e de como este conceito segue sendo utilizado para todo e qualquer tipo de empreendimento em matéria de coesão de pessoas, formação de grupos que, naturalmente e academicamente, chamamos de comunidades. Porém, vale lembrar que o que se tem perseguido até agora é o conceito de conversão que leva em conta o sentido de adesão. Aderir, é o mesmo que afirmar que quem adere a este ou aquele grupo é signatário de todos os pressupostos previamente estabelecidos como normas deste ou daquele grupo. Quando afirmei, a dois parágrafos acima, que embora estivesse utilizando uma referência bíblica(João 19:1-7) para falar da relação existente entre o grupo e seu mentor ou mestre. E ao estabelecer que neste tipo de relação se podia ver nitidamente a distinção entre um grupo, neste caso, os discípulos de João, e um outro grupo também chamados de cristãos, ou discípulos de Cristo, o ressuscitado. Também se pôde constatar que havia um determinado rito de iniciação que era comum a ambos os grupos, porém com abordagens hermenêuticas diferentes(Batismo). No caso desta abordagem diferente com relação ao batismo, o próprio apóstolo sinaliza que tal abordagem diferente para o mesmo rito de iniciação tinha relação com o papel transitório, ou de transição do que deveria ser o ministério e ensinamento de João Batista. O verso 4 do capítulo 19 do evangelho de João estabelece que nesta linha de tempo entre o que o batizador pregava e como direcionava sua pregação para o evento que viria a seguir que seria depositar sua crença em Jesus Cristo. 

 4 Mas Paulo disse: Certamente João batizou com o batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse no que após ele havia de vir, isto é, em Jesus Cristo.


A maneira como o desenlace desse papel de transição entre um discipulado e outro ocorre, é muito pouco ou quase nada explorada pelos teóricos. Doravante, toda vez que eu fizer menção ao termo teórico, pode haver uma ligeira relação com o que atribuo ao papel do teólogo. A utilização do termo ‘teórico’ dá-nos um pouco mais de liberdade nessas tratativas. Uma vez que sua utilização não está de todo subjugada a qualquer tipo de cânone religioso. Como disse, volto a reforçar esta iniciativa, embora meu comportamento tenha uma certa ousadia em se valer de referências bíblicas, a ideia ainda persiste em não se tratar especial e especificamente da religião ou de questões religiosas. Mesmo tendo ciência que existe uma linha tênue entre a linha de abordagem e investigação aqui desenvolvida. Outro dado importante diz respeito à relação que se tenta estabelecer desde uma perspectiva de desenvolvimento histórico entre os elementos que caracterizam uma escola do tipo filosófica e a comunidade de seguidores que se constitui em torno dela. E as comunidades religiosas? Neste caso, tanto as que se formaram tendo por base o judaísmo de um período que compreende especificamente desde o segundo século AC até o segundo século DC. Período onde, por intermédio do crescimento e expansão do que podemos chamar de piedade judaica, floresceu uma vasta gama de textos também conhecidos, por aqueles que ainda preservam uma cultura canônica, por pseudoepígrafos. E aquelas tipicamente reconhecidas como cristãs que se formaram a partir do discipulado cristão, ou as que deixando de ser judaicas por sucessão no tempo se constituíram como cristãs também(Sinagoga de Antioquia)*. Notamos que já no final do primeiro verso deste capítulo, o apóstolo ao se deparar com aquele grupo. O texto diz que ele encontrou alguns discípulos. Não há nesta narrativa nada que pudesse fazer e que nos ajudasse a identificar aqueles discípulos como discípulos de João Batista.   


No caso específico de Atos 19:1-7, estamos diante de uma comunidade de discípulos de João Batista. Já que conforme o apóstolo Paulo eles foram iniciados ou introduzidos para se constituir como grupo pelos ensinamentos, diga-se de passagem, bastante ético e moralista, de João Batista. Ou seja, fazer parte de um desses grupos tinha como pré-requisito a adesão a um código disciplinar basicamente inspirado nos preceitos morais da lei mosaica. O fato de o apóstolo ter iniciado o diálogo com este grupo aludindo a pessoa do Espírito Santo retrata sua preocupação com alguns fundamentos que bem esclarecidos fazem com que os que fazem parte do grupo tenham uma identificação genuína com Cristo. Mais do que isso, fazem também com que os que estão de fora saibam identificar o grupo que aquele fiel faz parte. Não é demais lembrar a passagem de Lucas 11:1-4. Naquela passagem, um dos discípulos de Jesus viu a forma como seu mestre orava. Pede para que ele também os ensine a orar. E na justificativa para tal pedido ele afirma que João Batista ensinou a seus discípulos. Aquele discípulo era capaz de identificar um discípulo de João pela forma como orava. E queria também possuir uma espécie de chave linguística de identificação para que os demais judeus ao contemplarem a forma como orava o identificasse com Jesus. Se identificarmos o batismo, apenas como um rito de iniciação na comunidade. E estabelecemos que o fiel ao se batizar sacramenta uma espécie de contrato de adesão para ser solidário juntamente com os demais membros  do grupo com todos os preceitos e regras firmados por aquela comunidade, então, o que presenciamos é uma espécie de aceite moral e ético dessas mesmas regras às quais cada membro subscreve. Ora, isso não é conversão da forma como as igrejas e comunidades cristãs-protestante a entendem. De alguma maneira e, entendendo dessa forma, há um completo esvaziamento da pessoa do Espírito Santo. Logo, uma comunidade constituída dessa maneira não é e não deve ser considerada como uma comunidade cristã. A pergunta de Paulo foi contundente ao perguntar àqueles discípulos se eles haviam recebido o Espírito Santo quando creram?


É justamente a partir da pergunta do apóstolo que se pode levantar alguns questionamentos. E o primeiro deles diz respeito à operação do Espírito. Se para tanto, a atitude do indivíduo para crer precede a sua decisão de aderir ao discipulado de uma vida com Cristo, se ela acontece simultaneamente à pregação apostólica que lhe impõe uma vida moralmente rígida. É bem verdade que, a rigor, esse texto tem caminhado, e essa opção é consciente, por uma descrição circunstancial e descritiva de uma situação ou evento bastante plausível tanto no interior de comunidades religiosas das mais variadas, assim como por comunidades que ao longo da história foram também se constituindo sem o viés religioso. Fiz questão ao me referir às comunidades filosóficas gregas historicamente identificadas e com surgimento a partir do século VII AC, que essas comunidades não eram religiosas já que o viés de leitura da realidade não estabelecia qualquer tipo ferramenta com base no mito e sim no pensamento e reflexão humana. Agora, havia pessoas no interior dessas comunidades que nutriam algum tipo de devoção por alguma divindade? Evidentemente que sim. Volto a afirmar que o que está em jogo aqui para efeito de apropriação histórica é que fazer parte dessas comunidades tinha relação com a adesão aos princípios norteadores da vida dessas comunidades. Então, que elementos podem ser colocados e que se transformam em fatores que distinguem uma comunidade constituída pelo princípio da adesão daquelas comunidades constituídas pelo princípio da conversão? Primeiro de tudo, uma comunidade filosófica é a comunidade do pensamento enquanto base de questionamento para tudo que se apresenta no mundo. Todavia, até mesmo essas comunidades tinham uma espécie de código moral ou de ética pelos quais seus integrantes ao aceitarem fazer parte delas subescreviam conscientemente aceitando e acatando suas normas.


Tive o privilégio de em algum momento de minha formação acadêmica conhecer e fazer parte de turmas que tinham aulas ministradas pelo professor Junito Brandão. Certa vez, falava ele da maneira como o gênero lírico tragédia foi aceito para fazer parte do entretenimento dos patrícios, aqueles que viviam na acrópole. A tragédia é uma arte forjada fora da Acrópole e seu surgimento é decorrente dos festivais em honra ao deus do vinho, Dionisio. Nesses festivais havia um consumo extremamente alto de vinho. Havia também muita orgia. É fato que a referência a palavra bacanal para se referir aos excessos da prática sexual leva esse nome por conta do outro nome que Dionísio tinha que era BACHO.  A integração das tragédias na Acrópole, um local associado ao culto a Apolo, pode ser vista como uma fusão das tradições religiosas e culturais. Apolo, sendo o deus das artes e da música, também tinha uma conexão com o teatro e a poesia. Assim, o teatro na Acrópole representava uma síntese das influências de Dioniso e Apolo, refletindo a complexidade e a riqueza da cultura ateniense. Por outro lado, trazer esse registro histórico acerca da história da arte grega representada por esse gênero lírico denominado tragédia e fazer referência a figura icônica do professor Junito Brandão. Tem por objetivo rememorar sua fala de que para que a tragédia realmente fizesse parte da arte e do entretenimento da Acrópole, foi necessário que ela se “Apolinizasse”. O professor Junito trouxe também para essa discussão a figura de Nietzche ao fazer referência ao processo de apolinização pelo qual passou a tragédia. Não nos esqueçamos que Apolo na mitologia é o deus do equilíbrio, da beleza, das artes de um modo geral. E um outro exemplo a ser dado e que reforça o que tem sido trazido aqui, especialmente neste parágrafo, é a tragédia de autoria de Eurípedes também conhecida como as Bacantes. É bem verdade que este texto não objetiva fazer um estudo sobre história da arte, de análise de textos literários seja qual for. O propósito aqui é discutir o caráter e efeito de uma norma. O que descrevi aqui, inclusive fazendo menção do processo de apolinização da tragédia, foi que ela para ser aceita na acrópole teve que ser enquadrada por determinadas normas pelas quais se mediam os excessos. O Metron, a medida, é o parâmetro estabelecido para se medir esses excessos, ou HYBRIS. Simetricamente falando, a  HYBRIS** tinha como referencial Dionísio, ou Bacho. Apolo, deus das artes, da beleza e do equilíbrio, é aquele que simboliza o METRON***. Ainda assim, toda essa dinâmica de análise descritiva de um período do ponto de vista de sua história e de sua estética, não se compara com o evento em que propriamente podemos relacionar tudo a um conteúdo de natureza religiosa. Isto porque, de uma certa maneira, nos encontramos nos estágios precedentes ao entendermos o que é um ambiente de natureza religiosa. Nos encontramos naquelas situações que são derradeiras, mas ainda se encontram na base dos aspectos condicionados. Nossas faculdades mentais e o característico emprego da razão ainda funcionam. O que fica de lição para efeito de entendimento a partir da formação tanto de uma comunidade religiosa quanto de uma comunidade filosófica, neste caso, quero reinterpretar Kant ao afirmar que a moralidade precede a religião (MORUJÃO, Carlos. p.54).  Eu diria que a moralidade precede a formação e a prática de ambas as comunidades, religiosas ou filosóficas.


Já foi afirmado, e de forma categórica, que a questão da moralidade precede e favorece na formação tanto de comunidades religiosas quanto filosóficas. Também foi assinalado que as inumeráveis comunidades religiosas possuíam algum tipo de ritual de iniciação. E no caso das comunidades religiosas surgidas no seio do judaísmo desde o segundo século AC até o segundo século DC, eram formatadas com base nos princípios da lei mosaica, porém produziram uma vastíssima literatura, depois cunhada de apócrifa ou pseudepígrafos. Este período não deixa de exibir do ponto de vista de sua dinâmica, como um período riquíssimo de detalhes que acabará por influenciar tantas ou mais comunidades como as cristãs desse período. Em alguns momentos,  aquelas que eram comunidades oriundas do judaísmo serão formatadas e por sucessão passarão  a ser comunidades cristãs. Neste caso, falo especificamente da sinagoga de Antioquia. Que tal como outras comunidades judaicas, dos Essênios, adotam o batismo como rito de iniciação. Porém, em substituição a circuncisão. Todavia, o grande divisor de águas entre uma comunidade religiosa de origem judaica e uma de origem cristã, está na presença sempre ativa do Espírito Santo entre os cristãos. Vale lembrar que estamos nos referindo a comunidades, ou igrejas de origens orientais. Essa excrescência conhecida no Ocidente como FILIOQUE**** inexiste neste contexto. O dogma trinitário no Oriente entende o Espírito Santo como vindo do Pai sem a mediação do Filho. Fica também claro que a questão levantada por Paulo ao indagar aqueles discípulos encontrados em Éfeso, se eles haviam recebido o Espírito Santo quando creram, era o elemento distintivo para se estabelecer se tal comunidade era cristã ou não. Neste caso específico narrado em Atos 19:1-7, desconhecer a pessoa do Espírito Santo, ou ter algum entendimento que faça do Espírito Santo uma força impessoal, ou mágica como no caso de Simão o encantador de Atos 8:17-24, é simultaneamente descaracterizar tal comunidade religiosa como comunidade cristã. Tendo como parâmetro e paralelo a intuição mítica que subjaz e fundamenta toda e qualquer comunidade religiosa. O que se  nos apresenta para efeito de declaração que caracteriza uma comunidade religiosa como comunidade cristã é a pessoa do Espírito Santo. Sem a terceira pessoa da Trindade uma comunidade cristã não é nem religiosa e muito menos cristã. Evidentemente que as narrativas dos evangelhos, especificamente neste ínterim que trata da questão do Espírito Santo, revela o elemento fundamental que caracteriza a figura da terceira pessoa da Trindade como trans histórica. São os desenvolvimentos posteriores de conceitos teológicos que marcam com mais especificidade a dinâmica de ação do Espírito Santo no seio de uma comunidade cristã e religiosa (Igreja).



TILLICH, Paul. Teologia Sistemática.

   São Leopoldo, Sinodal. 1981.


HEIDEGGER, Martin. Heráclito.

    Rio de Janeiro, Relume Dumara, 1998


JAEGGER, Werner. A Paideia


MORUJÃO, Carlos. Religião, Cultura e  

    Sociedade em Schelling.


*Sinagoga de Antioquia _ Há uma ideia subjacente na leitura do capítulo 1:13 do livro de Atos dos Apóstolos. Que ao se analisar sua estrutura analisando seus capítulos, entendem que entre o primeiro e o sétimo capítulo, a narrativa diz respeito à igreja entre o judeus. Do capítulo 8 ao 12, a igreja em transição de judeus para gentios. Do capítulo 13 ao 27, a igreja entre os gentios. Evidentemente que se chama de sinagoga, já se entende como uma igreja. (Comentario Exegetico Y Explicativo da Biblia, Tomo II: El Nuevo Testamento. p. 259.)


**Hybris _ (ὕβρις) é o oposto do Metron, significando "excesso" ou "desmedida". Refere-se à arrogância e ao comportamento excessivo que desrespeita os limites impostos pelos deuses e pela ordem natural. Na visão grega, a Hybris leva à destruição e ao caos, sendo uma falha moral grave.


***Metron _ (μέτρον) significa "medida" ou "moderação". Na paideia grega, representa o ideal de equilíbrio e harmonia, essencial para a virtude e a excelência humana. A busca pelo Metron é a busca pelo meio-termo, evitando excessos e deficiências em todas as ações e emoções.


****FILIOQUE _ Doutrina que toma corpo e forma na tradição teológica do ocidente com base nos escritos agostinianos (De Trinitatis). Neste contexto, a afirmação é de que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. 



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Referências Bíblicas.


Gênesis 3


Atos 19:1-7


Lucas 11:1-4






 


Raimundo Nina Rodrigues & Euclides da Cunha.

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