Texto: Gálatas 5:16-26
Tema: produzindo fruto do Espírito
ICT: O fruto do Espírito é o resultado final do complexo processo de amadurecimento da vida cristã.
Objetivo Geral: Levar a congregação desta amada igreja a compreensão de que não é o tempo que vivemos enquanto membros ativos de nossas igrejas que revela nossos traços de maturidade cristã.
Objetivo Específico: Levar a congregação desta amada igreja a compreensão de que a complexidade do processo de maturidade cristã passa pela compreensão de uma dinâmica de revelação onde as três pessoas da Trindade se envolvem ativamente.
Texto Grego (Gálatas 5:16-26) - NA28
5:16 Λέγω δέ, πνεύματι περιπατεῖτε καὶ ἐπιθυμίαν σαρκὸς οὐ μὴ τελέσητε.
5:17 ἡ γὰρ σὰρξ ἐπιθυμεῖ κατὰ τοῦ πνεύματος, τὸ δὲ πνεῦμα κατὰ τῆς σαρκός, ταῦτα γὰρ ἀλλήλοις ἀντίκειται, ἵνα μὴ ἃ ἐὰν θέλητε ταῦτα ποιῆτε.
5:18 εἰ δὲ πνεύματι ἄγεσθε, οὐκ ἐστὲ ὑπὸ νόμον.
5:19 φανερὰ δέ ἐστιν τὰ ἔργα τῆς σαρκός, ἅτινά ἐστιν πορνεία, ἀκαθαρσία, ἀσέλγεια,
5:20 εἰδωλολατρία, φαρμακεία, ἔχθραι, ἔρις, ζῆλος, θυμοί, ἐριθεῖαι, διχοστασίαι, αἱρέσεις,
5:21 φθόνοι, μέθαι, κῶμοι, καὶ τὰ ὅμοια τούτοις, ἃ προλέγω ὑμῖν, καθὼς προεῖπον ὅτι οἱ τὰ τοιαῦτα πράσσοντες βασιλείαν θεοῦ οὐ κληρονομήσουσιν.
5:22 Ὁ δὲ καρπὸς τοῦ πνεύματός ἐστιν ἀγάπη, χαρά, εἰρήνη, μακροθυμία, χρηστότης, ἀγαθωσύνη, πίστις,
5:23 πραΰτης, ἐγκράτεια· κατὰ τῶν τοιούτων οὐκ ἔστιν νόμος.
5:24 οἱ δὲ τοῦ Χριστοῦ Ἰησοῦ τὴν σάρκα ἐσταύρωσαν σὺν τοῖς παθήμασιν καὶ ταῖς ἐπιθυμίαις.
5:25 Εἰ ζῶμεν πνεύματι, πνεύματι καὶ στοιχῶμεν.
5:26 μὴ γινώμεθα κενόδοξοι, ἀλλήλους προκαλούμενοι, ἀλλήλοις φθονοῦντες.
Introdução
Grosso modo, a primeira pergunta que eu faria a esta congregação é no sentido de querer saber se vocês sabem realmente o que é, ou quem é este Espírito que o texto em todo o capítulo 5 de Gálatas faz referência? E a segunda pergunta, desde que a primeira seja respondida satisfatoriamente, é de saber se vocês compreendem em que momento da Revelação a pessoa deste Espírito toma parte como agente fundamental de formação e preparação da igreja como serva do Senhor? Ou seja, aquele que estará a serviço do Senhor. Basicamente, podemos nos limitar a tão somente estes dois questionamentos. Eles, por si só, já dão muito pano pra manga. Mas, vamos por etapas, tendo apenas como guia e direcionamento nesta leitura e reflexão o texto desta epístola. Aí, neste caso, cabe até uma espécie de sarcasmo quando alguém tenta balizar o tipo de reflexão ou sermão como expositivo ou não. De qualquer forma, todo e qualquer sermão tem que ser expositivo. O que estou fazendo aqui, e na melhor das intenções, é expor a Palavra de Deus, com aquele desejo e oração de que através desta exposição todos nós aqui possamos ter o melhor dos aproveitamentos para nosso crescimento espiritual. Para tanto é absolutamente necessário que se tenha uma clara compreensão do texto e o ambiente e contexto de seu surgimento. Claro que uma outra coisa que não dá para deixar de lado, é o nível de insatisfação do apóstolo Paulo para lidar com este problema. Diferentemente de sua epístola aos Romanos, onde o apóstolo estabelece um argumento relacionado a elementos fortemente baseados em seu aspectos jurídicos: Justificação, culpa, compensação de culpa, emancipação de um senhorio e migração para outro senhorio.
E tudo isto numa perspectiva de entendimento que vale tanto para judeus quanto para gentios. É a lei que diz que eu sou pecador, e que, portanto, estou sob a tutela do pecado. A única forma de compensação para que não me veja sob a tutela e senhorio do pecado, é o pagamento de um preço, e este preço é a morte(Romano 6:23). Todavia, a parte final do verso 23 fala de uma dádiva, uma gratuidade da parte de Deus que é a vida, e vida em abundância, vida eterna. E ela acontece por causa da mediação de Cristo Jesus. Essa mesma linha de pensamento em Paulo, obedece aquela lógica esboçada por ele em II Coríntios 5:14 _ ἡ γὰρ ἀγάπη τοῦ Χριστοῦ συνέχει ἡμᾶς, κρίναντας τοῦτο, ὅτι εἷς ὑπὲρ πάντων ἀπέθανεν· ἄρα οἱ πάντες ἀπέθανον· _ Porém, o apóstolo em Romanos, neste mesmo capítulo 6, alguns versos antes do 23. Mais precisamente os versos 16, 17 e 18, fala dessa migração enquanto servos do pecado para nos tornarmos servos (escravos) da justiça. Romanos 6:16-18 (NA28): 16) οὐκ οἴδατε ὅτι ᾧ παριστάνετε ἑαυτοὺς δούλους εἰς ὑπακοήν, δοῦλοί ἐστε ᾧ ὑπακούετε, ἤτοι ἁμαρτίας εἰς θάνατον ἢ ὑπακοῆς εἰς δικαιοσύνην; 17) χάρις δὲ τῷ θεῷ ὅτι ἦτε δοῦλοι τῆς ἁμαρτίας ὑπηκούσατε δὲ ἐκ καρδίας εἰς ὃν παρεδόθητε τύπον διδαχῆς, 18) ἐλευθερωθέντες δὲ ἀπὸ τῆς ἁμαρτίας ἐδουλώθητε τῇ δικαιοσύνῃ. No entanto, agora recebendo a tal doutrina, ou ensinamento de coração, em obediência, agora são servos da justiça. O que fica bastante claro nas palavras do apóstolo, é que em qualquer das duas situações, a nossa condição de servo (escravo) permanece inalterada. Ou seja, somos servos do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça.
Se em Romanos, o principal argumento nesta relação polar entre Lei e Graça é a migração de um senhorio. Por outro lado, em Gálatas, embora permaneça a relação polar entre Lei e Graça, o apóstolo fala de uma liberdade alcançada em Cristo. O apóstolo na construção de seu argumento alinha entre outras coisas, uma espécie de chamada à consciência dos Gálatas advertindo que, caso esse processo de decisão escolhendo se submeter ao ritual de circuncisão aconteça, eles estariam obrigados a se submeter a Lei que ele chama de JUGO DE ESCRAVIDÃO. No entendimento do apóstolo que por ter um histórico de vida pautado pela Lei, e que ao se converter foi capaz não apenas de compreender seu caráter transitório, assim
como perceber que sua transitoriedade foi decretada pela presença da graça divina manifestada em Cristo Jesus. Seu alerta àqueles que fizerem tal escolha pela circuncisão é, primeiramente, por tornar ineficaz a obra de redenção realizada por Cristo. Segundo, é o fato de que por serem gentios(Não-judeus), não são capazes de atinar que a circuncisão, embora seja um ato litúrgico, não é aleatória e desvinculada de um conjunto de regras que caracterizavam a Lei Mosaica. Eles, consciente ou inconscientemente, ao se deixarem circuncidar estavam escolhendo a via de Justificação diante de Deus que outrora era atribuída a Lei. A qual teve seu tempo e cumpriu sua missão até a chegada da revelação manifesta em Cristo Jesus. Nesse caso, a fé se tornou o elemento de vital importância.
I - COMPREENDER A NATUREZA E FUNÇÃO DO ESPÍRITO. (V.V.16-18)
Compreender a natureza e a função do Espírito é estar no caminho certo para que possamos frutificar caminhando com a igreja, por meio Dele e no seio da igreja. Notem vocês que até caberia aqui algum tipo de correção, já que ao fazermos menção do Espírito, ao mesmo tempo que associamos a sua pessoa a termos que o qualificam como um ser que tem natureza dando a entender que ele tem um início. E, o atributo de que executa uma função, como se estivesse na condição de um ser subordinado a alguém maior do que Ele. Só tem um porém, compreender a natureza do Espírito não quer dizer que estamos falando como algo que em algum momento do tempo passou a ser o que não era antes. Compreender a natureza do Espírito é compreender a sua procedência de junto do Pai desde sempre. E se pensarmos bem, dependendo do tipo de profissão de fé que temos, poderíamos incorrer numa espécie de heresia(Filioque). O que extrapola a partir daí não é teologia, muito menos fé cristã. Por não termos uma terminologia melhor e mais apropriada, estou me valendo do conceito de natureza para fazer referência a perenidade, a eternidade do Espírito que subsiste enquanto substância e pessoa com o Pai e com o Filho. Estas são características pontuais do que chamamos de Economia Divina (Oikonomia). Deus faz e revela o que Ele é em si mesmo. Embora o seu agir seja detectado na história por meio da criação, sua dinâmica de vida interna, é, desde os tempos imemoriais, pervade a eternidade. A nós é permitido compreender esse agir divino desde aquele momento que entendemos e chamamos de REVELAÇÃO.
Para Paulo, andar no Espírito tem a conotação de uma ordenança ou imperativo. Mas isto não significa que ele abandona ou omite uma racionalidade subjacente a este discurso em tom imperativo. Não se questiona o fato de que o apóstolo se vale de sua autoridade. “Andai” é um verbo em Português que se encontra flexionado na segunda pessoa do plural, do presente do imperativo. O seu equivalente grego é: περιπατεῖτε. É o mesmo verbo que dará origem ao substantivo que caracterizou a escola filosófica de Aristóteles, os peripatéticos. Pois para Paulo é fundamental ter o conhecimento necessário quanto a natureza e função que o Espírito exerce na igreja, somente desta maneira se pode vencer ou controlar os desejos e aptidões da carne. Nada disso acontece sem que haja uma forte e acirrada oposição entre o Espírito e a carne. Porém, para Paulo essa batalha interna que travamos tem como disputa o domínio de nossa vontade ou querer. O próprio texto alude ao fato de que ambos, Espírito e carne, são opostos entre si. Acho que este texto poderia ser incluído num debate acerca do livre arbítrio. Por enquanto é apenas uma percepção de minha parte. E não quero encaminhar o desenvolvimento dessa palavra para este assunto em questão neste momento. Devemos ter consciência da relação do Espírito com as demais pessoas da Trindade. Todo conhecimento que temos de Deus só é possível porque foi revelado por Ele mesmo a nós. Inexiste, neste caso, qualquer possibilidade de conhecermos Deus, se não for por meio de Cristo, logo por meio da revelação. O que aprendemos acerca do ser de Deus, do ponto de vista dessa revelação, é também, por conta da relação entre essas três pessoas. A manifestação trinitária: Pai (fonte), Filho (executor), Espírito (aplicador). Revela as relações eternas de origem (Pai gera o Filho, o Espírito procede), procede de onde? Da relação entre o Pai e o Filho. É a partir deste ponto que se ativa nossa capacidade, dada por Deus, para identificar o cumprimento do seu propósito: Salvação (Soteriologia). A execução para cumprimento desse propósito divino de salvar os homens, tem como pano de fundo a própria história humana. E é, desde então, quando identificamos cada uma dessas pessoas (Υπόστασης) na perspectiva de um agir funcional, cronologicamente falando. A doutrina da economia é, portanto, a lente através da qual entendemos o plano de ação de Deus no mundo. Ela nos permite ver a história não como uma série de eventos aleatórios, mas como um cenário dinâmico, coerente e amoroso, conduzido pela Trindade para nos levar à comunhão com Ela. É através do estudo da economia que temos acesso, ainda que limitado, aos mistérios da teologia do ser de Deus.
Vocês estão percebendo que no mandamento instituído pelo apóstolo aos Gálatas, o preceito é apenas e tão somente andar no Espírito. Falamos aqui da natureza do Espírito, de sua procedência desde uma perspectiva de entendimento teológico do que seja a Trindade. Mas, o foco narrativo destes primeiros três versos é andar e focar na ação do Espírito Santo de Deus. Essa receita como mandamento funciona se entendermos que estamos diante de grandes desafios, que alguns inadvertidamente chamarão de batalha espiritual. Todavia, essa receita embalada como mandamento tem sua eficácia garantida se não abrirmos qualquer tipo de precedente para que a carne aproveitando a ocasião prevaleça com seus desejos. Somente dessa maneira, segundo o apóstolo, não satisfazemos os desejos da carne. Ao abrir espaço para um debate sério e comprometido com um resultado que não seja diferente do que o apóstolo vem apregoando enquanto mandamento que é o de não facilitar para que a carne em sua luta contra o Espírito prevaleça. Dentro de uma análise interna das inquietações que incomodam o ser humano, Paulo também se revela um grande e profundo conhecedor da Ψυχή (Psichē) humana. Dessa maneira ele destaca os elementos internos da Psichē, tais como o pensamento e o sentimento humanos. Muito embora essa questão toca no cerne de diversas correntes da filosofia e da psicologia ao longo da história. A forma como o pensamento e o sentimento são compreendidos, sua relação e sua importância relativa dentro da psiquê (ou alma/mente) varia enormemente entre diferentes escolas de pensamento. Suas lutas, seus desafios e de como esses elementos dinâmicos interferem no aspecto volitivo da alma humana.
II - DEMANDA UM TIPO DE POSTURA OU ATITUDE DE NOSSA PARTE PARA COM A LEI. (V.V.19-21)
Antes de analisarmos para contextualização e circunstância os dois versos que nos servem de base nesta reflexão. Vemos que a partir do início do capítulo 5, o apóstolo exige de forma imperativa, por parte dos crentes daquela igreja, atitude e postura contundente em relação à lei. Esse elemento imperativo significa que aqueles crentes terão que decidir entre a Lei representada pela circuncisão ou a graça representada pela obra de Cristo, tal qual o apóstolo pregou para aqueles crentes. A circuncisão, caso os Gálatas decidissem por ela, seria um retrocesso nessa jornada pelo crescimento e maturidade cristã. não há meio termo nesta relação entre Lei e Graça da maneira como o apóstolo coloca. Aceitar a circuncisão é assumir o risco de se viver sob o jugo da Lei e consequentemente se desligar de Cristo. Nesse tipo de analogia utilizada por Paulo onde ele dispõe lado a lado Lei e Graça, a Lei sempre foi o fio condutor que nos guiou com base num propósito divino. O apóstolo fala dela revestida de sua função pedagógica: “De maneira que a lei nos serviu de tutor, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados”. (Gálatas 3:24). Nas muitas versões do NT em português, encontramos alguns outros substantivos para substituir o que está no registro grego: Aio; Tutor; Porém, o que é unanimidade nas muitas versões gregas é o termo PAIDAGÔGOS, numa análise bastante superficial, estamos diante de um substantivo composto: (παϊς; δός menino + άγειν conduzir)¹ _ “Ὥστε ὁ νόμος παιδαγωγὸς ἡμῶν γέγονεν εἰς χριστόν, ἵνα ἐκ πίστεως δικαιωθῶμεν.”
Logo, não há como omitir neste pano de fundo de caráter cronológico onde a Lei ocupou de forma transitória a função de elemento normalizador e normatizador tanto de nossas relações para com Deus quanto para com os homens. É uma evolução tanto cronológica quanto histórica que, digamos, numa postura de análise que se atribui ao aspecto narrativo do texto o que chamamos e conhecemos como Ex-evento, oferece-nos agora a capacidade para ajuizar a transitoriedade da Lei da qual estamos falando. Ao Fazermos menção de sua pedagogia, muito embora não esqueçamos dela como elemento normatizador bem como ajuizador de nossas ações. Porém, quando o apóstolo atribui a ela essa função pedagógica, ele traz para o terreno de discussão seu caráter oniabrangente. Ela, a Lei, nos conduzia de tal maneira que não vislumbramos no horizonte qualquer tipo de solução para a dívida que tínhamos para com o pecado. Quando Jesus foi interrogado por um certo doutor da Lei sobre o maior de todos os mandamentos, Ele respondeu de tal maneira satisfatória àquele doutor da Lei que comentou que o segundo mandamento era semelhante ao primeiro que era de amar o próximo como a si próprio. E conclui que é destes dois mandamentos que depende toda a Lei e os profetas(Mateus 22:40). Os profetas do Antigo Testamento, principalmente aqueles que mais de perto denunciavam as injustiças que se cometiam contra o povo. Sempre levaram em conta desde as relações de poder identificadas pelo estrato social do povo de Deus e como, a partir daí, se interferia na própria relação do povo para com seu povo.
Precisamos entender que, na advertência de Paulo aos crentes de Gálatas, o fato deles aceitarem passar pelo processo de circuncisão, significa primeiramente um grande retrocesso. Pois, agindo dessa forma estão aceitando se submeter ao julgo da Lei do qual uma vez em Cristo foram libertos. Se submeter ao ato litúrgico de circuncisão representativo do preceito legal judaico como uma forma de, com isso fazer parte do povo eleito de Deus, para o qual Paulo como pregador do evangelho de Jesus Cristo, desde que teve sua vida transformada e refeito toda sua teologia. O apóstolo entende que não mais haveria tal necessidade, principalmente para os gentios, que estavam desobrigados do cumprimento desse preceito legal e doutrinário. Prova disso é esta epístola onde narra sua trajetória de vida pregressa(Gálatas 1:12-18). Esse tipo de retrocesso litúrgico é muito mais gritante pelo fato de que segundo nossa escatologia vivemos o tempo do fim. É o tipo de ação contraproducente do ponto de vista pregação e retórica cristã construída ao longo desses vinte séculos. Para a realidade dos Gálatas, Paulo estabelece uma postura bastante ajuizada quanto ao fato de que aos Gálatas, caso assumam a atitude retrógrada de trocarem a graça pela lei, haverá seríssimas consequências. Devemos receber suas palavras não como ameaças, mas como advertências àqueles que incitam os Gálatas a tamanha rebeldia. Ainda assim, isto não isenta os Gálatas de sua responsabilidade. Muito embora estejamos abordando a questão desde uma perspectiva que aponta para a imaturidade dos Gálatas.
III - O ESPÍRITO NOS IMPOSSIBILITA DE TODA E QUALQUER PRÁTICA INÍQUA. (V.V. 22-26)
Se pudéssemos usar uma analogia para este momento de reflexão acerca do Espírito divino, diríamos que ele é o fermento que tanto proporciona o crescimento da massa quanto também sua ligadura. Devemos ter um comportamento quanto a ação do Espírito Santo no seio da igreja em que a palavra chave para todo e qualquer direcionamento seja a comunhão dos santos. Sem o Espírito divino não existe igreja, uma vez que é Ele o instrumento divino para manter a igreja coesa, unida. “A communio sanctorum” é, sem sombra de dúvida, um preceito religioso e doutrinário dos mais valiosos e que fazem com que a Igreja seja o que é desde sempre. Portanto, não há um desvio de função da igreja tal como ocorre com outras instituições quando da origem, desenvolvimento e objetivos a serem alcançados. Ela não se refere a um grupo de pessoas "santificadas" no sentido de perfeitas, mas à comunhão espiritual que une todos os fiéis cristãos, vivos e falecidos. A chave linguística aqui é "comunhão" (koinonia, em grego), que significa "participação em comum", "partilha" ou "comunhão". A expressão pode ser entendida em três dimensões interligadas: 1. Comunhão nas Coisas Santas (Sancta): Refere-se à partilha dos bens espirituais comuns, como os sacramentos (especialmente a Eucaristia), a fé, os dons do Espírito Santo e a caridade. 2. Comunhão entre as Pessoas Santas (Sancti): Refere-se à união espiritual entre todos os que são santificados por Cristo, ou seja, todos os batizados. Esta comunhão abrange: Os fiéis na Terra (Igreja Militante). Os santos no Céu (Igreja Triunfante). Portanto, a "Communio Sanctorum" é a crença de que existe um vínculo espiritual profundo e uma troca de bens espirituais (orações, méritos, intercessão) entre todos os membros da Igreja, transcendendo a barreira da morte. O nascedouro da expressão como parte de uma fórmula de fé oficial ocorre no contexto do desenvolvimento do Credo Apostólico, por volta dos séculos IV e V. A maneira como o desenvolvimento histórico e dogmático da igreja de Cristo enquanto instituição ocorre nesta vida e mundo, assinala, e quando faço este tipo de leitura não significa a intenção de se construir um ajuizamento moralista e condenatório da igreja. Como disse, assinala uma abertura maior da igreja para com seu entorno que chamo de mundo. Por ora, é apenas a constatação de um dado histórico. Para tanto, cabe a alusão aqui em relação ao credo primevo, e posteriormente às injunções que lhe foram feitas. Na origem do credo Apostólico: A expressão "Communio Sanctorum" não aparece nos credos mais antigos, como o Credo Niceno (325 d.C.). Ela foi introduzida pela primeira vez em uma versão do Credo Apostólico usado na Gália (atual França). Acredita-se que sua inclusão tenha sido uma forma de enfatizar a natureza espiritual e universal da Igreja em contraste com as heresias da época. Para melhor explicar circunstanciando contextos teológicos e controvérsias tais como a dos Donatistas do século IV, os quais acreditavam que a validade dos sacramentos dependia da santidade pessoal do sacerdote que os administrava. A Comunhão dos Santos afirma que a eficácia dos sacramentos vem de Cristo, não do ministro, e que todos os fiéis, apesar de suas imperfeições, estão unidos em uma única comunhão espiritual. Isso fez com que a igreja fosse vista não apenas como uma instituição visível, mas também como um organismo espiritual.
Vejam só como são as coisas neste contexto de igreja apenas aludindo como parâmetro de leitura que a própria escritura, em especial, e neste texto, me proporciona. No parágrafo acima, do ponto de vista e desde uma perspectiva histórica, fomos naturalmente levados a fazer alusão ao Credo, num primeiro momento, ao Credo Apostólico e a partir daí chegou-se naturalmente à origem de tudo que foi o Credo Niceno. Tanto o estabelecimento de Credo niceno e posteriormente os adendos que a ele foram feitos, dizem respeito a uma espécie de blindagem para aqueles princípios que desde cedo a igreja defendeu e que poderiam em algum momento serem passíveis de ataques. E foi o que sempre aconteceu, basta que busquemos alguns dos referenciais históricos. E, diga-se de passagem, ataques de dentro e de fora da igreja. Dentro da igreja existem aqueles líderes que por desconhecimento ou falta de preparo, não se dão conta da importância histórica e da tradição que luta pela preservação e manutenção dos princípios norteadores da igreja presentes no Credo Apostólico. A natureza e surgimento do Credo tem como objetivo fundamental blindar a fé que uma vez foi entregue aos santos. É mais ou menos o que Paulo expõe em sua epístola de I Coríntios 11:23 (NA28): Ἐγὼ γὰρ παρέλαβον ἀπὸ τοῦ κυρίου, ὃ καὶ παρέδωκα ὑμῖν, ὅτι ὁ κύριος Ἰησοῦς ἐν τῇ νυκτὶ ᾗ παρεδίδετο ἔλαβεν ἄρτον _ quando ali faz menção da ceia do Senhor afirmando que tal qual ele recebeu, de igual modo também entregou. Isso mostra um forte comprometimento na preservação dos princípios basilares da mensagem e doutrina apostólica, os quais são perpetuados em celebrações da Ceia.
As celebrações da Ceia do Senhor, ou Eucaristia, é um daqueles elementos simbólicos que podem e nos conduzem a uma realidade espiritual. Notamos que desde que o apóstolo retoma a analogia de que a carne e o Espírito vivem em uma constante guerra. Notamos também que o apóstolo estabelece parâmetros que diferenciam o que são obras da carne e o que são as obras do Espírito. Agora, quando chegamos aos versos de 22 a 26. O apóstolo vai listando tudo aquilo que resulta efetivamente como produto da ação do Espírito. Para tanto, ele qualifica a obra resultante da ação eficaz do Espírito como FRUTO do Espírito. Desde o verso 22 até o final do verso 23, ele tanto lista quanto afirma categoricamente que contra estas coisas não há Lei. Ou seja, o poder e eficácia da Lei incide apenas e tão somente sobre aqueles que não aceitam ser conduzidos pelo Espírito. Preferem, embora, muitas vezes façam parte formalmente de uma igreja, não serem conduzidos pelo Espírito. Se praticar as obras da carne é não ser conduzido pelo Espírito, no verso 24, o apóstolo também afirma que existe apenas uma maneira de não se praticar as obras da carne. É quando literalmente passamos a pertencer a Cristo: “Os que são de Cristo Jesus crucificaram as obras da carne, com suas paixões e concupiscências”. Se cometermos o pecado da idolatria, faz com que a quebra de apenas um dispositivo moral e ético imposto pela Lei nos imponha como imputação a penitência pela inobservância dos demais mandamentos. Ao andarmos conduzidos pelo Espírito cumprimos o rigor da lei pela observância de todos os mandamentos. E ao final, isto é, o verso 26, o apóstolo nos deixa uma advertência. O objetivo é não deixarmos que aquele sentimento mesquinho de vanglória tome conta do nosso ser. Vanglória pode ser resumida como arrogância, prepotência e na sua grande maioria o elemento motivador é a inveja. Então, a advertência do apóstolo tem sua relevância pelo fato de que ao aceitarmos a soberania e ação do Espírito sobre nossa vida significa que temos a obrigação de vivermos em paz e em comunhão com os nossos irmãos.
Conclusão
O tempo e consequentemente o seu registro são nossos maiores inimigos. Isto porque, travamos uma luta hercúlea contra ele. Sim, o termo hercúleo foi mencionado aqui propositalmente. Este termo "hercúleo" tem uma riqueza histórica e cultural que remonta à Antiguidade Clássica. O seu significado deriva diretamente da figura mitológica de Hércules (ou Héracles, na mitologia grega). Historicamente, "hercúleo" significa: Relativo a Hércules. Em seu sentido mais literal e original, o termo era usado para descrever algo que pertencia ou era característico do herói Hércules. Por exemplo, "as Tarefas Hercúleas" referem-se diretamente aos Doze Trabalhos que ele realizou. Que exige uma força ou esforço sobre-humano (Sentido Mais Comum) Este é o significado que se popularizou e é o mais usado até hoje. Algo "hercúleo" é uma tarefa, um esforço ou um desafio de dimensões colossais, que exigiria a força e a perseverança de um herói como Hércules para ser realizado. Embora sejamos produto do nosso tempo. Existe uma necessidade sem igual de estarmos constantemente revisitando algo do passado. Algo que tenha passado despercebido, ou até algo que tenha uma necessidade urgente de ressignificação. Olhar, ou pedir a Deus que nos capacite a olhar o tempo com sabedoria é talvez uma das tarefas mais desafiadoras de nossa parte. Pois não dá para fazermos tal coisa com imparcialidade. E, por uma simples razão: O tempo é uma das categorias que melhor exemplifica e nos enquadra no que chamamos de finitude. Talvez seja por isso que o salmista tenha pedido ao Senhor que apenas o ensinasse a contar os dias de uma tal maneira que alcançasse um coração sábio: “Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios.” (Salmos 90:12). Uma prece ou pedido dessa envergadura, evidentemente que vem carregada de um ajuizamento moralista. Se pensarmos nas circunstâncias em que vivemos hoje. Eu tenho sempre aquela percepção de que uma pessoa, seja ela quem for. Aqui não há a necessidade de que seja um membro da igreja. Mas, qualquer um que adentre um lugar como este, significa que a pessoa não está absolutamente satisfeita com nada que acontece lá fora. Ou seguindo aquele jargão que os crentes com mais idade, tempo e experiência de fé conhecem: O mundo jaz no maligno, o mundo está perdido.
Também haveremos de chegar à conclusão de que, embora sejamos falantes do Português, não falamos a mesma língua. Nossas experiências e a conotação que empregamos para dar sentido a tudo o mais que nos diz respeito não batem. Há um um projeto de lei tramitando na Câmara dos deputados em Brasília acerca da utilização de uma determinada versão da escritura. Isso ainda vai dar pano pra manga. Pois significa estabelecer controle de narrativa. E é neste ponto que, desde uma perspectiva que alinha encontro com Cristo e como desdobramento disto a experiência cristã, surge a necessidade enquanto igreja, ou grupo que se reúne sob esta atribuição, de entendermos o que seja nossa relação com o Espírito. Queiramos ou não essa relação ainda é viabilizada pela palavra. E para falarmos de nossa relação com o Espírito precisamos do testemunho da escritura. Esse testemunho começa primeiramente com o estabelecimento de nosso lugar de fala. E falamos e nos entendemos de maneira clara, objetiva e espiritualmente se alcançarmos tal nível de discernimento espiritual. A escritura orienta, isso é fato, que as palavras são palavras, porém do ponto de vista de nossas relações no seio da igreja elas exibem conotações diferentes das que encontramos fora de uma relação eclesiástica. E nossa retórica é passivel e deve ser orientada de tal forma que o que falamos traga consigo a relação que enquanto igreja construímos com o Espírito divino. Por isso mesmo, quando falamos, falamos com a sabedoria ensinada pelo Espírito Santo: “As quais também falamos, não com palavras que a sabedoria humana ensina, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais.” Grego: ἃ καὶ λαλοῦμεν οὐκ ἐν διδακτοῖς ἀνθρωπίνης σοφίας λόγοις, ἀλλ’ ἐν διδακτοῖς πνεύματος, πνευματικοῖς πνευματικὰ συγκρίνοντες (1 Coríntios 2:13). As coisas espirituais, ou relativas ao espírito se discernem espiritualmente: ψυχικὸς δὲ ἄνθρωπος οὐ δέχεται τὰ τοῦ πνεύματος τοῦ θεοῦ, μωρία γὰρ αὐτῷ ἐστιν καὶ οὐ δύναται γνῶναι, ὅτι πνευματικῶς ἀνακρίνεται. Uma tradução literal, ou leitura seria nos termos que se segue: "As quais coisas também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas em [palavras] ensinadas pelo Espírito, interpretando (ou combinando) coisas espirituais com [pessoas] espirituais." Ou do ponto de vista de uma leitura mais literária tal como as versões modernas de que dispomos hoje, seria: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.” (I Coríntios 2:14).
Registro Histórico: Commentarii de Bello Gallico (Comentários sobre a Guerra Gálica), Livro I.
· Datação do Evento: 58 a.C.
· Datação do Texto: Escrito e publicado por Júlio César por volta de 52-51 a.C., quase em tempo real dos eventos.