A conversão que conhecemos hoje é assim desde o inicio? Ou ela também passou por um desenvolvimento historico?

 O que é uma conversão?




Que motivação extremamente relevante deve ter o fato de que tratamos da forma como tratamos uma temática tão ampla e abrangente como esta? Antes de mais nada, o objetivo é exatamente tratar do assunto ou problema com a maior amplitude. Evidentemente que tratar dessa maneira não significa que o seu desenvolvimento não deva trilhar o caminho da lógica e da boa fundamentação teórica e intuitiva. Primeiramente é preciso ter consciência, e ainda não tenho condições de afirmar qual momento exato em que esta temática haverá de se revestir de um viés religioso, ou que ponha a religião em evidência. Ainda não é possível elencar, neste momento, o pensamento e a lógica religiosa como base desta reflexão. Mesmo que tenhamos que fazer em algum momento, algum tipo  de referência bíblica. Fazer referência aos escritos bíblicos independente do tipo de relação ou abordagem que desses escritos se façam, não faculta a seus usuários contumazes qualquer tipo de reivindicação quanto a sua autoridade e chancela para efeito de normatização seja canônica, seja doutrinária, ou até mesmo espiritual. Quem se vale desses textos bíblico-canônicos, não pode, nem deve fazer em nome de uma pretensa autoridade chancelada por algum tipo de investidura vinda do alto. Entretanto, como o assunto aqui diz respeito, a princípio, ao conceito de conversão, vale assinalar que precisamos estabelecer, desde já, uma definição clara do termo CONVERSÃO. Uma coisa é certa, o termo conversão tem vários significados. Porém, depende do contexto onde é aplicado. A origem etimológica do termo remonta ao LATIM "Conversio”. E pode ser entendido como transformação, modificação, adaptação, alteração, reestruturação, ou evolução de algo. Esse princípio chamado conversão está presente numa amplitude e ótica conjuntural na modernidade como um todo. Ele se faz presente na tecnologia quando se converte um sinal analógico em sinal digital. Quando, por intermédio de uma taxa de câmbio, se faz a conversão de moedas. Quando se faz a conversão de medidas de metros para quilômetros. Sua amplitude tem uma relação direta com os desdobramentos de tal ato de converter e se refere à extensão ou alcance de algo. Em linhas gerais podemos converter água em vapor e podemos converter vapor em energia que move máquinas. Deixando claro que a relação água e vapor não é simétrica com a relação vapor-máquina. Ou seja, estamos utilizando o conceito de conversão que nos dá base para análise de processos de transformação. Evidentemente que este estágio de consciência que adquirimos nestas poucas linhas, não é algo que acontece da noite para o dia. Porém, ele foi impulsionado de uma maneira relativamente acelerada com o que os gregos antigos forjaram com base em sua filosofia.


O simples fato de falarmos em filosofia nos remete a um outro princípio. Este princípio, eu tenho que elencá-lo. Digamos que seja um conjunto de coisas que vou chamar desde que sejam orientados por um consenso sobre o qual fazemos a atribuição de DOGMATA. Ou, quem sabe, um princípio em torno do qual se reúnem aqueles que se dizem detentores de ideias que se distinguem de um grupo de dogmata para outro grupo de dogmata. Um pitagórico se apresenta como um seguidor dos princípios deixados por Pitágoras. Um acadêmico tinha como balizamento o pensamento platônico . Um peripatético seguia Aristóteles. E dessa maneira as escolas filosóficas foram tomando forma na antiguidade. Notamos que, a despeito de insistir que ainda não é o momento certo para me utilizar das ideias e conceitos de natureza religiosa, mas a simples utilização da cultura, da língua e por conseguinte do pensamento grego. Sinaliza que estamos lidando com situações que em algum momento se resvalam, ou, interseccionam-se em um ou mais pontos tangenciais. Por uma simples razão faço esta observação: Historicamente, o elemento que marca a passagem do pensamento mítico para as escolas filosóficas, e este acontecimento ocorre por volta do século VII AC. Foi a atitude dos filósofos de não se contentar com a mitologia, ou saga dos deuses, como instrumento de leitura e de explicação do mundo. Os deuses da tradição homérica(Ilíada, Odisseia), ou da tradição de Hesíodo(Teogonias), passam a ser questionados quanto à efetividade e importância deles na cultura da Pólis. Apologia de Sócrates, um texto de Platão é um bom exemplo do que estamos falando(PLATÃO, Apologia de Sócrates. www.virtualbooks.com.br/). E é a partir dos relatos desse texto que testemunhamos que uma das causas da sentença de Sócrates a morte, não foi a única, neste caso, são acusações que, dentre elas, destaco apenas duas. A primeira foi a acusação de corromper a juventude e a outra foi de não acreditar nos deuses.


Dá para se perceber que estamos sempre resvalando naquele ponto tangencial onde entra efetivamente para a discussão do momento a questão colocada sobre a religião. Todavia, a questão da religião que não é religião socraticamente falando, ainda caminha de maneira embrionária na direção daquele sentido que o elemento vital não se resume numa crença dos deuses. E sim na crença de um conjunto de regras que faz com que este ou aquele cidadão grego faça a adesão ou opção filosófica por uma das escolas de filosofia que estavam em ascensão e efervescência. Acho que não há qualquer tipo de registro histórico que sinalize uma espécie de preferência pela religião ou pelos deuses quando nos valemos de um exemplo, como de Heráclito de Éfeso. Heidegger quando proferiu palestras sobre Heráclito naqueles famosos cursos de verão, foi capaz de perceber na atitude desse pensador pré-socrático que o que se verificava ao relatar dois de seus fragmentos, era que estando junto ao forno de fazer pão e se aquecendo era possível se perceber a manifestação dos deuses(HEIDEGGER, Martin, Heráclito. p.22). Assim como quando adentrava ao templo de Diana para jogar dados com as crianças, era melhor do que cuidar da Polis(HEIDEGGER, Ibid. p.25). De qualquer maneira os filósofos desde o período pré-socrático, e Heráclito era um deles, começam a direcionar um olhar investigativo para tudo que está a seu redor. Para tanto, não era suficiente que o ponto de partida dessas investigações ainda estivesse sob a tutela de um pensamento mitológico. Essas investigações e pensamentos têm um caráter existencial. De repente, eu me encontro numa situação em que meu corpo precisa se agasalhar e se aquecer pois existe tanto o aspecto sensorial de leitura da existência quanto o fato de que fisicamente uma temperatura mais fria(ausência de calor) provoca uma sensação extremamente desagradável a meu corpo físico. 


Ainda não é possível detectar que não estamos falando ou tecendo algum tipo de argumento que via de regra perpassa o sentimento religioso. Muito embora, algum desavisado, queira ou se atreva a afirmar que este texto é um texto religioso. Até porque, fazer referência ao que doravante preciso fazer pode nos induzir falaciosamente por estes descaminhos. E que assunto ou elemento é este a ser introduzido? Ele diz respeito, desde uma perspectiva existencial, que há um princípio de QUEDA. E objetivamente fazer referência aqui a um mito de QUEDA. Isso não significa que a partir de agora trago para essa investigação o mito da queda tal como se encontra na narrativa de Gênesis capítulo 3. Para tanto me permito fazer uma referência mais do que merecida ao grande pensador e teólogo Paul Tillich. E é nessa ordem de grandeza que coloco essa figura: Pensador e Teólogo. Quando se vale de um conceito muito utilizado pelos teólogos, principalmente aqueles da ala calvinista que é o mito da queda transcendental. Tillich, vai afirmar que embora esse conceito tenha sido utilizado na Bíblia, ele precede aos textos bíblicos. Já existia de forma embrionária na consciência dos pré-socráticos de que o mundo carecia de uma realidade última(TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. p. 260). Essa consciência de QUEDA traz consigo impreterivelmente um caráter trágico. Dois elementos emergem a partir do momento que se toma consciência de que há uma transição do ser essencial para o ser existencial: Moral e Trágico(TILLICH, Paul. Ibid. p. 272).


Uma leve abordagem dessa temática e surge logo uma questão. Se converter a que, ou a quem? E o que efetivamente, dentro daquele grau de normalidade e praticidade, representa a adesão desta ou daquela escola filosófica? Adesão a um pricipio filosófico tal como vemos na Grécia antiga, significa uma conversão? A ruptura com o elemento mítico não é automatica. Porém, a começar pelos pré-socráticos até que chegue a Platão e Aristóteles, é o ponto crucial e divisor de águas quando se observa historicamente esses elementos de transição e ruptura. Mesmo que alguns desses elementos de leitura da realidade que não mais estão sob a chancela dos mitos. Ainda assim eles são tratados com deveras desconfiança e para que sejam aceitos, ainda têm um longo caminho na história da Grécia. Pois, é difícil traçar a fronteira temporal do momento em que surge o pensamento racional (JAEGGER, Werner. Paideia. p.191). Um exemplo prático é a epopeia de Homero, é tão estreita a interpenetração do elemento racional e do pensamento mítico que mal se pode separá-los (JAEGGER, Paidéia. Idem p.191). Quando estes elementos de ruptura se tornam mais claros e patentes, temos como principal exemplo a condenação à morte de Sócrates já aludida no corpo deste texto. Falamos ainda que dois dos principais argumentos para sua condenação era de corromper a juventude e de não acreditar nos deuses. Acho que nestes primeiros elementos assinalados e que marca o desenvolvimento das ideias filosóficas impulsionadas não apenas por seus pensadores, mas acima de tudo pela adesão dessas ideias e a consequente formação das chamadas escolas filosóficas. O fator e diferencial de tudo isso não se resume àquele conceito de conversão aludido nas primeiras linhas deste texto. Lá, especificamos que conversão poderia ser basicamente a mudança de um estado. O exemplo mais simplório foi de que se converte água para vapor. O que detectamos aqui é tão somente a ideia e conceito de adesão. Aquele cidadão grego do mundo antigo, que em algum momento de seu dia, ao passar pela ÁGORA(Praça), se depara com um determinado orador-pensador. Ali, ele se sente identificado com suas ideias e acaba por sinalizar sua adesão à filosofia de tal pessoa. Repetindo mais uma vez não houve conversão e sim adesão.


O que acabamos de tratar no parágrafo anterior. E dado que o caráter historicamente transitório da ruptura do mito pelo pensamento racional, é ainda muito embrionário. Qualquer tipo de tratativa nesse quadro que se posicione com o objetivo de estabelecer com base num quadro geral de dados levantados aleatoriamente e que desconsidere, tanto o lugar e valor da intuição mítica quanto esta mesma intuição sem o elemento formador do LOGOS, permanece sendo uma atitude aleatória e “cega”. Ou seja, uma conceituação lógica sem o mito, sem o núcleo vivo da “intuição mítica” originária, permanece vazia de sentido (JAEGGER, Paidéia. Ibid p. 192). É apenas e tão somente a partir de um claro e nítido desenvolvimento da Filosofia Grega que, desde uma visão historicista, e considerando este processo como um processo de racionalização progressiva da concepção religiosa do mundo implícita nos mitos (JAEGGER, Paidéia. Idem p.192)


Doravante, procurarei ser um pouco mais ousado e dessa vez pretendo utilizar uma passagem bíblica. Porém, continuo com aquele entendimento que ainda não é o momento de falar em religião, ou de uma possível e provável ética religiosa. O texto a que me refiro é Atos 19:1-7. Ali há a narrativa do encontro de Paulo com alguns discípulos, e é bom que se esclareça que, num primeiro momento, a referência a discípulos não especifica o possível mentor ou mestre deste grupo.  para ser mais específico conforme o verso 7 deste capítulo, eles eram em número de 12 homens ou mais. Pois bem, neste encontro ocorrido na cidade de Éfeso. O apóstolo pergunta se estes homens já tinham recebido o Espírito Santo quando creram. Se levarmos em consideração que eram discípulos de João Batista, eles creram no que João pregou acerca da chegada do Messias (João 1:21-27). A resposta foi bastante inusitada e surpreendente: Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo. Seguida desta resposta o apóstolo propõe  uma segunda pergunta: Em que batismo fostes batizados, então? Eles então responderam: no batismo de João. Está claro com a resposta desses discípulos que o batismo a eles admnistrado diz respeito muito mais a um tipo de adesão ao grupo daquele mestre ou rabi, neste caso, eles eram discípulos de João, o batista. Muita coisa se explica também pelo tipo de adesão daqueles que se dedicavam a seguir João Batista. Sua pregação era muito contundente do ponto de vista ético-moral. Aderir a comunidade ou grupo dos discípulos de João exigia dos mesmos uma vida de rigor ético e moral. Já nesta época o povo se via cansado e descrente de tanto pecado e da corrupção das autoridades. Muitas dessas comunidades se formavam com o objetivo de proteger suas famílias e crenças. Com o tempo, as comunidades cristãs também foram se formando, isto já no primeiro século. Os evangelhos canônicos são exemplos disso. Entretanto, quero crer que a comunidade dos discípulos de João Batista precedia no tempo as comunidades cristãs. O elemento balizador para que alguém fosse chamado de cristão era sim fazer parte de uma dessas comunidades. E claro, o batismo era o rito de iniciação para que o cristão desse período fizesse parte de uma dessas comunidades. Fora essa questão de um rito de iniciação, quando aqui aludimos àquelas escolas filosóficas do período clássico grego. Aqui também se verifica este mesmo movimento de formação dessas escolas. Apenas com um ingrediente com tendências mais religiosas e apocalípticas do que um movimento filosófico. Não é pra menos, afinal, desde o período do segundo século AC, até o segundo século DC, nos deparamos com uma espécie de piedade judaica. Com isto muitas comunidades se formam no seio do judaísmo. Algumas delas mais radicais que outras a ponto de se isolarem no deserto, como é o caso dos essênios.


Fica também um pouco mais claro com a pergunta do apóstolo Paulo a estes discípulos de João que o diferencial para a caracterização que distingue uma comunidade cristã de uma comunidade não cristã é a relação com o Espírito Santo. Está claro que o Espírito Santo, enquanto pessoa que age eticamente no seio do povo de Deus, é, por assim dizer, a figura emblemática da terceira pessoa da Trindade divina que se faz presente em toda e qualquer comunidade cristã do primeiro século. Por mais que uma comunidade priorize a observância da boa conduta, da ética e da moral. Não são estes elementos que fazem dela uma comunidade cristã. E sim a relação que esta comunidade precisa ter com o Espírito Santo. Aqueles discípulos ao revelarem ao apóstolo que foram submetidos ao batismo de João. Tinham consciência do peso moral e ético, assim como do elemento distorcivo do caráter que o pecado provoca no homem. O próprio João Batista no evangelho de João, capítulo 1:29, ao se deparar com Jesus que veio a ele junto ao Jordão para ser batizado, disse a seus discípulos: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Aqueles homens tinham uma consciência de grupo e do elo construído entre este grupo e a doutrina e ensinamento trazida por João Batista a eles. Quem já leu e observou a maneira como um dos discípulos de Jesus no evangelho de Lucas, capítulo 11:1, manifesta um pedido simples a Jesus. O pedido era que o mestre o ensinasse a orar assim como João ensinou a seus discípulos. Está claro que a forma de orar era elemento distintivo entre um grupo de seguidores de um determinado mestre para outro grupo. Uma das maneiras de se entender como essas comunidades existiam. É perseguir e demarcar um escopo mais abrangente de formação das mesmas. E o ambiente e contexto social, político e religioso pode e deve ser enquadrado na perspectiva daquilo que anteriormente tive o cuidado de chamar de piedade judaica.


Embora a perspectiva religiosa esteja cada vez mais próxima de fazer dos argumentos construídos até agora para o levantamento propriamente dito do que seja efetivamente o conceito de conversão e de como este conceito segue sendo utilizado para todo e qualquer tipo de empreendimento em matéria de coesão de pessoas, formação de grupos que, naturalmente e academicamente, chamamos de comunidades. Porém, vale lembrar que o que se tem perseguido até agora é o conceito de conversão que leva em conta o sentido de adesão. Aderir, é o mesmo que afirmar que quem adere a este ou aquele grupo é signatário de todos os pressupostos previamente estabelecidos como normas deste ou daquele grupo. Quando afirmei, a dois parágrafos acima, que embora estivesse utilizando uma referência bíblica(João 19:1-7) para falar da relação existente entre o grupo e seu mentor ou mestre. E ao estabelecer que neste tipo de relação se podia ver nitidamente a distinção entre um grupo, neste caso, os discípulos de João, e um outro grupo também chamados de cristãos, ou discípulos de Cristo, o ressuscitado. Também se pôde constatar que havia um determinado rito de iniciação que era comum a ambos os grupos, porém com abordagens hermenêuticas diferentes(Batismo). No caso desta abordagem diferente com relação ao batismo, o próprio apóstolo sinaliza que tal abordagem diferente para o mesmo rito de iniciação tinha relação com o papel transitório, ou de transição do que deveria ser o ministério e ensinamento de João Batista. O verso 4 do capítulo 19 do evangelho de João estabelece que nesta linha de tempo entre o que o batizador pregava e como direcionava sua pregação para o evento que viria a seguir que seria depositar sua crença em Jesus Cristo. 

 4 Mas Paulo disse: Certamente João batizou com o batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse no que após ele havia de vir, isto é, em Jesus Cristo.


A maneira como o desenlace desse papel de transição entre um discipulado e outro ocorre, é muito pouco ou quase nada explorada pelos teóricos. Doravante, toda vez que eu fizer menção ao termo teórico, pode haver uma ligeira relação com o que atribuo ao papel do teólogo. A utilização do termo ‘teórico’ dá-nos um pouco mais de liberdade nessas tratativas. Uma vez que sua utilização não está de todo subjugada a qualquer tipo de cânone religioso. Como disse, volto a reforçar esta iniciativa, embora meu comportamento tenha uma certa ousadia em se valer de referências bíblicas, a ideia ainda persiste em não se tratar especial e especificamente da religião ou de questões religiosas. Mesmo tendo ciência que existe uma linha tênue entre a linha de abordagem e investigação aqui desenvolvida. Outro dado importante diz respeito à relação que se tenta estabelecer desde uma perspectiva de desenvolvimento histórico entre os elementos que caracterizam uma escola do tipo filosófica e a comunidade de seguidores que se constitui em torno dela. E as comunidades religiosas? Neste caso, tanto as que se formaram tendo por base o judaísmo de um período que compreende especificamente desde o segundo século AC até o segundo século DC. Período onde, por intermédio do crescimento e expansão do que podemos chamar de piedade judaica, floresceu uma vasta gama de textos também conhecidos, por aqueles que ainda preservam uma cultura canônica, por pseudoepígrafos. E aquelas tipicamente reconhecidas como cristãs que se formaram a partir do discipulado cristão, ou as que deixando de ser judaicas por sucessão no tempo se constituíram como cristãs também(Sinagoga de Antioquia)*. Notamos que já no final do primeiro verso deste capítulo, o apóstolo ao se deparar com aquele grupo. O texto diz que ele encontrou alguns discípulos. Não há nesta narrativa nada que pudesse fazer e que nos ajudasse a identificar aqueles discípulos como discípulos de João Batista.   


No caso específico de Atos 19:1-7, estamos diante de uma comunidade de discípulos de João Batista. Já que conforme o apóstolo Paulo eles foram iniciados ou introduzidos para se constituir como grupo pelos ensinamentos, diga-se de passagem, bastante ético e moralista, de João Batista. Ou seja, fazer parte de um desses grupos tinha como pré-requisito a adesão a um código disciplinar basicamente inspirado nos preceitos morais da lei mosaica. O fato de o apóstolo ter iniciado o diálogo com este grupo aludindo a pessoa do Espírito Santo retrata sua preocupação com alguns fundamentos que bem esclarecidos fazem com que os que fazem parte do grupo tenham uma identificação genuína com Cristo. Mais do que isso, fazem também com que os que estão de fora saibam identificar o grupo que aquele fiel faz parte. Não é demais lembrar a passagem de Lucas 11:1-4. Naquela passagem, um dos discípulos de Jesus viu a forma como seu mestre orava. Pede para que ele também os ensine a orar. E na justificativa para tal pedido ele afirma que João Batista ensinou a seus discípulos. Aquele discípulo era capaz de identificar um discípulo de João pela forma como orava. E queria também possuir uma espécie de chave linguística de identificação para que os demais judeus ao contemplarem a forma como orava o identificasse com Jesus. Se identificarmos o batismo, apenas como um rito de iniciação na comunidade. E estabelecemos que o fiel ao se batizar sacramenta uma espécie de contrato de adesão para ser solidário juntamente com os demais membros  do grupo com todos os preceitos e regras firmados por aquela comunidade, então, o que presenciamos é uma espécie de aceite moral e ético dessas mesmas regras às quais cada membro subscreve. Ora, isso não é conversão da forma como as igrejas e comunidades cristãs-protestante a entendem. De alguma maneira e, entendendo dessa forma, há um completo esvaziamento da pessoa do Espírito Santo. Logo, uma comunidade constituída dessa maneira não é e não deve ser considerada como uma comunidade cristã. A pergunta de Paulo foi contundente ao perguntar àqueles discípulos se eles haviam recebido o Espírito Santo quando creram?


É justamente a partir da pergunta do apóstolo que se pode levantar alguns questionamentos. E o primeiro deles diz respeito à operação do Espírito. Se para tanto, a atitude do indivíduo para crer precede a sua decisão de aderir ao discipulado de uma vida com Cristo, se ela acontece simultaneamente à pregação apostólica que lhe impõe uma vida moralmente rígida. É bem verdade que, a rigor, esse texto tem caminhado, e essa opção é consciente, por uma descrição circunstancial e descritiva de uma situação ou evento bastante plausível tanto no interior de comunidades religiosas das mais variadas, assim como por comunidades que ao longo da história foram também se constituindo sem o viés religioso. Fiz questão ao me referir às comunidades filosóficas gregas historicamente identificadas e com surgimento a partir do século VII AC, que essas comunidades não eram religiosas já que o viés de leitura da realidade não estabelecia qualquer tipo ferramenta com base no mito e sim no pensamento e reflexão humana. Agora, havia pessoas no interior dessas comunidades que nutriam algum tipo de devoção por alguma divindade? Evidentemente que sim. Volto a afirmar que o que está em jogo aqui para efeito de apropriação histórica é que fazer parte dessas comunidades tinha relação com a adesão aos princípios norteadores da vida dessas comunidades. Então, que elementos podem ser colocados e que se transformam em fatores que distinguem uma comunidade constituída pelo princípio da adesão daquelas comunidades constituídas pelo princípio da conversão? Primeiro de tudo, uma comunidade filosófica é a comunidade do pensamento enquanto base de questionamento para tudo que se apresenta no mundo. Todavia, até mesmo essas comunidades tinham uma espécie de código moral ou de ética pelos quais seus integrantes ao aceitarem fazer parte delas subescreviam conscientemente aceitando e acatando suas normas.


Tive o privilégio de em algum momento de minha formação acadêmica conhecer e fazer parte de turmas que tinham aulas ministradas pelo professor Junito Brandão. Certa vez, falava ele da maneira como o gênero lírico tragédia foi aceito para fazer parte do entretenimento dos patrícios, aqueles que viviam na acrópole. A tragédia é uma arte forjada fora da Acrópole e seu surgimento é decorrente dos festivais em honra ao deus do vinho, Dionisio. Nesses festivais havia um consumo extremamente alto de vinho. Havia também muita orgia. É fato que a referência a palavra bacanal para se referir aos excessos da prática sexual leva esse nome por conta do outro nome que Dionísio tinha que era BACHO.  A integração das tragédias na Acrópole, um local associado ao culto a Apolo, pode ser vista como uma fusão das tradições religiosas e culturais. Apolo, sendo o deus das artes e da música, também tinha uma conexão com o teatro e a poesia. Assim, o teatro na Acrópole representava uma síntese das influências de Dioniso e Apolo, refletindo a complexidade e a riqueza da cultura ateniense. Por outro lado, trazer esse registro histórico acerca da história da arte grega representada por esse gênero lírico denominado tragédia e fazer referência a figura icônica do professor Junito Brandão. Tem por objetivo rememorar sua fala de que para que a tragédia realmente fizesse parte da arte e do entretenimento da Acrópole, foi necessário que ela se “Apolinizasse”. O professor Junito trouxe também para essa discussão a figura de Nietzche ao fazer referência ao processo de apolinização pelo qual passou a tragédia. Não nos esqueçamos que Apolo na mitologia é o deus do equilíbrio, da beleza, das artes de um modo geral. E um outro exemplo a ser dado e que reforça o que tem sido trazido aqui, especialmente neste parágrafo, é a tragédia de autoria de Eurípedes também conhecida como as Bacantes. É bem verdade que este texto não objetiva fazer um estudo sobre história da arte, de análise de textos literários seja qual for. O propósito aqui é discutir o caráter e efeito de uma norma. O que descrevi aqui, inclusive fazendo menção do processo de apolinização da tragédia, foi que ela para ser aceita na acrópole teve que ser enquadrada por determinadas normas pelas quais se mediam os excessos. O Metron, a medida, é o parâmetro estabelecido para se medir esses excessos, ou HYBRIS. Simetricamente falando, a  HYBRIS** tinha como referencial Dionísio, ou Bacho. Apolo, deus das artes, da beleza e do equilíbrio, é aquele que simboliza o METRON***. Ainda assim, toda essa dinâmica de análise descritiva de um período do ponto de vista de sua história e de sua estética, não se compara com o evento em que propriamente podemos relacionar tudo a um conteúdo de natureza religiosa. Isto porque, de uma certa maneira, nos encontramos nos estágios precedentes ao entendermos o que é um ambiente de natureza religiosa. Nos encontramos naquelas situações que são derradeiras, mas ainda se encontram na base dos aspectos condicionados. Nossas faculdades mentais e o característico emprego da razão ainda funcionam. O que fica de lição para efeito de entendimento a partir da formação tanto de uma comunidade religiosa quanto de uma comunidade filosófica, neste caso, quero reinterpretar Kant ao afirmar que a moralidade precede a religião (MORUJÃO, Carlos. p.54).  Eu diria que a moralidade precede a formação e a prática de ambas as comunidades, religiosas ou filosóficas.


Já foi afirmado, e de forma categórica, que a questão da moralidade precede e favorece na formação tanto de comunidades religiosas quanto filosóficas. Também foi assinalado que as inumeráveis comunidades religiosas possuíam algum tipo de ritual de iniciação. E no caso das comunidades religiosas surgidas no seio do judaísmo desde o segundo século AC até o segundo século DC, eram formatadas com base nos princípios da lei mosaica, porém produziram uma vastíssima literatura, depois cunhada de apócrifa ou pseudepígrafos. Este período não deixa de exibir do ponto de vista de sua dinâmica, como um período riquíssimo de detalhes que acabará por influenciar tantas ou mais comunidades como as cristãs desse período. Em alguns momentos,  aquelas que eram comunidades oriundas do judaísmo serão formatadas e por sucessão passarão  a ser comunidades cristãs. Neste caso, falo especificamente da sinagoga de Antioquia. Que tal como outras comunidades judaicas, dos Essênios, adotam o batismo como rito de iniciação. Porém, em substituição a circuncisão. Todavia, o grande divisor de águas entre uma comunidade religiosa de origem judaica e uma de origem cristã, está na presença sempre ativa do Espírito Santo entre os cristãos. Vale lembrar que estamos nos referindo a comunidades, ou igrejas de origens orientais. Essa excrescência conhecida no Ocidente como FILIOQUE**** inexiste neste contexto. O dogma trinitário no Oriente entende o Espírito Santo como vindo do Pai sem a mediação do Filho. Fica também claro que a questão levantada por Paulo ao indagar aqueles discípulos encontrados em Éfeso, se eles haviam recebido o Espírito Santo quando creram, era o elemento distintivo para se estabelecer se tal comunidade era cristã ou não. Neste caso específico narrado em Atos 19:1-7, desconhecer a pessoa do Espírito Santo, ou ter algum entendimento que faça do Espírito Santo uma força impessoal, ou mágica como no caso de Simão o encantador de Atos 8:17-24, é simultaneamente descaracterizar tal comunidade religiosa como comunidade cristã. Tendo como parâmetro e paralelo a intuição mítica que subjaz e fundamenta toda e qualquer comunidade religiosa. O que se  nos apresenta para efeito de declaração que caracteriza uma comunidade religiosa como comunidade cristã é a pessoa do Espírito Santo. Sem a terceira pessoa da Trindade uma comunidade cristã não é nem religiosa e muito menos cristã. Evidentemente que as narrativas dos evangelhos, especificamente neste ínterim que trata da questão do Espírito Santo, revela o elemento fundamental que caracteriza a figura da terceira pessoa da Trindade como trans histórica. São os desenvolvimentos posteriores de conceitos teológicos que marcam com mais especificidade a dinâmica de ação do Espírito Santo no seio de uma comunidade cristã e religiosa (Igreja).



TILLICH, Paul. Teologia Sistemática.

   São Leopoldo, Sinodal. 1981.


HEIDEGGER, Martin. Heráclito.

    Rio de Janeiro, Relume Dumara, 1998


JAEGGER, Werner. A Paideia


MORUJÃO, Carlos. Religião, Cultura e  

    Sociedade em Schelling.


*Sinagoga de Antioquia _ Há uma ideia subjacente na leitura do capítulo 1:13 do livro de Atos dos Apóstolos. Que ao se analisar sua estrutura analisando seus capítulos, entendem que entre o primeiro e o sétimo capítulo, a narrativa diz respeito à igreja entre o judeus. Do capítulo 8 ao 12, a igreja em transição de judeus para gentios. Do capítulo 13 ao 27, a igreja entre os gentios. Evidentemente que se chama de sinagoga, já se entende como uma igreja. (Comentario Exegetico Y Explicativo da Biblia, Tomo II: El Nuevo Testamento. p. 259.)


**Hybris _ (ὕβρις) é o oposto do Metron, significando "excesso" ou "desmedida". Refere-se à arrogância e ao comportamento excessivo que desrespeita os limites impostos pelos deuses e pela ordem natural. Na visão grega, a Hybris leva à destruição e ao caos, sendo uma falha moral grave.


***Metron _ (μέτρον) significa "medida" ou "moderação". Na paideia grega, representa o ideal de equilíbrio e harmonia, essencial para a virtude e a excelência humana. A busca pelo Metron é a busca pelo meio-termo, evitando excessos e deficiências em todas as ações e emoções.


****FILIOQUE _ Doutrina que toma corpo e forma na tradição teológica do ocidente com base nos escritos agostinianos (De Trinitatis). Neste contexto, a afirmação é de que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. 



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Referências Bíblicas.


Gênesis 3


Atos 19:1-7


Lucas 11:1-4






 


PÚLPITO FORTE, IGREJA SAUDÁVEL.

PÚLPITO FORTE, IGREJA SAUDÁVEL “Por esta causa te deixei em Creta” (Tito 1:5) Nos três versos iniciais da Epístola a Tito, o apóstolo Paulo ...