Bolha ou Massa Critica, ainda assim é possivel redescobrir Joaquim Maria Machado de Assis?

 A bolha ou massa crítica que se interpõe e interfere na relação texto-leitor-texto. A partir da obra de Machado de Assis.





Caminhamos a passos largos pelo século XXI. Estamos no limiar e final do primeiro quarto do século XXI. Já, já adentramos o segundo quarto deste século. O ano em curso é 2024. E o que não podemos nem devemos ignorar no horizonte dessa perspectiva, e a partir de nossas relações sociais, é a postura crítica de nosso tecido social. E  a razão para se manter um alerta tão crítico como este, é que convivemos ainda com um país extremamente racista. Ainda persiste entre os setores mais conservadores e elitista de nossa sociedade, pessoas que defendem um modelo de país onde aquilo que chamamos de tecido social deve estar estruturado e visto numa perspectiva estamental nos moldes da idade média. Evidentemente que dado o tipo de colonização que tivemos e a religião que o colonizador trouxe para cá, pode transparecer que tudo caminha dentro de uma normalidade aceitável: Há uma mentalidade histórica, arcaica e anacrônica patrocinada por setores ultra-conservadores que persiste e ultimamente tem se tornado resiliente  em defender esse tipo de pensamento sobre o estado moderno e a forma como a sociedade deve se estruturar. Há também aqueles que defendem uma relação que ficou provada no tempo e no espaço como uma relação promíscua. Já que a igreja, ou quem sabe, a própria religião desde uma perspectiva sócio cultural e histórica, esteve sempre de mãos dadas com o braço político do estado e vice-versa. Agora, imagine você que o nosso personagem sendo um mestiço, filho de um descendente de negros alforriados, com uma branca portuguesa, da Ilha de São Miguel, nos Açores. Sem muitos, ou pouquíssimos recursos familiares para serem investidos em sua educação. Seu nascimento ocorreu quando essa estrutura social que nós reportamos anteriormente estava em plena vigência. Foi um período marcado por grande ebulição política. Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de Junho de 1839. Vale lembrar que de abril de 1831 até outubro de 1840, o império passou por um período regencial. D. Pedro I, já desgastado no poder como imperador pela fama autoritária e absolutista de governar, resolveu abdicar do trono em favor de seu filho Pedro de Alcântara. O motivo dessa vacância de poder no trono dizia respeito à menoridade de seu herdeiro, mesmo com a abdicação de D. Pedro I, embora tenha abdicado e acionado o dispositivo que legitimou o período regencial, a insatisfação popular em nada diminuía. Foi então  que se aplicou o golpe da maioridade onde, de acordo com o texto constitucional de 1824, a coroação do imperador somente aconteceria quando ele completasse a maioridade de 18 anos.  Pedro de Alcântara foi coroado aos 13 anos de idade. Pois bem, esse foi o ambiente e contexto político em que Joaquim Maria Machado de Assis veio ao mundo. O interregno da vigência de passagem do primeiro reinado para o segundo reinado.


Conhecer Joaquim Maria Machado de Assis é muito mais do que conhecer um escritor talentosíssimo e extremamente dedicado na arte literária. E ao nos lançarmos numa brevíssima investigação histórica através dos dados biográficos de que dispomos. A começar pela primeira publicação de um soneto de sua autoria(“À Ilma. Sra. D.P.J.A.”), soneto publicado em ‘O Periódico dos Pobres' datado de 03/10/1854. É o material de que nos valemos com o objetivo de marcar o registro público e histórico da iniciação deste grande brasileiro e sua primeira publicação. Nesta época, Machado de Assis ainda era um adolescente. De posse desse registro histórico, e a julgar pela forma com que direcionou sua carreira no campo das Letras e da produção artística e literária, Machado também foi autor e crítico teatral. Sua trajetória enquanto autor teatral tem início em 1860 com ‘Hoje avental, amanhã luva’; até 1956 com As Forcas Caudinas’*.  É perceptível pelo que produziu ao longo de sua vida que foi um autor prolixo. Tendo visitado, em sua incansável busca  por uma estética literária, os ambientes mais ecléticos  e suas tendências na arte e literatura de sua época. Sua iniciação como produtor de textos literários aos 15 anos de idade, em 1854. Dá-nos o caráter longevo de sua produção, assim como assinala sua capacidade intelectiva e inventiva. Da mesma forma como Joaquim Maria Machado de Assis passeia através de sua produção pelos mais diversos gêneros literários: Jornalista, Contista, Cronista, Romancista, Poeta e Teatrólogo. Ele também faz de tudo que sai da aura de sua pena uma maneira de se reinventar e se atualizar. Os textos Machadianos são a prova, ou materialidade velada, de que ele não se submete aos parâmetros e cânones das Letras, tal como Silvio Romero¹ achava que ele deveria se submeter. Pelo contrário, ele subverte esses cânones literários, excessivamente historicista, com requinte e beleza. Com uma vasta produção literária, também carrega a alcunha merecida de escritor prolixo. Ser prolixo em Machado de Assis é passear por todos os processos desencadeados e vigentes de formação de um pensamento intelectual brasileiro. Seus textos retratam e relatam como uma sociedade é formatada e como seus cânones e princípios vão se adequando nesse arranjo social e institucional. A investigação Machadiana com esse olhar realista da sociedade, não objetiva uma leitura desde uma perspectiva estrutural da sociedade. Ela tem consciência do seu processo de formação e formatação. Ela almeja vislumbrar como através desse processo se configuram as relações humanas e quais os fatores predominantes de performance que contribuem para se forjar tanto o caráter de pessoalidade quanto de personalidade das pessoas. Em doses medicinais, diríamos com um certo requinte de intimismo e pessimismo². Os quais potencializam ainda mais suas características de escritor sarcástico e irônico.


E como já foi aludido nas últimas linhas do parágrafo anterior, a referência ao fato de Machado ter sido o escritor brilhante e prolixo. Cuja capacidade lhe proporcionou que atravessasse também já no período tardio e final do século XIX, um clima de intensa aridez intelectual. Aliado a uma uma famigerada onda positivista. Uma época em que o racismo não apenas se potencializa assim como se retroalimenta de pseudos argumentos com um falso positivismo cientificista. Sendo um literato ao extremo. Alguém que faz com que seja possível fazer uma leitura da sociedade, jamais se abstendo de referenciar aos extremos de como esta construção social acontece. Foi a maneira escolhida por Machado de Assis ao escrever Memórias Póstumas de Brás Cubas, entre os anos de 1880 e 1881, durante o período que ficou conhecido como "Realismo" na literatura brasileira. Que leva a chancela dos críticos como um romance realista, pois foi o que objetivou ao lançar este romance. Período marcado pela busca, pela objetividade e pela representação fiel da realidade, sem idealizações ou romantismos. O lado positivo dessa narrativa pautada nas investigações realistas machadianas, é o dado informativo, formativo e educacional de que embora as convenções sociais estivessem bastante definidas no âmbito das relações sociais. Onde, muito embora, cada personagem tem vida própria e se manifesta dentro desses mesmos limites estabelecidos por estas convenções. A partir dos indicadores investigativos do autor na ambientação e conformação das personagens inseridas em seus lugares de fala no texto. Há, não uma crítica formal, porém uma crítica velada dessa estrutura social. 


Além disso, o contexto histórico em que o livro foi escrito foi marcado por mudanças significativas na sociedade brasileira. Esse contexto histórico não apenas sinaliza, mas sintetiza as mudanças pelas quais a sociedade atravessa. Bem como inaugura na própria literatura um gênero bastante comum numa sociedade que se moderniza: O foco é o urbanismo e a urbanidade dos grandes centros. Uma referência ao Rio de Janeiro por ser a capital do decadente império. Com a abolição da escravidão em 1888 e a proclamação da República em 1889. Esses eventos tiveram impacto na forma como a sociedade se organizava e que eram reflexos, e não poderiam deixar de ser, da literatura da época. Memórias Póstumas de Brás Cubas é considerado uma das obras mais importantes de Machado de Assis e foi escrita em um momento de transição na literatura brasileira, que buscava novas formas de representar a realidade e explorar temas como a morte, a decadência da aristocracia e a crise de valores morais. Por conta de toda essa onda avassaladora de transformação,  Machado de Assis foi pioneiro em explorar temas até então considerados tabus, como a loucura, a sexualidade e o adultério, revelando uma coragem em desafiar as convenções sociais que abrem caminho para novas formas de expressão literária, tornando-o um verdadeiro visionário de sua época. "Memórias Póstumas de Brás Cubas", escrita por Machado de Assis e publicada em 1881, é um romance que oferece insights sobre a sociedade brasileira do século XIX. Neste textos machadiano estão alguns elementos que podem ser considerados indícios das transformações sociais que culminaram na abolição da escravatura e no advento da República. São elementos convergentes que por si só refletem algum tipo de insatisfação social. Reproduzem uma crítica velada à aristocracia e à elite. O próprio defunto narrador e protagonista da narrativa pertenceu à elite social de sua época e desfrutou nababescamente de seus privilégios. Todavia não se furta a uma narrativa irônica e satírica no sentido de expor as falhas dessa classe social, questionando sua relevância e moralidade. A obra também retrata o Brasil escravista com requintes de crueldade e desumanização que são inerentes a sistemas escravocratas. As tensões sociais e a hipocrisia da elite são vislumbradas pelo envolvimento do protagonista com mulheres casadas, como por exemplo: Virgília. O narrador não deixa de satirizar o pensamento científico da época. Sua espirituosidade inventiva funciona numa leveza tal que foi capaz de criar uma filosofia fictícia denominada “humanitismo”. É a constatação desde uma perspectiva estética e criativa que assinala as mudanças intelectuais e sociais em curso. O narrador também não se faz de rogado e lança sua crítica à política. Neste caso, ao se aventurar pela carreira sem obter sucesso, retratando desta maneira as oscilações e a instabilidade do sistema político. Consequentemente, o romance não se furta ao questionamento e a busca por mudanças no sistema político.  "Memórias Póstumas de Brás Cubas" oferece uma visão crítica e multifacetada da sociedade brasileira, já no final do século XIX, apontando para as transformações que moldaram o futuro do país.


Além de seus críticos contemporâneos. Além de uma densa massa crítica que se constituiu ao longo dos anos sobre a vida e a obra de Machado de Assis. Crítica esta que ainda haveremos de nos reportar com um pouco mais de detalhes nesta reflexão. O que de mais desagradável poderia acontecer nestes tempos de efervescência das mídias sociais. Foi o fato de que através de uma TikToker norte americana, foram feitas algumas referências a genialidade do Bruxo do Cosme Velho. De tal maneira foi a repercussão, que fez com que este autor viesse novamente fazer parte do nosso cotidiano e com extrema relevância. Isto porque é muito comum fazer referência a Machado de Assis apenas nos ambientes acadêmicos. Aliás, porque viralizou a postagem dessa TikToker, é que ele está fazendo parte do nosso cotidiano, sabe-se lá por quanto tempo. Por outro lado, o fato de que todo esse encanto por Machado de Assis e sua obra, tenha ocorrido por conta de uma feliz coincidência em que uma influencer estrangeira e de fala inglesa tenha levantado essa lebre ao se encontrar enquanto leitora com Memórias Póstumas de Brás Cubas. E dar testemunho público em sua rede social acerca de sua genialidade, bem como da atualidade de seus textos. Mostra a força de uma autor que tem luz própria,  e que embora seja muito celebrado e cerceado academicamente. Ele consegue capitanear e arregimentar por meio de Memórias Póstumas de Brás Cubas, uma multidão de leitores. Foi o que aconteceu de uma hora para outra, ao viralizar nas redes sociais quão grande e quão imponente , a figura do escritor brasileiro Joaquim Maria Machado se constitui por meio de sua genialidade, como dono do reino da fantasia e da ficção. Que por décadas permaneceu e permanece assim nos centros acadêmicos, até que de uma hora para a outra, algum tipo de milagre aconteceu. E como uma daquelas eminências pardas aparece como se tivesse ressurgido das trevas, ou do ostracismo. Esse talvez seja um dos pontos em comum que existe entre as redes sociais e a relação delas com os mortos vivos, pode ser até que essas redes sociais ressuscitem milagrosamente esse tão famoso e aclamado defunto morto. Mas, chega dessas manifestações e sentimentos  lúgubres que tomam conta do nosso ser. É evidente que em algumas situações, há uma tendência maior, quando se trata de redes sociais, de viralizar, ou quem sabe bombar, ou até mesmo, para quem é natural daquela região do nordeste mineiro, POCAR(Quem é de lá vai entender o que estou dizendo). Entretanto, aí vale uma ressalva para outro tipo de reflexão que, por ora, pretendo desenvolver neste texto. E ela está enquadrada desde uma perspectiva em que somente aqueles que têm conteúdo, substância e, porque não dizer, uma robustez intelectual tamanha, são capazes de aferir criticamente pesando de um lado o conjunto da obra, ou alguma obra específica. E de outro lado toda a massa crítica construída acerca deste genial autor. É fato que ambos os lados sobrevivem e se projetam para um tempo fora do tempo, para a posteridade. Ao mesmo tempo que provoca por parte daqueles que se encontram alheios a estes embates, e, em algum momento, se deparam com uma de suas obras específicas, ou o conjunto delas. A sensação de pertencimento continua a mesma. Este tipo de pensamento pode ser sim criado por este autor genial chamado Machado de Assis. Foi isto que ele provocou nesta TikToker, apenas pelo encontro dela com uma, ou a mais brilhante obra produzida em prosa na Língua Portuguesa(Brasileira), e segundo alguns críticos através de uma brilhante tradução. 


Por ser o aniversariante mais ilustre desta semana, 21/06/1839, ocasião em que este texto foi redigido. O sentimento é,  ou deveria ser, de brasilidade. O Afrânio Coutinho sempre foi um ferrenho defensor de uma autonomia de tal monta do nosso vernáculo, que certa vez afirmou não ser nada demais chamarmos o nosso vernáculo que tradicionalmente atende pelo nome Língua Portuguesa, de Língua Brasileira³. Que ninguém se ofenda, mas a forma como nosso vernáculo foi forjado desde o encontro com o colonizador que para cá o trouxe no longínquo início do século XVI. As influências e injunções que a ele foram acrescidos quando esta terra se tornou caudatária de várias culturas, mas, acima de tudo, pelo potencial envolvimento e evolução de uma percepção estética caracterizada pelo barroco. Até mesmo aqueles mais conservadores que de forma veemente negam e são contrários ao tipo de ruptura que pode ser desencadeada pela nomenclatura  ‘Língua Brasileira’**, ignoram que o tipo de ruptura que jaz entre nós não aconteceu de uma hora para a outra, e que nenhuma análise de caráter apenas historicista é capaz de explicar. A prova disso são os caminhos trilhados pela literatura desde o momento em que os primeiros colonizadores aqui pisaram e o tipo de literatura que por aqui se desenvolveu. 


Não faz muito tempo que assisti a uma entrevista de João Cezar de Castro Rocha, e ele ao falar da genialidade de Machado de Assis, e da forma como essa genialidade se constrói  e se verifica no conjunto de sua obra. Foi categórico ao afirmar que Machado de Assis é um Autor-Matriz. Por conta disso, toda a produção literária de Machado de Assis e o acervo crítico construído em torno dessa produção, pode dificultar o acesso àquele leitor desavisado. Qual seria então o principal fator de construção dessa fortuna crítica e por causa de que ela dificulta o acesso do leitor? Pois bem, neste caso, há um elemento chave que, por conta das leituras críticas decorrentes do texto matriz, proporciona a geração de textos diversos e com amplitude e alcance inimagináveis. Até que cada leitor e o universo de suas leituras lhe servem como parâmetros por linhas de sucessivas comparações com outros textos e de outros autores. Grosso modo, chamamos isto de intertextualidade. Bakhtin, mais tarde, já no século XX, vai identificar em suas investigações alguns desses elementos. E haverá de formatar suas investigações constituídas basicamente em tipologias de discurso,  na prosa, de um modo geral, identificando elementos de diálogos entre texto e leitor. Sendo que, uma vez que nos encontramos entre enunciados mais simples que trazem consigo o conceito de oralidade, e que a partir de sua reprodução estética acabam se revestindo de uma maior complexidade, é, por assim dizer, a passagem da oralidade para a escrita⁴. Um texto literário sem leitor para nada vale. Analisando a questão dessa maneira, a trajetória literária de Machado de Assis, dado a seu grande acervo: Poesias, Contos, Romances produzidos tanto na primeira quanto na segunda fase, é, não apenas um ponto fora da curva se considerarmos o marasmo em que se encontrava a produção intelectual e literária do país em sua época⁵. Assim como um fator positivo de oxigenação às produções literárias da segunda metade do século XIX e próximas à virada para o século XX. O que o conjunto da obra Machadiana provoca com extrema relevância a crítica de seu tempo, é uma crítica calcada na materialidade de uma produção literária de peso. Não a crítica pela crítica patrocinada, por exemplo, por Silvio Romero. Além do fato de que é pela relação estabelecida entre texto e leitor que acontece o diálogo, com isso, a obra está pronta para ser reescrita. A escrita machadiana, principalmente a de sua segunda fase permite qualquer tipo de análise com base em uma teoria positivista do determinismo naturalista⁶. Todavia, antes que tudo isso possa acontecer, é de vital importância que a obra propriamente dita de Machado de Assis seja seu principal cânone para a massa crítica e não o inverso. Somente assim se pode estabelecer a boa e velha relação entre leitor e texto.


Mas, existe também aquele momento em que texto e leitor já não se encontram mais em um lugar comum. A partir daí, aquela parceria que poderia ser firmada, ou até mesmo uma cumplicidade pelo grau de envolvimento entre leitor e texto fica também comprometida. Pode até ser que uma dificuldade como esta seja inevitável. Pois, é ponto pacífico que Machado era alguém que conseguia e consegue gerar naturalmente uma fortuna crítica sobre suas obras. É daí que João Cezar chama Machado de Assis de autor-matriz. O qual, acumulou ao longo dos tempos uma grande massa de críticos fazendo, em muitos casos, com que seus leitores se vissem mais envolvidos pela leitura de uma densa crítica que se construiu sobre sua obra do que com suas obras propriamente ditas. Aquele encontro entre leitor e texto que chamei de ‘Lugar Comum’ só vai existir se essa tão densa bolha de massa crítica for furada.  Talvez por isso, Machado de Assis se mantém sempre atual. Precisamos também nos apropriar desse conceito de atualidade em Machado de Assis. Ser atual não tem relação com qualquer carga de compreensão e sentido que suas obras inspiram. Ser atual significa que sua imensa produção literária ainda se encontra timidamente explorada. E o trabalho ou projeto a ser tocado agora demanda uma expertise em áreas de investigação de tipo e caráter investigativo e até mesmo arqueológico, já que se percebe a sobreposição de camadas formadas por essa densa crítica. Quem sabe até mesmo de uma forma simplória, jocosa e contingente do dia a dia, nos comportamos tendo como MODUS OPERANDI o trabalho de um garimpeiro na busca pela sua pepita de ouro. É perfeitamente factível que também lançamos mão de conceitos geométricos, pois objetivamos  uma analogia que esteja a altura, para efeito de compreensão e contextualização dos textos machadianos. Uma referência a circunferência tem alguma razão de ser se observarmos que nos referimos ao formato de uma bolha. Desta maneira, ao visualizarmos no tempo tanto a necessidade em estabelecermos alguns critérios básicos para a análise de um objeto formalmente reconhecido e, a noção em perspectiva desde fora, considerando o ângulo de penetração e toda sorte de elementos ou pontos tangenciais passíveis de estar em comum acordo com traços de possíveis retas e seus quadrantes de origem. Apenas com e a partir da ideia de   visualização que compartilhamos, aliada a necessidade de um ângulo de penetração, é que efetivamente posso dispor de parâmetros que me proporcionam dimensionar a densidade ou não da massa crítica no interior da circunferência(Bolha). Só assim terei o senso de localização espacial entre os quadrantes que compõem a complexidade, amplitude e tamanho da circunferência. Mas, todo e qualquer procedimento dessa maneira são e devem ser circunstanciais. Eles são por assim dizer fatualistas⁷. Se elevarmos estes procedimentos a primeiro plano, como se fazia no século XIX, corremos o risco de fazer com que a historiografia seja mais histórica do que literária⁸. 


A capacidade com que este autor transitou pelos meandros do poder de uma sociedade deveras elitista. Marcadamente aristocrática e escravista, marca também como sua qualidade intrínseca a busca pela relevância naquilo que explora, investiga, bem como pauta a construção de seus periodos e frases curtas, as quais alimentam aqueles  diálogos carregados na dosagem certa, e sem fugir à norma normatizada pelos cânones da  gramática. É o realismo de seu tempo.  Boa parte dessas narrativas são em terceira pessoa. É o tipo de estratégia fantástica e ponto de inflexão na literatura, bem como o fim de sua primeira fase e início da segunda fase de inserção na literatura. E é nesta fase que se sobressai muito mais sua genialidade como romancista de ficção do que a de crítico literário. Percebe-se na escrita machadiana um valor existencial e intrínseco de literatura. Ele sabe tão bem que não se faz crítica sem história literária. E isto bem antes que os teóricos desde a virada do século XIX para o século XX começassem a tomar consciência dessa situação⁹. Sua escrita por instrumentalidade de seus textos apontam para um Brasil que ainda é um país em que os descaminhos e desencontros se apresentam como realidades esdrúxulas ante a uma intelectualidade órfã de ideias e pensamentos próprios. Um país órfão de intelectuais onde ainda se permeia do ponto de vista político e ideológico a caricatura de um poder absolutista e monárquico, porém em sua forma decadente. É neste ambiente que um mestiço chamado Machado de Assis com uma formidável capacidade de narrar e descrever situações do cotidiano pontuadas pela injustiça, traições, assim como toda sorte de  comportamentos mais dissimulados, hipocrisias generalizadas, e etc. sem que por elas nutrisse algum tipo de envolvimento pessoal. Aqueles preceitos preconizados sobre a vida e a modernidade com aquela pitada de relativismo. Este foi, deveras, o ápice ou apogeu ficcional Machadiano. É também o início do que haveria de ser reconhecido mais tarde como romance realista. A principal obra dessa fase é Dom Casmurro.


Esta fase marca também a guinada do autor, deixando para trás a era romântica e idealizada de seus textos para uma iniciação com base nos conceitos de natureza antropológica. Ou seja, a migração do teocentrismo para o antropocentrismo. Agora, a despeito de todas estas injunções de caráter analítico e  a referência explícita ao maior escritor da Literatura Brasileira. Tem-se por certo que  Machado não se constitui como mestre da língua e literatura brasileira para ficar neste ostracismo obscurantista do qual estava tomada a sua geração do final do século XIX. Agora pouco fazíamos referência ao conceito de literariedade que toma forma do ponto de teórico e estético no início do século XX. Mas essa literariedade embrionária na escrita machadiana de final do século XIX que o manteve vivo e capaz de superar pesados golpes oriundos de seus críticos. Seu talento alcançou a dura pena o reconhecimento que lhe era merecido. O sintoma de que Machado de Assis era alguém à frente de seu tempo se traduz pela forma com que Silvio Romero se propõe a analisar e criticar o conjunto de sua obra¹⁰. Dessa maneira, e por causa de sua origem MESTIÇA, ele deveria escrever como todo brasileiro faz já que a qualidade de ser mestiço, na realidade é um ingrediente a mais para suas limitações. De uma hora para a outra, a genialidade de Machado de Assis esbarra em conceitos mesquinhos de caráter elitista e racista. Houve um esforço tamanho e desproporcional por parte desse genial escritor para se manter sereno e devidamente consciente, não de suas limitações, porém das barreiras que sempre são impostas àqueles que pensam, do ponto de vista crítico, fora da curva. Significa afirmar que a natureza de seus esforços e o que foi capaz de alcançar por meio deles é equiparado a uma obra de grande envergadura. Um verdadeiro operário da palavra. Ele opera e administra suas construções e textos, porém não deixa ou se desvincula de seu tempo e das mudanças que observa neste mesmo tempo. E quando o tempo muda trazendo consigo uma gama de elementos e variações, ele também os acompanha sempre  se adaptando.  Um verdadeiro camaleão de notório saber que com sua flexibilidade no trato com as palavras molda a forma para adaptá-la a novos conteúdos. E o novo se apresenta sem que seja capaz de extrapolar aos limites previamente estabelecidos pela própria moldura. 


Mas, o que seria falar de Machado de Assis se não fossem os seus críticos. Mesmo a crítica pela crítica. Até mesmo a crítica desconexa e desvinculada de qualquer contexto ou que não perceba o contexto de sua inserção. Pois bem a crítica que poderia ser oferecida a Machado seria do ponto de vista moral se houvesse alguma condescendência aos elementos de transgressão moral imposto pela sociedade de sua época a maneira como seus personagens se comportam. Mas, a forma como seus personagens se comportam refletem o realismo ou a realidade social de seu tempo. É com este tipo de leitura tendo ciência do ambiente social e cultural deste tempo, isto é, o tempo de leitura  Machadiana, que abordamos quando nos entregamos a leitura de seus textos? Pode ser que sim, pode ser que não. Mas, o que efetivamente importa nesta leitura, a julgar pela forma com que se propõe fazer, revela bastante subjetivismo da parte de quem a faz. Tendo feito a referência sobre o seu realismo da segunda fase do autor. A radicalidade deste realismo a partir do momento que deixa pra trás romantismo, teocentrismo  e se lança numa abordagem antropológica e atual. Pode ser até que haja margem para uma adequação filosófica onde a questão do essencialismo fica remetida à segundo plano em nome de uma abordagem existencial. Desde que começamos esta reflexão temos apontado os sinais de transformação que apresentam os textos Machadianos. Fizemos menção de sua primeira e segunda fase enquanto escritor. Com isso também apontamos para a evolução de seus escritos. O que deveria fazer então a crítica dita especializada em suas obras, em especial, seus críticos contemporâneos (Silvio Romero)? Eles deveriam trilhar ou tentar acompanhar a evolução literária dos textos do Bruxo do Cosme Velho. Já fizemos referência de que isso não aconteceu. O que acontecia com esta crítica do final do século XIX é que estava totalmente envolvida por um conceito chamado monismo. Uma espécie de cânone monolítico e centralizador, que só é capaz de ver a literatura por um aspecto. E que é julgado como principal. Por outro lado, não existe aspecto principal na literatura¹¹. E, no caso do cenário brasileiro, podemos chamar este monismo como um sistema castrador. O estudo da literatura precisa ser feito de maneira global. Somente assim essa tendência monista é eliminada. Se alguém como Silvio Romero se propõe a escrever como critico uma História da Literatura Brasileira, é evidente que deve ter como parâmetro a existência de uma língua brasileira. E a construção de uma identidade nacional passa pela constituição de uma literatura autônoma, nao nacionalista. Mas, o que se viu foi uma excessiva influência da literatura europeia. O que acabou se transformando numa regra. O parâmetro pra se dizer que nossas epopeias, nosso lirismo, nosso romance, nosso conto, são bons ou mais é a influência dos clássicos nesses generos¹². Historicamente sabemos que do ponto de vista de além mar, os críticos lusitanos viam nossa literatura apenas como um apêndice da portuguesa. Foi muito dolorosa a ruptura que foi feita desse cordão umbilical. Foi feita, e ela tinha realmente que ser feita. Além da referência de nossa literatura como apêndice da literatura portuguesa. Primeiro pelo fato de que de maneira abrangente, nossa historiografia supervalorizou a história dos portugueses no Brasil. E segundo por ter construído uma História do Brasil vista da Torre do Tombo¹³. 


Não se pode ignorar a envergadura intelectual de Silvio Romero. Precisamos fazer justiça a sua pessoa. Por outro lado tanto Silvio Romero, assim como tantas outras figuras que se destacavam no pensamento brasileiro de final do século XIX. Historiadores(Capistrano de Abreu), romancistas(Euclides da Cunha, em ‘Os Sertões’). E tantos outros que padeciam de um mal que tomou conta da intelectualidade do final do século XIX. Este mal era o DECIMONONISMO. Uma tendência monolítica de se explicar a literatura apenas e tão somente por elementos facilmente identificáveis como autoria, génese nos fatores exteriores do meio social, biológico,  geográfico, histórico. Foram com estas ferramentas de leitura e análise   que Silvio Romero, apesar de ser o maior ícone da intelectualidade no Brasil dessa época, que se propôs criticar a obra e os textos de Machado de Assis. Uma vez que ambos foram contemporâneos e estavam juntos na fundação da Academia Brasileira de Letras como seus fundadores, Romero dedicou boa parte de seus esforços para criticar o Bruxo do Cosme Velho. Além do fato de ser uma rixa ou querela por conta de uma também crítica de Machado de Assis a seu estilo¹⁴ em um de seus artigos. A certa altura de sua obra: História da Literatura Brasileira, propõe um contraponto entre Machado de Assis e Tobias Barreto. Poucos são os críticos que, a despeito do grau de capacidade e performance em suas áreas do conhecimento, que introduzem o elemento contingencial pautado pelo racismo do qual estas duas figuras se viram envolvidas e contra o qual, a seu modo, lutaram. Falam mais do tipo de rivalidade que objetivamente acontece entre a Escola do Recife e Escola do Rio de Janeiro(A escola da corte). Ambas tendo a frente pessoas do quilate de Tobias Barreto e Machado de Assis respectivamente. Pois bem, o Silvio Romero em sua introdução a História da Literatura Brasileira objetiva fazer um contraponto desnecessário entre as figuras de Machado de Assis e Tobias Barreto oferecendo, para efeito de comparação, a genialidade entre um e outro. A comparação é deveras desnecessária não pelo fato de se questionar a genialidade de um em detrimento do outro. Ela é desnecessária porque ambos transitam por diferentes áreas do conhecimento. Machado de Assis é um literato. Já Tobias Barreto é alguém que transita pela filosofia e mais especificamente pela filosofia do Direito. Por outro lado, como já foi dito antes, ele não inclui como pauta para uma efetiva discussão a questão racial da qual ambos, podemos afirmar, eram vítimas. Tobias sempre preterido em concursos públicos, embora em alguns deles obtivesse aprovação em primeiro lugar. 


Se raciocinarmos numa ótica que realmente coloque em foco a questão racial e as injustiças que ela é capaz de  submeter os negros e seus descendentes mestiços. A mim parece que a estratégia Machadiana foi muito mais efetiva e positiva do que foi a de Tobias Barreto. Parece que o projeto de Tobias Barreto buscou sempre o protagonismo como homem de Letras e das ciências jurídicas. E quando um negro busca ser protagonista em qualquer área do saber ou no meio social, aparece sempre aqueles empecilhos e contratempos para dificultar e detonar de vez seus projetos. Com Machado de Assis foi diferente, e por escolha própria, ele se auto-invisibilizou na sociedade. A literatura, seus contos, seus romances, seja qual for a fase em que os mesmos são historicamente enquadrados. Foram seus aliados neste projeto. Quem falava eram seus personagens, os quais reproduziam seus costumes, posições sociais, moralidade e moralismos. Assim como toda sorte de injustiças, traições e hipocrisias. Dessa forma Machado transitou por todos os meandros do poder abrindo portas que jamais abriria se ele, Machado, fosse o protagonista. Ele deu voz a seus personagens através de suas obras, verdadeiras obras de arte, com as quais pode construir seu protagonismo. E não há como omitir a lembrança que se tem de Aristóteles em sua obra ‘A Poética’. Uso aqui Aristóteles vinculando sua poética a Machado de Assis. Pois, Machado de Assis fez dos seus textos a oportunidade de também construir suas molduras para a contemplação pública e fruição estética. Foram essas molduras, algumas encadeadas por enredos folhetinescos que seus leitores contemplavam. Se você contempla uma obra de arte, a fruição estética está intrinsecamente ligada ao prazer de apreciá-la. Quando nos entregamos completamente à experiência, sem preocupações ou distrações, estamos no momento de fruição. A contemplação, por sua vez, conduz a esse prazer estético, reconhecendo elementos ou signos sociais na obra de arte. A percepção sensível do objeto estético, aliada ao conhecimento cultural e a subjetividade do observador,  contribui para muitas interpretações e leituras da obra, e este é o parâmetro de aferição que proponho neste momento. Do ponto de vista historiográfico geral no Brasil, há uma tendência de natureza colonial, e que se perpetua até nossos dias. Um modelo de imitação bastante europeizado. E isto tanto por parte dos artistas quando produzem suas obras de arte, quanto por parte dos críticos que utilizam como elementos balizadores de suas críticas esses mesmos modelos europeus. E como afirma Afrânio Coutinho só enxergam neles o lado revelador da imitação e, consequentemente, da importação¹⁵. Portanto, a fruição e o elemento contemplativo são essenciais para apreciar e compreender a arte de maneira profunda e significativa. ***, seja ela qual for e é capaz de perceber o realismo que ela reproduz, você acaba entrando num processo de fruição estética que lhe proporciona grande prazer. Mesmo quando a reprodução ocorre por meio de um drama ou tragédia.


Seria uma injustiça e uma atitude imprópria de minha parte se também me impusesse um limite na comparação tal como fez Silvio Romero entre Machado de Assis e Tobias Barreto. Este que se enveredou pela filosofia e Machado que foi desde sempre um literato. Resolvi então chamar para a roda o grande Lima Barreto. É sempre mais justo comparar literato com literato. E faço referência a Lima Barreto que apesar de seus problemas de ordem pessoal. Sua fraqueza pela bebida. Por incrível que pareça, ouso falar de Lima Barreto e colocá-lo na comparação, porém, jamais pelos motivos utilizados por Silvio Romero. E o fato de ter mencionado acerca da fraqueza de Lima Barreto pela bebida, não é este o horizonte da minha comparação. Senão estaria me sujeitando a cometer os mesmos impropérios cometidos por Silvio Romero ao atribuir gagueira¹⁶ e epilepsia¹⁷ como limitações impostas pelo destino a Machado de Assis e que, na lógica determinista deste crítico da literatura, os impedia de ser o que ele realmente era e sempre foi, um escritor genial. De igual modo, não foi a fraqueza pela bebida que impediu Lima Barreto de expor sua lucidez em todo momento que se propunha debater as questões de caráter social e político do país. Por ser mestiço tal qual Machado de Assis e bem mais novo, incorporou todas as agruras de sua mestiçagem assim como as levou para o debate através de sua literatura. É alguém que conduz seus textos pelos caminhos de iniciação do pré modernismo. Mas, como disse, precisei trazer Lima Barreto para esta roda por ser não apenas literato como Machado de Assis, assim como seu ferrenho crítico. Ele achava que Machado deveria, enquanto escritor, exibir uma postura de maior engajamento político e social. Desprezava o pessoal da Academia Brasileira de Letras, logo também condenava Machado já que foi um de seus fundadores e primeiro presidente. Como comparar então Machado de Assis com a figura também imponente e icônica de Lima de Barreto. Primeiramente os textos de Lima de Barreto eram cheios de registros históricos. Ele não tinha problemas em elencar figuras da República em sua literatura. Machado já fazia diferente. Ele construía uma moldura com base em tudo que percebia da vida na corte. Criava e dava vida a seus personagens com base nesta moldura. Com seus personagens fazia história, muito embora todos fossem forjados na ficção. Com diferentes olhares sobre a história e a cultura, tanto Machado de Assis como Lima Barreto deram suas contribuições à cultura e à história deste país. E fico bem mais à vontade quando alguém se propõe a construir uma história comparada da literatura brasileira comparando um literato com outro literato, jamais com alguém que também forjado neste universo de Brasil, porém que tenha visitado áreas do saber com abordagens diferentes. Acho ter sido um despropósito de Sílvio Romero comparar a genialidade de Machado de Assis com a genialidade de Tobias Barreto da forma como foi feito. 


Quando se tem em mente parâmetros que te capacitam desde uma perspectiva estética a demarcar tempo, costumes, festas, casamentos, divertimentos, os vícios, os modos de trabalho e manutenção, os meios de vida, nada melhor do que recorrer a obra de nosso maior escritor. O que Machado de Assis fez foi tão somente transplantar para a representação estética os fatos de nossa vida¹⁸. E fez tudo isso com a genialidade que lhe era própria. E é o que faz todos os grandes escritores. A materialidade de seus textos e escritos tomam forma a partir destes conteúdos. A questão que deve ser levantada agora é: Somos capazes de reagir de posse da massa crítica construída em torno da obra de Machado de Assis com uma historiografia que efetivamente preenche de sentido e plausibilidade  um texto de corte literário, livre e isento de uma típica metodologia historicista? Naturalmente que o conjunto das obras que passam a fazer parte do acervo literário de um país e, consequentemente, da história de sua literatura são passíveis, no âmbito geral, de metodologias e investigações  histórico-científicas. É normal o tipo  de enquadramento a que é submetida toda e qualquer produção textual. Uma metodologia histórico-crítica tem por princípio e aplicação o elemento comparativo, desde que seja salvaguardado aqueles vícios que comumente chamamos de anacronismos.


Para ser mais contundente, o grau de especificidade de que estamos falando pode ser visto na forma como observamos os processos tanto de formação desses textos em seus nascedouros, quanto do próprio ambiente físico caso seja um ambiente do campo ou do meio urbano. Ou a transição de um para o outro e vice-versa(Missa do Galo, conto de Machado de Assis). Ou seja, foi o que aconteceu e deu margem para inserção e enquadramento do ponto de vista da análise da segunda fase dos textos machadianos que efetivamente marca sua guinada para o romance realista. Marca também seu grau de maturidade pela evolução neles encontrada. Machado sempre foi um homem do tempo. Seja qual a situação ou status político em que se encontrasse, rapidamente, fazia deste tempo o seu tempo( Confeitaria império/Confeitaria República). O tempo de Machado é o tempo narrativo. O tom sarcástico, irônico e satírico com que lida e a maneira  como aborda tais dificuldades e situações são as bases demarcadoras para o estabelecimento e formatação dos diálogos desenvolvidos em seus textos. Não sei se o grande teórico russo, Mikhail Bakhtin, chegou ter algum contato com sua obra, principalmente os romances de Machado de Assis. Porém, se tem um elemento que caracteriza muito bem a obra machadiana e foi teorizada magistralmente por este russo é a POLIFONIA. No texto Machadiano a POLIFONIA emerge da interação entre personagens, estilos narrativos variados e as riquezas de vozes presentes nas obras. Quando se explora esses elementos é possível apreciar a profundidade da escrita machadiana.


Por outro lado, estabelecer parâmetros que levem em conta uma base teórica de análise e que analisa com suave pertinência a volumosa produção intelectual de alguém como Machado de Assis. Enche-nos de de prazer e satisfação. Tal como já foi assinalado neste texto e, por conta da densa massa crítica que se construiu sobre a obra Machadiana, corremos o risco de nos perdermos apenas e tão somente com este material. E a grande dificuldade que se nos aproxima seria o fato de nos vermos impossibilitados de desfrutarmos do que chamamos de fruição estética. A literatura é uma arte e toda arte traz consigo ao ser apresentada o sentimento de encantamento. Ela precisa ser também apreciada de forma contemplativa, uma vez que não deixa ser, conforme os antigos já tinham destacado, mais especificamente em Aristóteles, ao desenvolver em sua ‘Poética’ o conceito de mimesis(Imitatio), ou imitação.  Todavia, apenas o elemento contemplativo ou a fruição estética não são ferramentas pelas quais enquadramos e nos tornamos exímios analistas na produção textual machadiana. Li, certa vez e de forma superficial, a análise crítica que Schelling, um dos idealistas alemães, havia feito sobre a obra monumental de Dante Alighieri, ‘A divina comédia’.  O que me chamou atenção nestes comentários foi a afirmação de Schelling de que essa obra de arte de Dante era única. Portanto, o filósofo deu a entender que pelo fato de não haver qualquer outro tipo de obra que pudesse ser equiparada a Divina Comédia qualquer tipo de análise seria ou estaria incompleta. Neste caso, tem algo de muito importante do ponto de vista distintivo. E que é característica de ambas as culturas envolvidas. Estamos falando Schelling, filósofo e pensador de origem germânica, que se propõe a analisar uma obra de um autor latino por excelência. Seu objetivo é traçar as linhas básicas de seu curso sobre filosofia da arte. Para ele, tão alinhado ao conceito de ideia desde uma abordagem transcendental. Arte é o instrumento do conhecimento. Além disso, um ou mais dados de natureza filosófica, são deixados de lado, quando estamos falando, ou analisando uma obra de arte. A arte, ou obra de arte por si só, anula, e torna insuficiente toda e qualquer intuição filosófica ¹⁹.  


Que meios ou recursos dispomos, tanto para manter uma produção literária e que esteja à altura de uma literatura de qualidade como a de Machado de Assis? Machado enquanto autor literário se equipara a produção de grandes mestres da literatura ocidental. Tanto por ser prolixo, quanto por ser um literato com expertise entre os muitos gêneros da própria literatura. É inegável que, para tanto,  sua relação com os livros foi sempre uma relação quase inseparável. Sua relação e consequente  equiparação com Cervantes ou Shakespeare, deveria fazer com que seja mais acessível a grande parcela de nosso povo? Talvez, tenhamos que revisitar nossa base de alfabetização lá no ensino fundamental. Pois um certeza temos, Machado de Assis é genial é fundamental para nossa formação e para o projeto de País que queremos para nós, nossos filhos e para a posteridade deste país enquanto nação. Já falamos neste texto de como Machado de Assis se torna um autor prolixo. A qualidade de suas narrativas e a maneira como cada um de seus personagens assumem protagonismo, ou por suas falas, ou pela forma como são encontrados e enquadrados em cada contexto e ambiente narrativo. Em 2022, havia no país 163 milhões de brasileiros e brasileiras com 15 anos ou mais de idade. Entre estes, 151,5 milhões sabiam ler e escrever um bilhete simples. Já outros 11,4 milhões não sabem ou não desenvolveram essa operação básica de uso da língua para se comunicarem pela escrita.(https://agenciadenoticias.ibge.gov.br)




A cada instante os desafios se apresentam cada vez mais num viés de crescente exponencial. E as soluções que visam minimizar essa defasagem no processo de formação de nosso povo não alcançam resultados satisfatórios. A bem da verdade, e muito embora a ferramenta de que disponho para redigir este texto tem seus pontos positivos no tocante à agilização da produção textual. Uma vez que proporciona uma gama de suporte  inimagináveis, mas ela também pode fazer com que abandonemos, melhor dizendo, com que se abra mão da capacidade de pensar e refletir. É fundamental para o desenvolvimento de toda sociedade que busca ser livre, o desenvolvimento do pensamento crítico. Se tivesse que dar um conselho para a juventude hoje. Daria porque também foi o que recebi de quem veio antes de mim, é: Não abra mão de sua capacidade de pensar. É por causa da literatura que pensamos, em especial, é por causa de Machado de Assis que ao pensar busco de maneira sarcástica e irônica entender o que se passa a meu redor, no meio social de onde venho e onde tenho me mantido até este momento com relativa sanidade mental.

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*As Forcas Caudinas é uma peça teatral escrita por Machado de Assis em sua juventude, que permaneceu inédita durante sua vida e cujo manuscrito foi descoberto em 1953 por Eugênio Gomes na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, entre os velhos papéis do Conservatório Dramático, e publicado em 1956.


¹ROMERO, Silvio. 1936. p. 48


²_____ Idem. p. 48


³COUTINHO, Afrânio. Impertinências. p. 37


**Lingua Brasileira. Novamente invoco  a pessoa de Afrânio Coutinho que sinaliza a independência total de nossa literatura da literatura portuguesa. Para que existisse uma literatura brasileira e historicamente deixasse de ser apenas um apêndice da portuguesa. Tem que se fazer presente, com seus valores e tudo que por aqui, do outro lado do Atlântico, foi construido, uma Língua Brasileira.


⁴Bakhtin, Gêneros do discurso. p. 264


⁵MELLO, M. Elizabeth Chaves. Resumo, crítica literária vs. literatura crítica.


⁶COUTINHO, Afrânio. Ibid. p.152


⁷Idem, COUTINHO. p. 152


⁸Idem, COUTINHO. p. 153


⁹Idem, COUTINHO. p. 153


¹⁰MELLO, M. Elizabeth. Ibid. p. 181


¹¹Ibid, COUTINHO. p. 154


¹²Idem, COUTINHO, p. 154


¹³Ibid, COUTINHO, p. 155


¹⁴MACHADO de ASSIS, Joaquim Maria. 1944. p. 195


¹⁵Ibid, COUTINHO. p. 155


***Fruição Estética. 


¹⁶ROMERO, Silvio. 1936. p. 55


¹⁷MELLO, M.Elizabeth Chaves. p. 181


¹⁸ANFRANIO, Coutinho. p. 156


¹⁹MORUJÃO, Carlos. p. 47, 48.




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