Momentos Derradeiros na Vida de um Crucificado

 Texto - Marcos 15:33-39


Tema - Momentos derradeiros na vida de um crucificado.


ICT - Jesus agoniza ainda mais entre a hora sexta e a hora nona. Quando chega a hora nona, expira.


Objetivo Geral - Auxiliar a congregação a concatenar e ordenar as imagens que se constroem nestes momentos finais.


Objetivo Específico - Feita a apropriação dessas imagens conforme o objetivo geral, auxiliar a congregação a construir uma declaração que esteja a altura de uma confissão de fé no Cristo.




Introdução 


A temática desta palavra é propositiva e tem como objetivo central estabelecer  um parâmetro ou referencial a partir do qual tenhamos condições de construir para este tempo presente uma declaração de fé no “Cristo vivo”. E que esteja de acordo com o que se encontra registrado na escritura sagrada. O lado narrativo deste texto está delimitado por um período de três horas. Reproduz os momentos derradeiros da crucificação de Jesus como agonizantes. O aspecto redacional de como esta agonia ocorre oferece a opção de leitura desta cena como uma obra de arte expressionista onde a natureza se mostra tão solidária e participativa a ponto de gemer ou agoniza-se com o crucificado. O verso 33 é claro e sugestivo para a construção deste argumento ao afirmar que “houve trevas sobre toda a terra” durante este período de três horas.


O verso 34 faz referência a voz de Jesus, fazendo menção não apenas da intensidade dessa voz. Assim como das palavras que profere estando em estado de extrema agonia. E para que não houvesse qualquer tipo de dúvida quanto a sua fala. Já que a mesma é proferida, segundo o texto, em aramaico. Uma vez que estando em profunda agonia apresentasse um quadro catatônico, delírio, ou qualquer outra situação psicopatológica. Sendo assim, seria facilmente diagnosticado que não mais estivesse na plenitude de sua faculdade mental. O fato de o autor reproduzir esta fala e simultaneamente traduzi-la. Mostra que no exato momento que o Cristo agonizava tinha tinha também plena consciência de tudo que acontecia a seu redor.


Por outro lado, boa parte daqueles que ali se encontravam não tinham qualquer noção do efeito significativo da fala do Cristo. Ao afirmarem que clamavam pelo profeta Elias repercutem a noção da dimensão de como entendiam e interpretavam esta fala oriunda da Cruz. Basicamente um entendimento desconexo e desencontrado. Pode até ser que seja pela a forma como estes sons foram proferidos. Era alguém que, após ser  submetido a tamanhas torturas na base de um intenso, humilhante e vexatório sofrimento público.  Já se encontrava combalido em suas forças e capacidade de articulação e prolação do som por meio do aparelho fonador. O autor se encarrega de traduzir sua fala repercutindo um diálogo com o leitor do texto. Mas, O relato do fato, por sua caracterização Ex eventum, notifica a completa incompreensão dos que ali se encontravam. Assim como denuncia a completa desumanização daquele espetáculo. Aquelas pessoas não são solidárias com o sofrimento daquele que padece na cruz. E por isso são capazes de afirmar: “Ele clama por Elias!


Não vou me prender tanto a este dado informativo. A Bíblia de Jerusalém, um texto publicado por uma editora católica mostra a confusão dos que ali se encontravam assistindo a crucificação de Jesus. A grande maioria era composta por soldados romanos e de fala latina. A confusão é gerada pelo jogo de palavras, sendo que a versão de Marcos se vale da tradição do texto em aramaico. Mesmo assim, dada a origem dos guardas romanos, o próprio texto afirma que esse jogo de palavras era passível de ser confundido com a expressão hebraica HELOHIM, sendo que o registro textual era HELOI, em aramaico. Não sei se todos que entrarem ou entrarão em contato com este texto, conhecem ou já ouviram falar do KARIBS*. É o dialeto autóctone das Antilhas. Esses povos nativos chamavam o mar do Caribe de caraíbas. Reza a lenda que Colombo ao desembarcar por aqui chamou estes nativos de canibais por terem nessa expressão ‘Caraíbas’ uma forma de se referirem ao mar. Ao que transparece a forma desconexa pelo uso gerou bastante desencontros sobre a fala de Jesus em seu sofrimento na Cruz.


É tão verdade a fala de que Jesus mesmo agonizando na cruz gozava perfeitamente de suas faculdades mentais. Que a atitude do soldado ao embeber  uma esponja com vinagre. Mostra que sua atitude tinha como objetivo dopá-lo, entorpecê-lo com objetivo de aliviar as suas dores incessantes. Porém, Jesus ao soltar um grande brado. E para este brado, não há nem pode haver uma tradução tal que reflita em sua plenitude a dimensão dos sentimentos contidos neste brado. Ele denota todo e qualquer sentimento. Toda e qualquer expressividade que se origina na miséria humana ocasionada pelo pecado.


Se há um texto, ou versículo que Ilustra bem este momento de dor e sofrimento na literatura bíblica do Velho Testamento é o verso 2 do capítulo 53 do livro do profeta Isaías. Podemos sim estabelecer um paralelo entre este texto do Antigo Testamento. Pois, especialmente neste verso, o profeta ao estar falando do servo sofredor, ele é capaz de falar na situação em que o servo estivesse sofrendo. E afirma que “quando olhávamos para ele nenhuma beleza víamos para que o desejássemos.”


Toda essa forma como as imagens estão aqui ordenadas assinalam. E conforme o Texto ocorre num espaço de três horas. É consequência do nosso pecado e de nossa impiedade. Vale o esforço para nos concentrarmos mais nesta relação estabelecida com o capítulo 53 do livro do profeta Isaías a partir desses elementos dantescos descrito pelo evangelista na crucificação do Cristo. Quem sabe oportunamente possamos nos debruçar sobre esta alternativa.


Por ora, o que nos interessa e que prevalece como foco nesta reflexão é a atitude, melhor dizendo a declaração feita pelo centurião romano ao presenciar e presidir a execução da pena imposta aos crucificados e dentre estes crucificados está Jesus


Esta narrativa de Marcos sugere que há uma simetria temporal e simultânea entre o brado forte seguido da morte de Jesus, com o que acontece no templo em Jerusalém, quando véu do templo se parte de alto a baixo. Um homem moribundo que recebe a aviltante pena de morte romana(crucificação) ao expirar deixando esta vida. Ao que parece, caso ainda não tenhamos sofrido todo e qualquer tipo impacto sobre sua vida e mensagem, que podemos elencar este tipo de simetria como eventos aleatórios. 


O objetivo até aqui de apontar alguns elementos que podem passar despercebidos da leitura deste texto. A tentativa de, na medida do possível, procedermos com uma montagem cenica e descricionaria dos relatos deste texto. E dada a simplicidade com que o autor, em seu aspecto relacional constrói esta narrativa. São fatores que favorecem e auxiliam neste empreendimento.


Entretanto, o que vai nortear a partir de agora o foco de leitura e interpretação da narrativa deste texto, é a fala ou declaração do ilustre desconhecido que atende pelo nome de centurião. Não consta de minha parte que o substantivo ‘ilustre’ por mim utilizado possa fazer parte do meu lado sarcástico. Pois um centuirião era uma autoridade, um cargo de alta patente no exército do poderoso império romano.  




I - Precisamos pensar na relevância  ou não dessa fala ou afirmação.(V.39a)


E ela tem o caráter de fala ou afirmação por não se caracterizar por uma declaração de fé. Outra informação por demais importante é o fato de que aqueles que assistem a execução da pena de morte impetrada conforme a lei romana aos malfeitores, são, pela ordem o comandante(Centurião) e seus comandados, os soldados romanos. Eles estão ali para dar cumprimento a sentença e se certificar de que a sentença foi cumprida. Porém, como se pode traçar o perfil de um centurião romano além do fato de que se trata de um militar de alta patente e que tem à sua disposição o comando de exatos cem homens. Do ponto de vista da hierarquia é alguém que se encontra em uma posição privilegiada na cadeia de comando do maior exército do mundo em sua época. 


Como se falou anteriormente é ele a pessoa encarregada de dar cabo a execução da sentença de morte aos condenados. Se ele não agrediu fisicamente a Jesus antes de ser pendurado no madeiro. Com certeza consentiu para que seus comandados se valessem de todo tipo de agressão a que o Senhor Jesus foi submetido antes de ser crucificado. Basta ler o que está registrado neste mesmo capítulo 15:16-20: “Ele foi entregue aos soldados que o conduziram para o interior do pretorio”(Uma espécie de Fortaleza ou posto avancado).


É público e notório de todos que este ou qualquer outro centurião gozava de alguns privilégios na cadeia de comando e na hierarquia do exército romano. É evidente que para galgar postos na cadeia de comando não era suficiente apenas ser um grande guerreiro, já que se galgava também poder e influência política. Logo, este homem estava acostumado a transitar pelos bastidores do poder. Devia ter algum tipo de devoção por algumas daquelas divindades do mundo Greco-romano. Por ser um guerreiro quem sabe não nutrisse sua devoção por ‘Marte’, o qual no panteão dos deuses da mitologia greco-romana é o Deus da guerra. Além dessas divindades principais desse PANTHEON, havia ainda a figura do imperador, também tido como uma divindade. Ao que tudo indica, o conceito de divindade deste centurião era bastante amplo. Com isso, a relevância de sua afirmação diante do crucificado fica bastante prejudicada no tocante a sua credibilidade.


E ao considerarmos que ele se encontra na condição de executor da pena imposta sobre aquele de quem ele faz tal afirmação, o caráter divino de quem ele afirma ser divino traz consigo algum tipo dúvida. É fato de que ele está ali apenas para proceder com a execução da pena. Ele está para se certificar de que a pena foi cumprida, ou seja, os penitentes morreram.


O texto é bem claro ao afirmar que o centurião estava diante do crucificado: “O centurião que estava em frente dele”..., Verso 39a. A partir do momento que o crucificado expira é sua obrigação se certificar de que a pena foi cumprida. Por essas considerações dentre tantas outras que poderíamos trazer a lume, ou destaque quanto a declaração do centurião. Dá para se concluir esta fala tão impregnada de imperfeições, embora traga consigo uma certa fagulha, ou centelha de fogo para o entendimento sobre o caráter divino da missão do Cristo crucificado e posteriormente ressuscitado dentre os mortos.


Logo, desde uma perspectiva de fé genuína em Cristo Jesus. A fala ou declaração do centurião romano não tem e não pode ter qualquer tipo de relevância*. Mais a frente, tentaremos explicar por que esta fala é insignificante para a fé cristã. 



II - Entendendo a fala propriamente dita do centurião(V.39b)


Aqui existe a necessidade de entender tal fala e distingui-la da tradição. O  problema aqui se encontra muito mais na tradução da fala do que a própria fala. Não dá para entrar no mérito dessa tradução especificamente. E não é intenção fazer com que isto seja abordado neste exato momento. Para se ganhar algum tempo, abrindo um parêntese. Deixando ele aberto, por ora. Uma vez que precisamos avançar. Precisamos de uma ressalva para uma leitura que obedeça alguns parâmetros gramaticais, porém,  sem que seja muito rebuscada. Ela deve ser simples e objetiva. Quando o predicado não vem precedido de artigo e dependendo da posição em que se encontra. Esses dois elementos enfatizam natureza e caráter.


Lembremos o que foi dito ao final de primeiro tópico, em seu último parágrafo. Que tentaria explicar porque essa fala do centurião era e é tão irrelevante para a genuína fé cristã? E também, como foi assinalado a existência de um problema de tradução. Ao que parece, o tradutor, ainda não dá pra dizer bem ou mal intencionado, quis com sua tradução dar maior relevância do que a fala possui. Pode ser que quem traduziu tivesse em mente a heresia ARIANA. E aí para blindar o Texto de qualquer investida desse tipo de heresia no futuro tenha feito esta tradução do jeito que se encontra.



III - A declaração ou fala do centurião não vale como confissão de fé.(V.39)


Ela não vale como e confissão de fé e, pelo que me consta, não há na história da tradição e das leituras interpretativas sobre o martírio de Cristo no calvário alguém que tenha visto nestas palavras do centurião ao contemplar tanto o martírio de Jesus desde que ele fora entregue sob a custódia da guarda romana. Sua entrada no pretório e os sucessivos abusos e violência que lhe foram impostos desde este momento, não há nada que aponte um elemento sequer de que a fala deste oficial romano tenha adquirido o status de confessionalidade.


Por conta disso, nada melhor do que mais uma vez fazer referência a nota de rodapé da ‘Bíblia de Jerusalém’, que neste texto já foi mencionada. Ela traz a seguinte informação sob a forma de comentário acerca desta declaracao: “Embora o oficial romano não tivesse a possibilidade de dar a esta confissão todo o sentido que nós lhe atribuímos, Marcos vê nela, certamente, o reconhecimento que um pagão teve do caráter sobre humano da personalidade de Jesus”.


Que o centurião tivesse como elemento aferidor para o que estava presenciando na crucificação, uma mentalidade forjada no ambiente e contexto do mundo greco-romano e toda tradição mitológica daí decorrente, acerca disto já foi falado neste texto. Sao elementos encontrados neste ambiente e contexto que fazem com que desde uma perspectiva de fé cristã fazem com que identifiquemos o mundo greco-romano de onde emerge tanto a figura do centurião romano, assim como esta fala desprovida do que já falamos de confessionalidade, pelo menos cristã. É a partir destes elementos que afirmamos que a referida fala reflete o paganismo do centurião.


Como é uma declaração desprovida de confessionalidade. Não é uma confissão de fé jamais teria a abrangência, profundidade e relevância. Embora o centurião estivesse presenciando o ápice da manifestação da graça de Deus-Pai revelada na crucificação de Jesus Cristo. Nesta mesma linha, é interessante que se faça algum tipo de distinção entre o que é efetivamente uma declaração de fé em Jesus e uma fala que destaque apenas uma ou outra qualidade sobre  o caráter de Jesus.


Podemos encontrar no texto sagrado uma ou mais declarações de fé na Bíblia. Que sejam biblicamente aceitas pela Igreja? Sim podemos. Podemos até mesmo listar algumas delas: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”(João 1:29); “Portanto, se o sangue de bodes e de touros e a cinza de uma novilha aspergidos sobre os contaminados, os santificar, quanto a purificação da carne, muito mais o sangue de Cristo que, pelo Espírito Eterno se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas para servirmos ao Deus vivo!”.


Podemos disponibilizar uma terceira declaração de fé diretamente extraída da escritura. Embora reconheçamos que há tantas outras que poderiam figurar nesta lista. Talvez, esta seja a mais emblemática. Ela se encontra em Mateus 16:13-17. O texto diz que o Senhor estava chegando a Cesareia de Filipe. Ali ele resolve indagar a seus discípulos quem o povo dizia ser o Filho do Homem? Eles respondem: Uns João Batista; outros Elias; e outros Jeremias ou alguns dos profetas. E vocês, voltando-se novamente para eles com a mesma pergunta: “Quem dizeis que eu sou”?


E aí, é preciso entender que a pergunta foi endereçada aos discípulos. Mas, a confissão é de Pedro mesmo. E Jesus trata desta temática desencadeada por esta confissão como sendo do próprio Pedro. Pedro faz uma confissão ao afirmar que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus Vivente. Durante algum tempo deixei me levar pelo conceito de personalidade corporativa que é próprio da cultura e pensamento judaico. E se faz muito presente nos escritos, mais precisamente na teologia de Paulo. Por conta disso, achava que essa declaração de fé feita por Pedro, não era apenas dele, mas representava o conjunto dos discipulos, apóstolos, etc. Pelo contrário, a declaração é dele. Somente depois passa a ser a confissão de todos. E, historicamente da Igreja de Cristo.


Falo isso também como Batista e, principalmente, pela ênfase que sempre damos acerca da experiência pessoal. É de uma relação pessoal que construímos, ou podemos construir para com Deus nosso Pai uma relação de fidelidade. E como disse, primeiro foi uma experiência pessoal de Pedro. Que como instrumento divino foi o canal, ou meio para nos blindar com essa maravilha vinda diretamente do céu. Por meio do Pai.




Conclusão 


Ainda não dá pra dizer que os meus objetivos foram alcançados para o que me propus abordar neste sermão. Como afirmei no início desta palavra, era minha intenção me apropriar literalmente das imagens que criamos a partir da leitura e relato deste texto. Para somente depois construirmos uma confissão de fé que seja nossa em tempos sombrios e que nos sirvam não apenas de um elo de comunhão da Igreja consigo própria e com o Senhor da Igreja nestes tempos sombrios que nos encontramos. E em função de que partilhamos dessa esperança e objetivo? Para que não se perca a fidelidade para com o evangelho e o Cristo que nele está revelado.


Qual deveria, ou deve ser a nossa postura? Ela tem  que ser inspirada pela própria escritura. E que o agir do Espírito divino nos auxilie a filtrar tudo tudo que tem procedência divina do que não tem procedência divina. De certa maneira, nossa atitude precisa ter como pressuposto o comportamento e a ética dos bereianos. Porém, a vida cristã é suficientemente dinâmica para que não nos limitemos apenas e tão somente nesta atitude. Expertise e perspicácia na palavra do Senhor é uma exigência que nos fortalece juntamente com a unção do Espírito. Somente assim conseguiremos frustrar as ciladas e investidas do maligno.


Amém!!! 

Conversões ou Migrações?

 Conversões ou Migrações?



Já faz algum tempo que temos constado que as redes sociais ligadas aos setores do conservadorismo católico brasileiro têm postado uma massiva propaganda e com bastante fluidez em seus canais de acesso ao público, o número expressivo de pessoas com o discurso que se diziam membros de igrejas evangélicas e, por isso mesmo, professavam, mas não professam mais, uma fé protestante. Grosso modo, e, na maioria dos casos, após atravessarem um período de muita reflexão, segundo estes ex-protestantes, resolveram aderir à fé católica. A ênfase no testemunho dessas pessoas é de que estão voltando para a verdadeira igreja. As igrejas de onde estão saindo estas pessoas representam um leque multifacetado de contextos e situações variadas. A rigor, o panorama do protestantismo atual no cenário brasileiro, se é que devemos chamar esta excrescência de protestantismo, é sui generis. Mas é o que temos, um quadro diversamente colorido e com tendências múltiplas. E isto se reflete objetivamente nos testemunhos desses ex-protestantes. E o quadro gerador que se apresenta sobre estes denominados ex-protestantes vai desde Batistas, Presbiterianos, Assembleia de Deus, Adventistas do sétimo dia, Universal e até mesmo Testemunhas de Jeová. Pode se ver, dada a própria natureza do protestantismo ou evangelicalismo brasileiro que é uma verdadeira colcha de retalhos. Porém, um dado preocupa e não se pode perder de vista. Ainda que o objetivo deste texto não seja de estabelecer ou buscar as razões ou causas para que este fenômeno ocorra. E sequer buscaremos tabular alguns dados no sentido de estabelecer uma base percentual para que tenhamos ou não a certeza de que os referidos dados são alarmantes e preocupantes. Em algum momento, haveremos de indicar alguns elementos comuns entre as experiências variadas desses ex-protestantes, e a relação entre eles no sentido de que respondam a pergunta: Por causa de que estes fenômenos têm se multiplicado no seio do evangelicalismo brasileiro?


Mesmo que tenhamos tido algum tipo de conclusão para efeito de compreensão do problema formulado. Ainda não dá para se pensar em contra medidas por parte das lideranças protestantes quanto ao fenômeno em si de protestantes que migram para o catolicismo. Primeiro de tudo por causa da irrelevância em termos percentuais. Ao que parece é muito maior o número de católicos que migram para o protestantismo do que do protestantismo para o catolicismo. Segundo, não dá para conceder o mínimo que seja de credibilidade quando o assunto são as mídias sociais, independente de serem católicas ou não. E não é o fato de ser católico e de se pertencer a qualquer desses organismos católicos de veiculação de conteúdos que faz desses mesmos organismos plataformas sérias de propagação da verdade. Ou seja, falar em nome do catolicismo não confere autoridade a quem quer que seja. A instituição igreja católica é milenar enquanto instituição e ponto. Não a vejo e não a reconheço por isso, embora permaneça o reconhecimento dela enquanto instituição milenar,  Essa herança institucional e histórica não faz dela a igreja verdadeira estabelecida pelo Cristo dos evangelhos.


Um dado relativamente pacífico entre todos sem maiores necessidades de comprovação mais elaborada. É o processo de pulverização do segmento protestante no Brasil. Houve um tempo que se falava de um protestantismo fragmentado. Mas, isto já é passado, ele atualmente está tão pulverizado que fica difícil falar de um formato. De um corpo doutrinal, ou coisa parecida a isto. Tanto isto é verdade que ao fazer referência aos grupos protestantes de onde esses novos católicos estão saindo, abre-se um leque extremamente amplo. Assim como são amplas as razões dada por cada um destes que agora dão testemunho de terem abraçado a fé católica. E o que de efetivo pode significar para estes o fato de terem abraçado a fé católica? O efeito imediato é uma mudança radical na hermenêutica. Pois do ponto de vista básico da fé protestante significa entre outras coisas não mais olhar a Bíblia e tão somente a Bíblia como palavra de Deus. Significa estabelecer como autoridade paralela a Bíblia, a tradição e os Pais da Igreja. E atribuir uma nulidade total a princípios protestantes tais como: “Sola Scriptura e Scriptura sui ipsius interpres”. Um fato que precisa ser mencionado a esta altura do texto. Na história da implantação do protestantismo no Brasil. Diga-se de passagem, uma história riquíssima. O ponto chave que ilustra bem o que esses missionários protestantes encontraram por aqui já no século XIX. Revela uma espécie de metodologia ou modus operandi de que se valia a catequese católica. Esta metodologia recebeu a alcunha por um desses missionários protestantes que para cá vieram de Biblia Idiotorum¹, ou seja, a Bíblia dos iletrados, ou idiotas. Este dado informativo já traz consigo uma questão bastante preocupante. Pois já se passaram um século e meio e as condições para o exercício pastoral e litúrgico, pela ordem, tanto de católicos quanto de protestantes faz com que suas práticas não evoluam e permaneçam inalteradas.


Não é sem motivo que um método como este tenha sido implantado no Brasil. E que a regra valia e vale tanto para católicos quanto para protestantes. Entretanto, a motivação de um não era a mesma que a do outro. Mas, esbarravam no elemento comum que era o processo de educação e formação da sociedade brasileira. Grosso modo, falar de educação brasileira de forma monolítica não nos leva a absolutamente lugar algum. Um era o processo alavancado pela Companhia de Jesus durante o Brasil colônia e que vai de 1549 a 1759. Outro foi o processo educacional tocado a partir da saída dos Jesuítas do Brasil por ocasião das reformas pombalinas. Uma coisa que nos deixa bastante intrigados é sobre quão grande foram os desafios para um missionário protestante realizar de fato uma obra evangelizadora em um país com uma sociedade fundamentada ainda nos pilares medievais (Sociedade Estamental)*. Há uma série de anacronismos díspares se levarmos em consideração o fato de que o catolicismo estabelecido e experimentado por aqui numa rápida comparação com o catolicismo europeu do período reformador são muito semelhantes². Já dá para se ter uma ideia mais clara sobre o ambiente encontrado pelo protestantismo e de como, através do trabalho missionário, ele se estabeleceu por aqui. 


Fazer a apropriação histórica da forma como se tenta fazer neste texto. Parece um tanto quanto desconexa. O propósito de tal intenção diz respeito ao fato de que realmente está tudo desconexo e doravante sem sentido. É sem sentido o fato de que o protestantismo não se configura neste ambiente e cenário brasileiro como um movimento do século XVI de recuperação e retorno a genuína tradição cristã tal qual se nos apresenta na escritura sagrada(Biblia). E por mais que tenha havido em outro rincão deste país algum tipo de reação à sua chegada e implantação, foram situações e incidentes localizados. A rigor, não houve sequer um clima de Contra Reforma por aqui. Há até explicações bastante plausíveis para estas conclusões e não são aqui registradas pois fugiria ao escopo e objetivo de produção deste texto. Uma vez que se busca entender da melhor forma possível as razões que levam algumas pessoas de origem protestante a trocarem suas igrejas pela fé católica. É nossa intenção começarmos a responder este questionamento concluindo que o fato de haver uma mudança tão radical, ela não se constitui em uma forma trágica e traumática. Em geral, as famílias brasileiras assimilam bem este tipo de situação. 


Se não é traumática do ponto de vista das relações sociais, também não se constitui como tragédia pelo fato de que no ambiente protestante as igrejas se organizem de tal forma que aderir ou não às suas linhas doutrinárias está relacionado mais especificamente à liberdade individual de cada um. É um número a mais ou a menos. O conceito de adesão à religião não mais se estabelece através de fórmulas fixas e mediadas pela Igreja(catolicismo) tal como aconteceu na trajetória histórica de adesão do cristianismo pelas tribos germânicas³.  Porém, o principal foco que imagino ter que abordar numa situação inusitada e desconexa como esta tem uma relação bem próxima com o elemento que acaba por dar origem ao movimento reformador do século XVI. Este elemento para todos os efeitos foi o que norteou desde muito cedo o caminho de adesão daquelas antigas e rudimentares tribos germânicas que através de um longo processo na sucessão do tempo, e pelo tempo, deixam de ser consideradas bárbaras**, via aculturação de valores e oralidades, adotando o catolicismo emergente e sucedâneo da estrutura hierárquica do combalido império romano como sua religião. 


Retornando ao problema propriamente dito que me propus investigar na tentativa de entender o fenômeno das conversões de protestantes ao catolicismo. E mais uma vez, o objetivo que se mantém de pé independentemente dos dados percentuais dessas conversões, é o fato de que mesmo que fosse apenas uma conversão valeria o esforço na busca de informações. Todavia, o que chama a atenção é o fato de haver pastores tomando essas decisões. Não faz muito tempo, e para não dizer que não levo a sério os percentuais estatísticos. Um pastor norte americano que estuda a fundo este fenômeno, afirmou em entrevista a um Podcast que essas conversões acontecem com maior frequência entre jovens e intelectuais. Faço apenas o registro da informação deste pastor norte americano sem qualquer tipo de preocupação em dimensionar as circunstâncias e desdobramentos que a referida informação representa para o que se busca no desenvolvimento deste texto. Não dá pra dizer que católicos e protestantes têm aspectos que se aproximam e outros que simplesmente fazem com que se afaste um do outro. O que dá pra dizer é que ambos,  teologicamente partem de premissas ou princípios totalmente antagônicos. Por outro lado, fazer uma afirmação como esta indica que o tipo de abordagem aqui feita, obedece uma demanda e ponto de partida  com base numa perspectiva protestante. Ou seja, a dimensão vertical e revelacional também conhecida como ANALOGIA FIDEI, é o elemento norteador tanto para esta análise e investigação assim como para o conjunto dos pressupostos teológicos da tradição, se é que se pode fazer menção desta terminologia, sob a ótica protestante.


Notemos que ao se tomar este direcionamento na análise deste texto. Tal como o que foi assinalado nas últimas linhas do parágrafo anterior. Não que seja intencional da parte de quem redige este texto, porém acontece inexoravelmente uma delimitação do escopo e dimensionamento histórico no tocante a abrangência tanto dos embates e querelas entre protestantismo e catolicismo assim como neste ínterim surge uma relevante ferramenta de viés filosófico que auxilia muito mais uma leitura protestante do que uma leitura católica. Até porque, opcionalmente, o catolicismo atual de caráter reacionário e ultra conservador. Tão afeito às questões de natureza filosófica, rejeita o uso desta ferramenta filosófica valendo-se apenas do Tomismo como sua chave de leitura e interpretação. E apesar dessa referência explícita ao Tomismo, existe por parte de todos os bons teólogos do Protestantismo o reconhecimento ímpar da figura de Tomás de Aquino: “É apropriado que ele(Tomás de Aquino) seja chamado de doutor da Igreja no catolicismo romano, e não meramente um dos Pais da Igreja, uma vez que seu sistema é a mais pura expressão de uma visão católica e do mundo” (Dogmática Cristã, Tomo I, p. 55-56). Por outro lado, os intensos debates no seio da igreja desde o advento de Santo Tomás de Aquino e a introdução de Aristóteles lograram enfrentamentos acalorados entre Agostinianismo e Aristotelismo⁴. Os rumos que a igreja tomava e os seus indícios de crises até que chegamos ao que se pode configurar como escolas filosóficas do período medieval tardio _ Tomismo, Scotismo e  Ocammismo⁵.  Evidentemente que ao se mirar desde uma perspectiva de investigação retrocedendo no tempo. Este aspecto de debates acerca das crises que historicamente sinalizaram o período tardio medieval. E esse aspecto dinâmico de funcionamento da Igreja é também o parâmetro que indica que nosso olhar retrocede no tempo e para por aqui.


Retroceder no tempo ultrapassando ao ano e período de advento do protestantismo europeu, serve para entender como o germe lançado anteriormente floresce neste período de início do século XVI. E ficará conhecido como Reforma Protestante e posteriormente dando origem ao que ficou conhecido como Igreja Evangélica de confissão Luterana. O objetivo até aqui foi de fazer uma reflexão das condições que contribuíram para a chegada e o estabelecimento das primeiras missões protestantes em territorio Nacional. E que espécie de catolicismo foi encontrado por aqui a partir da chegada dessas missões e seus respectivos missionários. E já dá pra fazer uma afirmação bastante polêmica no sentido de que o catolicismo que os primeiros missionários encontraram quando chegaram aqui não era esse catolicismo que os grupos de conservadores católicos anunciam em suas redes sociais. Basta pensarmos no sistema de padroado estabelecido. Entretanto, falar apenas de padroado e não distinguir padroado régio do padroado de regalia, como dirá algum católico ultra-conservador, não contribui em nada para um debate e discussão mais séria. Não resta dúvida que explica a opção pela distinção. Mas, não altera o resultado e o teor da afirmação acima. Então, O ex-protestante que afirma estar de volta para a verdadeira igreja, a igreja católica. Deveria responder a seguinte indagação: De qual Igreja Católica você está falando? Pois, parece que estamos falando de uma instituição ou tronco monolítico e não é o que encontramos ao empreendermos uma investigação histórica mais criteriosa. Basta que olhemos de uma forma mais acurada para o que estava acontecendo no Brasil em pleno século XIX. O Regente Feijó e seu galicanismo aplicado ao contexto religioso nacional é um dado importantíssimo. Embora a partir da primeira e segunda metade do século XIX. E culminando com o início do século XX. Houve uma enxurrada de encíclicas papais que buscavam a centralidade do poder a partir do Trono de São Pedro. O ultramontanismo do século XIX sob um viés de leitura galicanista era realidade: (CAES, André Luiz. As portas do inferno não prevalecerão : a espiritualidade católica como estratégia política. Tese de Doutorado. IFCH/UNICAMP, fevereiro de 2002).


Um elemento que cada vez mais torna-se fundamental para o fortalecimento institucional de ambas as vertentes religiosas é o fator educacional. E aí é necessário olhar tanto para a educação secular, assim como se deve olhar para a educação cristã e religiosa. Tecer críticas a um catolicismo caricato como este preconizado por esses grupos ultra-conservadores católicos não foi e não é problema. Talvez numa outra oportunidade, devêssemos buscar maiores informações e registros históricos sobre a figura do Regente Feijó e como ele via o catolicismo e seus planos tanto para a constituição do Clero, quanto para a constituição da Igreja e de um catolicismo brasileiro. Porém, na direção inversa e olhando para essa excrescência chamada protestantismo brasileiro, o quadro não é nada promissor ou alvissareiro. Pelo contrário, o quadro é caótico até mesmo quando o assunto se resume ao estudo da Bíblia. Tanto um quanto outro no tocante à educação deixam a desejar. Do lado católico sua matriz educacional sempre se organizou com o objetivo de dar uma educação de excelente qualidade àpenas para os setores mais abastados da sociedade. E se pensam assim, as camadas populares desta mesma sociedade terão sempre que se contentar com uma educação de base com baixa qualidade, onde no conjunto da obra a meritocracia fala mais alto. No lado protestante não é muito diferente do que até aqui foi apresentado e que caracteriza fundamentalmente a matriz educacional católica. O protestantismo e seu envolvimento com o neoliberalismo olha sempre a questão da educação não como a possibilidade de um investimento público capaz de transformar qualitativamente a formação técnica e cultural de nossa população. Mas, olha o processo educacional como um nicho de mercado a ser explorado e onde se pode auferir um excelente nível de lucratividade. E quando se fala em lucratividade, baixar custos independente de alterar ou não os resultados e a eficiência dentro da sala de aula tratam com indiferença estes dados.


Não se pode também perder de vista que uma das primeiras expedições do protestantismo para além do continente europeu, aconteceu por aqui e ainda na primeira fase da Reforma no século XVI. Houve ainda uma segunda investida. Está na hora de substituirmos o termo investida, por invasão. E elas ocorreram patrocinadas pelos franceses e por uma simples razão. Eles não concordavam com a partilha das Américas entre Portugal e Espanha(Tratado de Tordesilhas). Essas invasões vinham chanceladas por uma visão geopolítica de disputas por novas terras. Era patrocinada pelo que foi chamado de empresa colonial. Todavia, tal como foi posteriormente, para além dos séculos XVIII e XIX, algumas das principais monarquias européias, embora a França já neste período não fosse mais uma monarquia. Ela também participou ativamente dessa empresa colonial. Eles se valeram da mesma tática de exploração junto ao continente africano. Pois montando um discurso de levar a fé cristã e a civilização ocuparam todo o espaço de exploração do continente com o objetivo de saquear suas matérias primas. A empresa colonial aqui no cone sul funcionou da mesma forma. Será que estes ex-protestantes que agora estão aderindo ao catolicismo sabem ou conhecem efetivamente a igreja e o catolicismo que agora abraçam? O que se percebe da forma como constroem seus discursos. Principalmente aqueles que estão retornando à igreja verdadeira. E a razão disso é o fato de que diferentemente do formato e génese do protestantismo ter em seu arcabouço histórico a característica de um movimento cismático oriundo de uma estrutura maior(catolicismo). Pode ser que este seja um dos motivos que atraem não apenas a curiosidade assim como também proporciona uma mudança de mente pelo convencimento de que se as coisas são realmente assim. Então esta é a igreja verdadeira. Mas, como já temos tocado neste assunto. Não dá para esquecermos o fato, e já fizemos menção dele anteriormente, de que a igreja católica não é nunca foi essa instituição monolítica como muitos crêem e querem passar para frente como uma espécie de verdade absoluta. E estes ex-protestantes que mesmo passando o tempo que passaram no protestantismo não desfrutam de uma saúde mental, quando se faz necessário o dimensionamento de nossas raízes históricas. Uma das críticas que se faz ao protestantismo é o fato de que a história, para a mente protestante de um modo geral, a história começa com a Reforma Religiosa do século XVI. Desse marco histórico para trás nada mais existe, apenas o Texto bíblico que cai de paraquedas em suas mãos. 


Então, como poderíamos trabalhar esta imensa lacuna histórica na mente de qualquer protestante. Entendemos que um dos principais problemas para o homem protestante é o fato de que do ponto de vista de sua ética, inexiste aquele parâmetro a ser utilizado e que faça com que ele se identifique com os Pais da Igreja e entenda o período em que essas testemunhas existiram, passando a assumi-los como integrantes do passado histórico da Igreja. Foram homens que assumiram o ônus na busca dos argumentos de defesa e de fortalecimento da fé cristã. Por outro lado, conhecer e se apropriar desse período histórico não torna ninguém absolutamente signatário desde uma perspectiva de fé nos escritos produzidos neste período. Alguns autores de dogmáticas protestante fazem uso, e  com naturalidade, desses autores e outros, com o mesmo objetivo acadêmico, outros não. A relação que não deve ser estabelecida, em hipótese alguma, é a de que quando nos referimos a um período como este também conhecido como Patristica, e se ele remontar em nossa memória a um período histórico entre o primeiro e o quinto século, ou a algum outro período da história da igreja, ainda não há razão para uma relação e manutenção de uma estrutura de poder que avoca para si o título de sua detentora, mantenedora, ou até mesmo guardiã, em nome de uma ortodoxia, dos princípios exarados em tais escritos. Além do mais, não é tão simples fazer referência a este período riquissimo de história da igreja. Existe a necessidade de se distinguir entre esses País da Igreja, gregos e latinos. Os primeiros tinham como principal característica o pensamento especulativo. Enquanto que os latinos eram bem mais práticos e sua mentalidade e interesse eram mais juridicos⁶.  


Este intrincado jogo na linha historicista sobre o qual se articula não apenas o arcabouço histórico do pensamento católico, como também sua base de pressupostos teológicos, dogmáticos e doutrinários. Oferece-nos a percepção de elo e continuidade  desde o passado gerador e pelo qual somos capazes de identificar esta fé como uma fé Cristológica. Pois, o passado que empodera os padres, os bispos, bem como toda a hierarquia da Igreja é o que se chama de sucessão apostólica.  A meu ver, não há problema nisto, pois se olharmos por um viés existencial onde o nível de participação pessoal está balizado pelo critério de universalidade pessoal pelo qual todos podem participar⁷. Um bom crítico católico poderá argumentar e com muita propriedade que a fé do ponto de vista de uma participação existencial exibe e inclui um elemento de risco. Por outro lado, por que não assumir também o risco de uma incerteza histórica⁸? Notemos que o que se percebe e se tenta responder de forma argumentativa é a busca constante de resolver esse passado ou lacuna histórica de que o protestantismo é acusado. Logo, é errôneo considerar o risco referente a fatos históricos como parte do risco da fé? Sim, uma vez que o risco da fé é existencial, e diz respeito a totalidade do nosso ser, enquanto que o risco dos juízos históricos é teórico e está aberto à permanente correção cientifica⁹.


Em tese a proposição e desenvolvimento deste texto estabelece pontos de partidas diferentes para quem se propõe apregoar que o abandono de uma tradição de fé em direção a outra se constitui como elemento norteador de quem agora conhece a verdadeira igreja, logo, se diz conhecedor da verdade, e se soma ao grupo daqueles que reproduzem o principal cânone de que a igreja é a única depositária da verdade revelada¹⁰. Conhecedor da verdade com base em juízos históricos como já foi dito, é o resultado de quem tem a capacidade de retroagir ao passado e se diz competente para estabelecer uma linha ininterrupta até o elemento gerador e historicizador dessa linha de tempo. Todavia, mesmo salientando todos estes pormenores que se levantam ou podem ser levantados como objeção de resultados de ambos os lados. Esse tipo de disputatio pode se tornar ininterrupto, improdutivo e o que é mais triste, caso haja um clima de disputa por grupos que buscam apenas fazer proselitismo com suas posições, gera a sensação de um tergiversar. Mas, pensando apenas nesse contexto de querer entender a situação em que pessoas oriundas dos grupos mais variados do protestantismo têm migrado para o catolicismo. O fato é que é preciso começar a concluir este texto já que a provocação para que ele viesse a lume constitui-se apenas numa investida introdutória. É evidente que, pelo menos de minha parte, fazer a conclusão ou finalização deste texto e relacionar ao mesmo uma ou mais leitura do texto sagrado, deixa transparecer que o redator do, ou autor do mesmo não tem lado. Mas, ele tem lado, pois esta leitura reflete o que sobrou ou sobra de mim numa abordagem tipicamente protestante.


É importante que se faça uma leitura bíblica que abranja tanto a tradição do Antigo quanto do Novo Testamento. No Antigo Testamento, mais especificamente a leitura de Exodo capítulo 33, versos de 17 a 23. Moisés roga a Deus que lhe mostre a sua glória. É no verso 18 que Moisés literalmente roga para que contemple a glória do Senhor. A resposta divina foi no sentido de que ele faria passar toda a sua bondade diante dele. Proclamaria o seu nome. Todavia, o que salta aos olhos nesta narrativa é o fato de passando a sua glória e bondade diante dos olhos de Moisés e o Senhor mesmo se auto proclamando misericordioso e compassivo, desta feita sem qualquer tipo de mediação. A alternativa que a Moisés é proposta com ares impositivos no sentido de que, nem Moisés, muito menos qualquer outro servo do Deus Todo Poderoso, podem ou poderão ver a face do Senhor. Se pensarmos na imagem de uma procissao quem a conduz de maneira ativa? Quem conduz literalmente o seu povo é o Senhor. E esta foi a mensagem de Deus a Moisés quando interpelado por Moisés que rogava para ver sua face. Isto, com tendo dito antes, sobre a necessidade de se fazer também uma leitura das escrituras. No tocante ao Antigo Testamento me dou por satisfeito ao fazer menção e analisar muito superficialmente o contexto desta narrativa.


Quero também fazer menção de uma passagem do Novo Testamento. Quero mais especificamente analisar o capítulo 3 do evangelho de João. O versos em questão vão do primeiro ao décimo quinto, ou seja, de 1-15. Ali um homem muito importante na vida pública do seu povo Israel. Seu nome era Nicodemos. Este foi ter um encontro com Jesus a noite. Neste encontro Nicodemos reconhece a efetiva e eficaz ação de Deus em Jesus. Ao que parece suas palavras e por causa do verbo SABER no plural, tal declaração exibe um transfundo de não apenas falar por ele, bem como por algumas das demais autoridades públicas em Israel que permanece ou permanecem incógnitas: “Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele.”(João 3:2). Chegar à fase adulta e ter a consciência de que o homem atravessou todas as etapas de tal desenvolvimento. Causa espanto e estranheza por parte de quem ouve as palavras de Jesus e estranha o fato de que é necessário nascer de novo. Foi o que o Senhor respondeu a Nicodemos quando interpelado por ele. A indagação ainda que de espanto no sentido de como isto é possível: “Voltar ao ventre de sua mãe e nascer?” Ela faz todo sentido, o que perpassa em nossas mentes e corações pelas experiências do homem esboçada em seu ciclo natural de vida, nascimento-morte-nascimento, diz respeito ao fato de que este é naturalmente o ciclo da vida. E é através desse ciclo de vida que, com tamanha regularidade, destacamos o fator inexorável do tempo.  Esse tipo de compreensão, para não extrapolar o próprio texto bíblico, já se faz presente em narrativas como do Antigo Testamento, no livro de Eclesiastes. Todo o capítulo 3 é uma reflexão sobre como o homem deve aproveitar o tempo na face da terra. Ele já começa dizendo que se as etapas no ciclo da vida forem cumpridas, há tempo para todo o propósito debaixo do Céu (Eclesiastes 3:1-22). Por outro lado, ao espanto de Nicodemos sobre a necessidade de nascer de novo. A resposta do Senhor Jesus fala de um nascimento da água e do Espírito. Entretanto, o ponto crucial deste diálogo de Jesus se destaca no verso 8. Neste verso o Senhor equipara o Espírito ao vento, já que não somos capazes de estabelecer qualquer tipo de controle sobre Ele _  “Ele sopra onde quer”. Se em Êxodo 33:17-23 está claro que é o Senhor que vai a frente de seu povo. O Senhor praticamente diz a Moisés que a única coisa que ele poderá contemplar nele é a sua bondade. Ele ainda diz “terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu tiver de compadecer.” Está muito claro, tanto pelo texto do Êxodo quanto pelo texto de João que o Deus da tradição bíblica no Antigo e no Novo Testamento não é uma divindade passível de ser controlada pelo homem. Pelo contrário, Ele a todo instante mostra que age da maneira mais soberana.


Enfim, retroagir no tempo no intuito de reconstruir um passado é também tentar entender a situação que nos encontramos hoje. Será que já somos capazes de entender o momento em que vivemos a partir de uma busca pelo passado? A proposta desde o início deste texto pautou por este objetivo. É evidente que não dá pra falar de uma história religiosa apenas e tão somente tendo como abordagem apenas o fenômeno religioso seja ele qual for. Não dá pra falar tanto de catolicismo quanto de protestantismo no Brasil se não temos qualquer tipo de interesse pela história do Brasil. Certa vez fui convidado pra falar numa igreja pastoreada por um amigo de longa data. E o assunto era a cerca das comemorações dos quinhentos anos da Reforma Protestante. E no Brasil Reforma Protestante, pelo menos nas igreja é apresentada como um evento de natureza religiosa apenas e tão somente. E sabemos que os movimentos reformadores que tomaram conta da Europa durante o século XVI tinham conotações desde religiosas quanto de políticas e geopoliticas. Ainda dá também pra dizer que a Reforma, desde uma perspectiva religiosa, que ocorre na Europa teve um formato e motivação na plataforma continental da Europa e outro formato e motivação entre os Britânicos. Ou seja, é muito mais natural e plausível que falemos de Reformas e não de Reforma. Nessa busca de reconstrução do passado tento me manter equidistante o máximo possivel, embora seja impossível, ao tratar cada dado informativo e de caráter histórico. Pois, o objetivo aqui em reconstruir o passado visa entender ao máximo, primeiro sob a perspectiva de uma história do Brasil. Como esses cânones cristãos, os quais já são ou fazem parte de algum passado histórico forjado no velho mundo, como eles são recebidos por aqui. E a partir deles um dos primeiros dados informativos que passamos a diagnosticar, dada a defasagem entre um passado histórico e outro, é a presença marcante de anacronismos. É uma discussão que dá pano pra manga. Provoca o gosto por outras investigações de fenômenos religiosos e filosóficos. Acaba trazendo a discussão uma problemática ainda mais intrigante. Intrigante no sentido de que há inúmeros problemas decorrentes daqueles que se dizem representantes legais de uma hierarquia de poder religioso. Àqueles mesmos que se dizem guardiões da reta e sã dourltrina quando o assunto é a transmissão dos seus preceitos religiosos. Este texto não quer explicar, mas é uma tentativa de querer entender fatos explorados de forma exponencial como é o caso de conversões, que doravante em textos que eu possa explorar ao falar novamente deste assunto, vou chamar de migração de uma igreja protestante qualquer para o catolicismo. Por ora, vou ficando por aqui e espero que aquele que entrar em contato com este texto entenda que o que se tentou estabelecer nestas linha foi apenas um juízo crítico. Portanto, qualquer ajuizamento crítico que seja criado entre aqueles que entrarem em contato com este será muito bem vindo. E por ajuizamento crítico não se entende qualquer tipo de ofensa pessoal. Grande abraço a todos.🙏🙏🙏


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¹LÉONARD, G. Émile. O protestantismo Brasileiro. p. 34.


*Na Idade Média, a sociedade feudal era hierárquica, dividida basicamente em quatro estamentos ou estados: Rei, Nobreza, Clero e Servos, sendo que os dois primeiros possuíam privilégios em relação ao último grupo subordinado.


²Ibid, LÉONARD, G. Émile. p. 7.


³SEEBERG, Reinhold. Manual de Historia de las Doctrinas. p.31.


**Bárbaros - Sem consciência de cultura enquanto inserção e desenvolvimento histórico. Na melhor das hipóteses povos sem uma relação histórica com o passado.


⁴Dogmática Cristã, Tomo I. p. 55.


⁵Idem. p. 55.


⁶Idem. p. 19, 48, 50, 53.


⁷TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. p. 334.


⁸Idem, p. 334


⁹Idem, p. 334


¹⁰MONDIN, Batista. Antropologia Teologica. p. 30.

PÚLPITO FORTE, IGREJA SAUDÁVEL.

PÚLPITO FORTE, IGREJA SAUDÁVEL “Por esta causa te deixei em Creta” (Tito 1:5) Nos três versos iniciais da Epístola a Tito, o apóstolo Paulo ...