Texto - Marcos 15:33-39
Tema - Momentos derradeiros na vida de um crucificado.
ICT - Jesus agoniza ainda mais entre a hora sexta e a hora nona. Quando chega a hora nona, expira.
Objetivo Geral - Auxiliar a congregação a concatenar e ordenar as imagens que se constroem nestes momentos finais.
Objetivo Específico - Feita a apropriação dessas imagens conforme o objetivo geral, auxiliar a congregação a construir uma declaração que esteja a altura de uma confissão de fé no Cristo.
Introdução
A temática desta palavra é propositiva e tem como objetivo central estabelecer um parâmetro ou referencial a partir do qual tenhamos condições de construir para este tempo presente uma declaração de fé no “Cristo vivo”. E que esteja de acordo com o que se encontra registrado na escritura sagrada. O lado narrativo deste texto está delimitado por um período de três horas. Reproduz os momentos derradeiros da crucificação de Jesus como agonizantes. O aspecto redacional de como esta agonia ocorre oferece a opção de leitura desta cena como uma obra de arte expressionista onde a natureza se mostra tão solidária e participativa a ponto de gemer ou agoniza-se com o crucificado. O verso 33 é claro e sugestivo para a construção deste argumento ao afirmar que “houve trevas sobre toda a terra” durante este período de três horas.
O verso 34 faz referência a voz de Jesus, fazendo menção não apenas da intensidade dessa voz. Assim como das palavras que profere estando em estado de extrema agonia. E para que não houvesse qualquer tipo de dúvida quanto a sua fala. Já que a mesma é proferida, segundo o texto, em aramaico. Uma vez que estando em profunda agonia apresentasse um quadro catatônico, delírio, ou qualquer outra situação psicopatológica. Sendo assim, seria facilmente diagnosticado que não mais estivesse na plenitude de sua faculdade mental. O fato de o autor reproduzir esta fala e simultaneamente traduzi-la. Mostra que no exato momento que o Cristo agonizava tinha tinha também plena consciência de tudo que acontecia a seu redor.
Por outro lado, boa parte daqueles que ali se encontravam não tinham qualquer noção do efeito significativo da fala do Cristo. Ao afirmarem que clamavam pelo profeta Elias repercutem a noção da dimensão de como entendiam e interpretavam esta fala oriunda da Cruz. Basicamente um entendimento desconexo e desencontrado. Pode até ser que seja pela a forma como estes sons foram proferidos. Era alguém que, após ser submetido a tamanhas torturas na base de um intenso, humilhante e vexatório sofrimento público. Já se encontrava combalido em suas forças e capacidade de articulação e prolação do som por meio do aparelho fonador. O autor se encarrega de traduzir sua fala repercutindo um diálogo com o leitor do texto. Mas, O relato do fato, por sua caracterização Ex eventum, notifica a completa incompreensão dos que ali se encontravam. Assim como denuncia a completa desumanização daquele espetáculo. Aquelas pessoas não são solidárias com o sofrimento daquele que padece na cruz. E por isso são capazes de afirmar: “Ele clama por Elias!
Não vou me prender tanto a este dado informativo. A Bíblia de Jerusalém, um texto publicado por uma editora católica mostra a confusão dos que ali se encontravam assistindo a crucificação de Jesus. A grande maioria era composta por soldados romanos e de fala latina. A confusão é gerada pelo jogo de palavras, sendo que a versão de Marcos se vale da tradição do texto em aramaico. Mesmo assim, dada a origem dos guardas romanos, o próprio texto afirma que esse jogo de palavras era passível de ser confundido com a expressão hebraica HELOHIM, sendo que o registro textual era HELOI, em aramaico. Não sei se todos que entrarem ou entrarão em contato com este texto, conhecem ou já ouviram falar do KARIBS*. É o dialeto autóctone das Antilhas. Esses povos nativos chamavam o mar do Caribe de caraíbas. Reza a lenda que Colombo ao desembarcar por aqui chamou estes nativos de canibais por terem nessa expressão ‘Caraíbas’ uma forma de se referirem ao mar. Ao que transparece a forma desconexa pelo uso gerou bastante desencontros sobre a fala de Jesus em seu sofrimento na Cruz.
É tão verdade a fala de que Jesus mesmo agonizando na cruz gozava perfeitamente de suas faculdades mentais. Que a atitude do soldado ao embeber uma esponja com vinagre. Mostra que sua atitude tinha como objetivo dopá-lo, entorpecê-lo com objetivo de aliviar as suas dores incessantes. Porém, Jesus ao soltar um grande brado. E para este brado, não há nem pode haver uma tradução tal que reflita em sua plenitude a dimensão dos sentimentos contidos neste brado. Ele denota todo e qualquer sentimento. Toda e qualquer expressividade que se origina na miséria humana ocasionada pelo pecado.
Se há um texto, ou versículo que Ilustra bem este momento de dor e sofrimento na literatura bíblica do Velho Testamento é o verso 2 do capítulo 53 do livro do profeta Isaías. Podemos sim estabelecer um paralelo entre este texto do Antigo Testamento. Pois, especialmente neste verso, o profeta ao estar falando do servo sofredor, ele é capaz de falar na situação em que o servo estivesse sofrendo. E afirma que “quando olhávamos para ele nenhuma beleza víamos para que o desejássemos.”
Toda essa forma como as imagens estão aqui ordenadas assinalam. E conforme o Texto ocorre num espaço de três horas. É consequência do nosso pecado e de nossa impiedade. Vale o esforço para nos concentrarmos mais nesta relação estabelecida com o capítulo 53 do livro do profeta Isaías a partir desses elementos dantescos descrito pelo evangelista na crucificação do Cristo. Quem sabe oportunamente possamos nos debruçar sobre esta alternativa.
Por ora, o que nos interessa e que prevalece como foco nesta reflexão é a atitude, melhor dizendo a declaração feita pelo centurião romano ao presenciar e presidir a execução da pena imposta aos crucificados e dentre estes crucificados está Jesus
Esta narrativa de Marcos sugere que há uma simetria temporal e simultânea entre o brado forte seguido da morte de Jesus, com o que acontece no templo em Jerusalém, quando véu do templo se parte de alto a baixo. Um homem moribundo que recebe a aviltante pena de morte romana(crucificação) ao expirar deixando esta vida. Ao que parece, caso ainda não tenhamos sofrido todo e qualquer tipo impacto sobre sua vida e mensagem, que podemos elencar este tipo de simetria como eventos aleatórios.
O objetivo até aqui de apontar alguns elementos que podem passar despercebidos da leitura deste texto. A tentativa de, na medida do possível, procedermos com uma montagem cenica e descricionaria dos relatos deste texto. E dada a simplicidade com que o autor, em seu aspecto relacional constrói esta narrativa. São fatores que favorecem e auxiliam neste empreendimento.
Entretanto, o que vai nortear a partir de agora o foco de leitura e interpretação da narrativa deste texto, é a fala ou declaração do ilustre desconhecido que atende pelo nome de centurião. Não consta de minha parte que o substantivo ‘ilustre’ por mim utilizado possa fazer parte do meu lado sarcástico. Pois um centuirião era uma autoridade, um cargo de alta patente no exército do poderoso império romano.
I - Precisamos pensar na relevância ou não dessa fala ou afirmação.(V.39a)
E ela tem o caráter de fala ou afirmação por não se caracterizar por uma declaração de fé. Outra informação por demais importante é o fato de que aqueles que assistem a execução da pena de morte impetrada conforme a lei romana aos malfeitores, são, pela ordem o comandante(Centurião) e seus comandados, os soldados romanos. Eles estão ali para dar cumprimento a sentença e se certificar de que a sentença foi cumprida. Porém, como se pode traçar o perfil de um centurião romano além do fato de que se trata de um militar de alta patente e que tem à sua disposição o comando de exatos cem homens. Do ponto de vista da hierarquia é alguém que se encontra em uma posição privilegiada na cadeia de comando do maior exército do mundo em sua época.
Como se falou anteriormente é ele a pessoa encarregada de dar cabo a execução da sentença de morte aos condenados. Se ele não agrediu fisicamente a Jesus antes de ser pendurado no madeiro. Com certeza consentiu para que seus comandados se valessem de todo tipo de agressão a que o Senhor Jesus foi submetido antes de ser crucificado. Basta ler o que está registrado neste mesmo capítulo 15:16-20: “Ele foi entregue aos soldados que o conduziram para o interior do pretorio”(Uma espécie de Fortaleza ou posto avancado).
É público e notório de todos que este ou qualquer outro centurião gozava de alguns privilégios na cadeia de comando e na hierarquia do exército romano. É evidente que para galgar postos na cadeia de comando não era suficiente apenas ser um grande guerreiro, já que se galgava também poder e influência política. Logo, este homem estava acostumado a transitar pelos bastidores do poder. Devia ter algum tipo de devoção por algumas daquelas divindades do mundo Greco-romano. Por ser um guerreiro quem sabe não nutrisse sua devoção por ‘Marte’, o qual no panteão dos deuses da mitologia greco-romana é o Deus da guerra. Além dessas divindades principais desse PANTHEON, havia ainda a figura do imperador, também tido como uma divindade. Ao que tudo indica, o conceito de divindade deste centurião era bastante amplo. Com isso, a relevância de sua afirmação diante do crucificado fica bastante prejudicada no tocante a sua credibilidade.
E ao considerarmos que ele se encontra na condição de executor da pena imposta sobre aquele de quem ele faz tal afirmação, o caráter divino de quem ele afirma ser divino traz consigo algum tipo dúvida. É fato de que ele está ali apenas para proceder com a execução da pena. Ele está para se certificar de que a pena foi cumprida, ou seja, os penitentes morreram.
O texto é bem claro ao afirmar que o centurião estava diante do crucificado: “O centurião que estava em frente dele”..., Verso 39a. A partir do momento que o crucificado expira é sua obrigação se certificar de que a pena foi cumprida. Por essas considerações dentre tantas outras que poderíamos trazer a lume, ou destaque quanto a declaração do centurião. Dá para se concluir esta fala tão impregnada de imperfeições, embora traga consigo uma certa fagulha, ou centelha de fogo para o entendimento sobre o caráter divino da missão do Cristo crucificado e posteriormente ressuscitado dentre os mortos.
Logo, desde uma perspectiva de fé genuína em Cristo Jesus. A fala ou declaração do centurião romano não tem e não pode ter qualquer tipo de relevância*. Mais a frente, tentaremos explicar por que esta fala é insignificante para a fé cristã.
II - Entendendo a fala propriamente dita do centurião(V.39b)
Aqui existe a necessidade de entender tal fala e distingui-la da tradição. O problema aqui se encontra muito mais na tradução da fala do que a própria fala. Não dá para entrar no mérito dessa tradução especificamente. E não é intenção fazer com que isto seja abordado neste exato momento. Para se ganhar algum tempo, abrindo um parêntese. Deixando ele aberto, por ora. Uma vez que precisamos avançar. Precisamos de uma ressalva para uma leitura que obedeça alguns parâmetros gramaticais, porém, sem que seja muito rebuscada. Ela deve ser simples e objetiva. Quando o predicado não vem precedido de artigo e dependendo da posição em que se encontra. Esses dois elementos enfatizam natureza e caráter.
Lembremos o que foi dito ao final de primeiro tópico, em seu último parágrafo. Que tentaria explicar porque essa fala do centurião era e é tão irrelevante para a genuína fé cristã? E também, como foi assinalado a existência de um problema de tradução. Ao que parece, o tradutor, ainda não dá pra dizer bem ou mal intencionado, quis com sua tradução dar maior relevância do que a fala possui. Pode ser que quem traduziu tivesse em mente a heresia ARIANA. E aí para blindar o Texto de qualquer investida desse tipo de heresia no futuro tenha feito esta tradução do jeito que se encontra.
III - A declaração ou fala do centurião não vale como confissão de fé.(V.39)
Ela não vale como e confissão de fé e, pelo que me consta, não há na história da tradição e das leituras interpretativas sobre o martírio de Cristo no calvário alguém que tenha visto nestas palavras do centurião ao contemplar tanto o martírio de Jesus desde que ele fora entregue sob a custódia da guarda romana. Sua entrada no pretório e os sucessivos abusos e violência que lhe foram impostos desde este momento, não há nada que aponte um elemento sequer de que a fala deste oficial romano tenha adquirido o status de confessionalidade.
Por conta disso, nada melhor do que mais uma vez fazer referência a nota de rodapé da ‘Bíblia de Jerusalém’, que neste texto já foi mencionada. Ela traz a seguinte informação sob a forma de comentário acerca desta declaracao: “Embora o oficial romano não tivesse a possibilidade de dar a esta confissão todo o sentido que nós lhe atribuímos, Marcos vê nela, certamente, o reconhecimento que um pagão teve do caráter sobre humano da personalidade de Jesus”.
Que o centurião tivesse como elemento aferidor para o que estava presenciando na crucificação, uma mentalidade forjada no ambiente e contexto do mundo greco-romano e toda tradição mitológica daí decorrente, acerca disto já foi falado neste texto. Sao elementos encontrados neste ambiente e contexto que fazem com que desde uma perspectiva de fé cristã fazem com que identifiquemos o mundo greco-romano de onde emerge tanto a figura do centurião romano, assim como esta fala desprovida do que já falamos de confessionalidade, pelo menos cristã. É a partir destes elementos que afirmamos que a referida fala reflete o paganismo do centurião.
Como é uma declaração desprovida de confessionalidade. Não é uma confissão de fé jamais teria a abrangência, profundidade e relevância. Embora o centurião estivesse presenciando o ápice da manifestação da graça de Deus-Pai revelada na crucificação de Jesus Cristo. Nesta mesma linha, é interessante que se faça algum tipo de distinção entre o que é efetivamente uma declaração de fé em Jesus e uma fala que destaque apenas uma ou outra qualidade sobre o caráter de Jesus.
Podemos encontrar no texto sagrado uma ou mais declarações de fé na Bíblia. Que sejam biblicamente aceitas pela Igreja? Sim podemos. Podemos até mesmo listar algumas delas: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”(João 1:29); “Portanto, se o sangue de bodes e de touros e a cinza de uma novilha aspergidos sobre os contaminados, os santificar, quanto a purificação da carne, muito mais o sangue de Cristo que, pelo Espírito Eterno se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas para servirmos ao Deus vivo!”.
Podemos disponibilizar uma terceira declaração de fé diretamente extraída da escritura. Embora reconheçamos que há tantas outras que poderiam figurar nesta lista. Talvez, esta seja a mais emblemática. Ela se encontra em Mateus 16:13-17. O texto diz que o Senhor estava chegando a Cesareia de Filipe. Ali ele resolve indagar a seus discípulos quem o povo dizia ser o Filho do Homem? Eles respondem: Uns João Batista; outros Elias; e outros Jeremias ou alguns dos profetas. E vocês, voltando-se novamente para eles com a mesma pergunta: “Quem dizeis que eu sou”?
E aí, é preciso entender que a pergunta foi endereçada aos discípulos. Mas, a confissão é de Pedro mesmo. E Jesus trata desta temática desencadeada por esta confissão como sendo do próprio Pedro. Pedro faz uma confissão ao afirmar que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus Vivente. Durante algum tempo deixei me levar pelo conceito de personalidade corporativa que é próprio da cultura e pensamento judaico. E se faz muito presente nos escritos, mais precisamente na teologia de Paulo. Por conta disso, achava que essa declaração de fé feita por Pedro, não era apenas dele, mas representava o conjunto dos discipulos, apóstolos, etc. Pelo contrário, a declaração é dele. Somente depois passa a ser a confissão de todos. E, historicamente da Igreja de Cristo.
Falo isso também como Batista e, principalmente, pela ênfase que sempre damos acerca da experiência pessoal. É de uma relação pessoal que construímos, ou podemos construir para com Deus nosso Pai uma relação de fidelidade. E como disse, primeiro foi uma experiência pessoal de Pedro. Que como instrumento divino foi o canal, ou meio para nos blindar com essa maravilha vinda diretamente do céu. Por meio do Pai.
Conclusão
Ainda não dá pra dizer que os meus objetivos foram alcançados para o que me propus abordar neste sermão. Como afirmei no início desta palavra, era minha intenção me apropriar literalmente das imagens que criamos a partir da leitura e relato deste texto. Para somente depois construirmos uma confissão de fé que seja nossa em tempos sombrios e que nos sirvam não apenas de um elo de comunhão da Igreja consigo própria e com o Senhor da Igreja nestes tempos sombrios que nos encontramos. E em função de que partilhamos dessa esperança e objetivo? Para que não se perca a fidelidade para com o evangelho e o Cristo que nele está revelado.
Qual deveria, ou deve ser a nossa postura? Ela tem que ser inspirada pela própria escritura. E que o agir do Espírito divino nos auxilie a filtrar tudo tudo que tem procedência divina do que não tem procedência divina. De certa maneira, nossa atitude precisa ter como pressuposto o comportamento e a ética dos bereianos. Porém, a vida cristã é suficientemente dinâmica para que não nos limitemos apenas e tão somente nesta atitude. Expertise e perspicácia na palavra do Senhor é uma exigência que nos fortalece juntamente com a unção do Espírito. Somente assim conseguiremos frustrar as ciladas e investidas do maligno.
Amém!!!