Liturgia e Tradições Eucharisticas

Recentemente fiz uma provocação a alguns amigos mais chegados a cerca de como eles viam a celebração da Ceia do Senhor, comumente conhecida em alguns círculos denominacionais  como EUCHARISTIA. Esta provocação tinha como fundamento, um programa de pregação e liturgia de uma Igreja simplesmente denominada de Cristã e que fica no bairro da Tijuca. Segundo suas próprias mídias sociais, obedecerá um cronograma durante este mês de Outubro em que, a começar deste domingo 03/10/2021. Toda a dinâmica de ministração da palavra e celebração da ceia estará a cargo da pastora Romi Benck, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil(IECLB). E na sequência dos próximos domingos outros ministros das demais confissões de fé do Protestantismo brasileiro estarão fazendo uso da palavra e ministrando essa ordenança de Cristo conforme os seus respectivos ritos.


Cabe aqui, e de uma forma muito superficial e não tendenciosa. E quando falo de superficial e não tendenciosa, significa que as informações aqui registradas são percepções de quem observa bem de longe. E não tem, nem pode avocar pra si a prerrogativa de ajuizar e censurar. Pois, segundo sei, essa dinâmica de igreja a quem se atribui o nome de Igreja Cristã na Tijuca, especificamente. É uma igreja Batista, e como tal, sua constituição e estrutura são geridas em conformidade com a hierarquia de poder e governança própria dos batistas.


Entretanto, se do ponto de vista de sua administração eclesiástica ela é tocada como uma igreja Batista. Sua doutrina teológica e eclesiológica  de forte apelo denominacional tem sido bastante flexibilizada. Pelo menos no quesito liturgia "EUCHARISTICA", que é o que nos interessa aqui. Bem, como já foi dito, essa percepção é bastante superficial. E pode ser que haja algum equívoco de minha parte na leitura que tento fazer da ação e trabalho conjunto desta igreja. E que a meu juízo parece ser uma abertura significativa de diálogo com as demais confissões de fé no seio do Protestantismo. Mas, não estou também aqui para dar a mão a palmatória, até porque minha intenção não é a de levantar dúvidas quanto a ética eclesiástica desta ou daquela igreja. 


Se for uma estratégia para abertura de diálogo é viável que o ponto de encontro para que este diálogo aconteça esteja na base de uma celebração litúrgica como a EUCHARISTIA?  A princípio, acho que sim. Aqueles que são Batistas estão acostumados a entender a Ceia do Senhor como um memorial. Ou seja, ao celebrarmos a ceia nossa memória nos remete ao martírio de Cristo no Calvário. Mas, é apenas e tão somente um memorial. E talvez possamos aprender e nos enriquecer com o aspecto litúrgico e teológico das outras confissões de fé evangélicas e protestante. Ainda que esteja tão somente atrelada a seu viés histórico.


E um detalhe que reforça muito essa tentativa de diálogo desde uma perspectiva litúrgica é o fato de que por assim dizer a constituição formal, doutrinal, teológica, interna de cada grupo envolvido neste diálogo e a direção de seus líderes, não interfere na orientação e composição dos respectivos rebanhos ou comunidades. Acho que posso afirmar isto quando vislumbro ver que a característica Batista no que concerne a sua autonomia congregacional e de cooperação permanecem como são.


Pois bem, se efetivamente o principal destaque que tento entender na tentativa de diálogo desta igreja com as demais confissões da fé protestante está atrelada a uma celebração litúrgica. Onde o objetivo a ser alcançado está enfatizado pelo aspecto distintivo entre umas e outras. Por outro lado, há mais pontos em comum e que nos unem do que aqueles que nos afastam. Os pontos em comum são, pela ordem, o fato histórico gerador(O martírio de Cristo, ou crucifixão); o protagonista do fato(Cristo); o testemunho apostólico do fato; e consequentemente toda a tradição que a igreja estabelece para a preservação do fato através de seus documentos, inclusive, a própria tradição canônica dos manuscritos.


Tenho produzido alguns textos e postado nesta ferramenta, onde uma das coisas que mais tenho abominado é esse caráter fragmentário em que a fé protestante se encontra. E em algumas ocasiões, ou até mesmo em conversas com amigos mais chegados, expresso minha descrença numa situação em que possamos superar esta grande mácula ou incapacidade do Protestantismo de se reagrupar e construir pontes em que alguns dos princípios mais importantes e emblemáticos da fé cristã sejam comuns a todos. E como já destaquei, vejo uma espécie de luz no fim do túnel inaugurada por esta igreja cristã da Tijuca e sua iniciativa de diálogo, tendo como ponto de partida o elemento que, para muitos, seja o ponto nevrálgico, que é a questão da liturgia. 


Uma liturgia em alguns contextos religiosos, mais especificamente quando me refiro ao ambiente cristão e católico, ou seja, à renovação litúrgica inaugurada e inspirada desde a época de promulgação do Vaticano II(Missal de Paulo VI), é o ponto mais delicado e que tem provocado alguns traumas e desavenças. Já quase levou a igreja a um cisma(Monsenhor Marcel Lefebvre). E ultimamente tem acirrado essa disputa quanto à observância de duas liturgias e, segundo a determinação papal de Francisco, a celebração do rito tridentino, ou rito antigo está limitada e apenas pode ser realizada com autorização dos respectivos bispos(Custodes Traditionis). 


Este tem sido um dos grandes problemas, quando se percebe a dificuldade de se manter dois ritos Litúrgicos. A principal dificuldade é o risco de coexistirem duas igrejas e consequentemente a quebra, muito natural, da unidade. Ainda mais e especificamente tendo como exemplo a dificuldade com relação a EUCHARISTIA. claro que no contexto geral da missa no catolicismo. Por outro lado, parece que é a solução dada para uma aproximação com os demais grupos confessionais do Protestantismo histórico. Era a abertura que se esperava para um diálogo mais próximo e fraterno. A princípio entendo e vejo esta iniciativa como salutar e promissora. Todavia, ainda é uma situação muito incipiente e que apenas o tempo nos mostrará seus aspectos positivos, ou negativos.


O exemplo do catolicismo e o apego de um catolicismo mais específico e tradicional a um rito antigo(Missal reeditado por João XXIII) foi por mim apontado como o elemento de desavença e divisão. E que desde o Motu Próprio denominado de "Summorum Pontificum'' e que, segundo o atual pontífice, tem gerado a existência de duas igrejas. Este, por outro lado, não é e nunca foi, quero entender que não, o principal elemento de divisão no seio do cristianismo protestante. O cristianismo protestante historicamente esteve muito mais atrelado a questões de natureza eclesiológicas e de governo do que propriamente a questões de natureza litúrgicas.


Entretanto, cabe a cada um de nós fazer o acompanhamento dessas iniciativas, tal como a exemplificamos e que ainda durante este mês de outubro tem sido levada a termo pela referida Igreja Cristã da Tijuca. E o nosso interesse é de que esta iniciativa possa gerar bons frutos tanto para a preservação da fé cristã, quanto para uma maior aproximação entre os referidos grupos denominacionais envolvidos neste processo através de suas respectivas lideranças. 


 









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